Charlie Brown está de volta às paradas. Agora, nos cinemas! Parece que esse menininho fracassado não desiste mesmo. São mais de 60 anos de existência desde a primeira tirinha de 1950. Charlie é tão velho que serviu de influência para várias outras tirinhas, como Calvin e Haroldo. E é tão velho que nas primeiras histórias era muito mais fácil você ver crianças escutando rádio do que vendo televisão.

E é difícil existir por 60 anos sem mudar nada. Boa parte do que você vai ver no filme não existia na década de 50. E uma boa parte do que existia nas tirinhas de 50 se perdeu para sempre. Por isso eu gostaria de destacar algumas excentricidades dessa época.

 

Charlie Brown: fracassado, mas nem tanto

As cenas mais famosas desse carequinha sempre o mostram falhando em alguma coisa. Charlie vai soltar pipa; a pipa cai numa árvore. Charlie vai chutar uma bola; a Lucy tira a bola dos pés dele. Charlie vai ganhar o jogo de baseball; ele tropeça no cadarço na hora de correr para as bases. É um mandamento da série: o bom e velho Chuck fracassará.

E parte desse espírito já está na sua primeira aparição, quando um personagem diz que o odeia sem qualquer motivo. Só que logo nas tirinhas seguintes, Charlie é apresentado como um cara popular, e até espertinho. Está certo que não é difícil se destacar quando sua vizinhança só conta com outras três crianças. Mas cenas do Charlie fracassando com força são bem raras. Ele chega até a conseguir saltar pipa (numa altura ridiculamente baixa, mas consegue). E ainda tem moral com a mulherada.

Charlie Brown vivendo a vida intensamente
Vivendo a vida intensamente.
Ele tem o jeito.
Ele tem o charme.

 

Snoopy, o cachorro normal

Falemos a verdade! Aqui no Brasil nunca conseguiram chamar a série nem de Peanuts (nome original), nem de Minduim (um nome que acho bem legal), nem de Charlie Brown e sua turma. Sempre foi Snoopy e ponto. Tanto é que no título do filme, meteram um Snoopy no meio que senão ninguém ia assistir. Por isso é um pouco chocante ver que o Snoopy no início não passava de nada mais do que um cachorro qualquer.

Ele nem tinha o mesmo traço por qual é conhecido. Ele anda em quatro patas, tem um corpo mais proporcional, não fala (bem, tecnicamente a versão popular do Snoopy não fala, só pensa alto) e não dorme em cima do telhado da casa. Aliás, dá a entender no início que o Snoopy é um cachorro da vizinhança, e não do Charlie Brown. Só com o tempo que vai se firmando a relação dele com Charlie.

Alguns relacionamentos têm um começo turbulento.
Alguns relacionamentos têm um começo turbulento.

 

Ciranda do amor

O mais doido das primeiras tirinhas é o quanto elas são sobre relacionamento. Toda hora os personagens falam sobre casamento. Toda hora! Na verdade parece que são um bando de crianças que levam a sério demais suas brincadeiras de casinha. Tudo começa com um triângulo amoroso: Schermy, Patty e Charlie; com Patty, uma espécie de pré-Lucy, não perdendo a chance de se aproveitar e tirar uma casquinha dos dois.

Depois entra Violet, e ao invés de cada um escolher seu par e se aquietar, não, as criancinhas redobram o esforço para ter todas as garotas e garotos ao mesmo tempo. Quer dizer, menos Schermy. Todo mundo passa a perceber que o Schermy é um mala e nem as garotas querem mais saber dele. Hurg… Schermy!

Isso que eu chamo de um bom exemplo para as crianças! :P
Isso que eu chamo de um bom exemplo para as crianças! :P
É difícil se manter fiel numa vizinhança de 2 garotas.
É difícil se manter fiel numa vizinhança de DUAS garotas.

 

Schulz, o feminista

Ok, talvez seja exagero chamar o criador das tirinhas de feminista, mas com certeza ele valorizava o papel da mulher. Desde o começo ele dava destaque a personagens femininas fortes, e isso em 1950, época em que nos EUA tentavam arrastar as mulheres novamente para o serviço doméstico depois do fim da Segunda Guerra.

E, diferente do que é comum em trabalhos infantis, Schulz sempre colocou meninos e meninas brincando juntos. Em vez de ser aquela coisa de Meninos contra Meninas. Isso é uma característica mais forte em Schulz do que em Bill Watterson. No Calvin e Haroldo, por exemplo, o Calvin sempre pegava no pé da Susie, uma das poucas personagens femininas constantes na série.

O que eu gosto dessa tirinha é que ela começa já com a menina puta da vida.
O que eu gosto dessa tirinha é que ela começa já com a menina puta da vida.

 

Uma cara diferente, uma cabeça diferente

É bem visível como houve uma mudança no estilo de Schulz durante os anos. Isso pode ser visto nos desenhos, que não possuem aquela irregularidade tão particular das tirinhas mais conhecidas. Sabe, tipo aquele boca tremida quando os personagens estão angustiados.

Fica a sensação de que o Schulz no começa da carreira tinha muito medo de errar e acabava fazendo um traço certinho demais. Depois ele vai se soltando, adicionando detalhes, retirando o que é desnecessário e aprimorando os personagens.

Mas, além do desenho, o próprio conteúdo é muito diferente. O que tornou as histórias de Charlie Brown e sua turma tão populares foi o caráter intimista dos personagens. Geralmente é comum ver textos imensos saindo da boca das crianças (e do snoopy), quase sempre expressando suas angústias quanto à vida, a felicidade, o amor e seus sonhos.

Nas década de 50, as tirinhas são muito mais voltadas para piadas rápidas. E é até comum ver episódios sem qualquer diálogo. Não que isso seja ruim. Muitas vezes Schulz faz trabalhos bem interessantes usando elementos narrativos, como a ilustração do som. É um exemplo de como seu pensamento ia mais longe do que as piadas.

Ninguém gosta de metidos, Charlie Brown.
Ninguém gosta de metidos, Charlie Brown.

 

Personagens que surgem e personagens que se vão

Antes havia Schermy, Patty e Violet. Schermy era um chato, sem qualquer personalidade (hurgh… Schermy!). A Patty era muito parecida com a Lucy, mandona e caprichosa. A Violet era sem gracinha e tinha o visual parecido com a Lucy. Então, não é uma grande surpresa que os três tenham praticamente desaparecido com o tempo.

Os primeiros personagens mais conhecidos a surgirem foram Schroeder em 1951, a Lucy em março de 1952 e Linus logo depois, em setembro. Todos surgiram primeiro como bebês e foram crescendo. O próprio Charlie Brown tinha 4 anos só, chegando à maturidade com 8 anos, sua idade eterna.

O Schroeder desde o início era exímio em seu pianinho. Porém, não sabia dizer uma só palavra. A Lucy já se mostrava espertinha, pregando peças no pai e no Charlie Brown. Aliás, o Charlie era uma espécie de irmão mais velho ou babá para Lucy, sempre cuidando dela nas primeiras aparições. Mal sabia ele que a pequena se tornaria o seu maior pesadelo. Quanto a Linus… sem o cobertor dele, ele não era muito Linus ainda, e isso só foi acontecer em 1954!

Shroeder ganha seu piano!
Shroeder ganha seu piano!
A Lucy rouba a cena nas tirinhas bem rápido.
Lucy infernizando a vida do pai. Impressionante como ela rouba a cena bem rápido.

 

O futuro

Durante muitos anos ninguém mais foi adicionado a trupe. Foi na década de 60 que a série deu uma guinada, com a apresentação de mais personagens e estabelecendo o visual que todo mundo está acostumado. É algo muito particular dos cartuns de jornal, a gente poder acompanhar a evolução do autor e dos personagens. Dá para dizer que gerações cresceram junto com o Charlie Brown.

E agora que a adaptação para os cinemas conquistou sucesso, pode ser o início de uma nova era para a turma do carequinha. Talvez decidam fazer uma versão adolescente estilo Turma da Monica Jovem. Contamos com o fantasma de Charles Schulz para não deixar isso acontecer.

O que podemos ter certeza é que Charlie Brown não desiste nunca do espetáculo.

Você pode ler esta e outras tirinhas no site Gocomics.
Você pode ler esta e outras tirinhas no site Gocomics.

 

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Társio Abranches
Aluno com mais estrelas douradas na classe de alfabetização da Escola Cachinhos de Ouro, também sou formado em Rádio e TV e em Produção Editorial pela UFRJ, mas não com tanto louvor. Trabalho como revisor de livros, tenho um conto publicado pela Andross Editora, já fui crítico de quadrinhos do site O Grito e vez ou outra faço uma tirinha para confirmar que desenho mal. Você vai me ver falando sem parar sobre quadrinhos e suas páginas que misturam cultura pop, arte, vanguarda, conservadorismo e tudo que couber num balão de fala. Vou mostrar o que tem de melhor e o que tem de pior no mundo do gibi, então não se preocupe se você está por fora do assunto. Acompanhando a coluna você vai entender que tem quadrinho para cada um e que nem tudo é super-herói com cueca para fora da calça. E se você curte cueca para fora da calça, tem lugar para isso aqui também.

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