O OUTRO LADO. LONDRINA, PR, 1955. FOTO: MARCEL GAUTHEROT/ACERVO IMS

Um dia em julho de 2013, conheci a capoeira de Marcel Gautherot através da bela defesa da dissertação do artista Eduardo Monteiro. Hoje, ao me inundar pelas imagens da internet, me deparo com esta imagem que me traz o mais simples e o mais misterioso de todos os questionamentos – o que há do outro lado? O que há do lado de lá? O que se passa lá, onde eu não estou?

 

Quatro pessoas e meia somadas a duas bicicletas se equilibram e formam uma parede, uma cerca, não de arame farpado, tampouco de madeira (a de madeira é a outra, sobre a qual os homens e as bicicletas se apoiam), mas de homens. Homens no mais banal do sentido da humanidade – o olhar na mesma na direção. O olhar em perspectiva que nos aproxima e nos une, que nos faz ser humanos e viver em sociedade, que nos diferencia, ou ao menos deveria, de animais irracionais. Olhar juntos para a mesma direção. Quatro homens e meio que se equilibram entre bicicletas e um chão de barro, quatro homens e meio que disputam com a madeira uma maneira de observar o que está lá, lá onde não estou.

 

O sol reflete na coroa da bicicleta à esquerda. As sombras dos homens e das bicicletas tão exatas, tão escondidas pelos corpos me fazem calcular, se eu não estiver enganada, que o relógio estava pendendo suas 12 horas. Fome? Almoço? Talvez.

 

Grita a meus olhos saber o que há no lado de lá, lá onde não estou. E este pêndulo, esta pergunta que vai e vem em minha cabeça, trazendo a recordação dos escritos do Michel Foucault a respeito da heterotopia e da utopia que é o espelho – este que dá a mim mesmo minha própria visibilidade, minha imagem, eu, invertido, inexistente e existente naquele espaço virtual que se abre diante de mim – lá onde eu não estou.

 

Que lugar é este onde não estou?

 

As linhas retas da cerca de madeira em formato que sugerem um retângulo losangular parecem setas que apontam para cima e lembram o formato das serras nas montanhas que guardam um lado de lá. Os homens, por sua vez, sobre quatro círculos, sobre um chão de barro-negro-cinza-vermelho, na elegância da década de 1950 com sapatos sociais, calças de linho, cinto e cartola, espiam aquilo que daqui não podemos ver.

O céu que tudo sabe e tudo vê e a terra que tudo sente e ressente sabem, veem e compõem um cinza-azul de céu em preto e branco e um barro-vermelho-cinza-e-cinza-claro em preto e branco me dizendo que, nem mesmo as cores mais óbvias se dão à qualquer um, mas sim àqueles cuja disponibilidade leva a imaginar o que se passa lá, antes e depois da captura daquela imagem, antes e depois do instante decisivo que Cartier-Bresson nos incitava.

 

Daqui e não do ponto de vista do francês Marcel Gautherot, que saiu lá do lado de lá, lá da Europa, da França, de Paris, para abrigar-se em terras brasileiras, sob o sol que arde o pelo e bronzeia a pele, é que escolho olhar. Daqui, do ponto de vista de quem não tendo visto tantas coisas assim, o que viu escolheu ver com olhos de quem já percebeu que em um “mirar e ver”, conforme proposto por Guimarães Rosa, há muito mais do que a evidência de um preto e branco. O preto e o branco, ao contrário do que os ditos populares possam apregoar, não evidenciam o real e o objetivo. Antes, o preto e branco na fotografia me fazem perceber a existência de múltiplas e infinitas combinações possíveis pelo preto e branco a simbolizar as cores de um arco-íris que não se dá, mas que se faz em enigmas decifráveis ou decifravelemente-imagináveis para aqueles que se permitem relacionar com a imagem.

 

Saber o que há do lado de lá talvez seja o reflexo de um mirar e ver no espelho que perscruta saber o que há aqui, no lado daqui. Talvez a cerca de madeira seja um reflexo do que a nem todos será dado a saber – o que há no lado daqui. Alguns tentarão desvendar através de frestas, outros buscarão apoio sobre rodas soltas em um solo incerto. Mas o que importa é aquele, aquele que nem todos sabem que existe, aquele que nem todos conseguem ver, aqueles que alguns até querem ver e, eventualmente, verão a sombra, mas jamais conhecerão de verdade, aquele que está do outro lado da cerca tampouco o que ambos fazemos do outro lado– o lado de lá que agora já é o lado de cá.

 

Este Shinning, este que não se importou com a barreira e veio viver o que há do lado de cá, este interessa. Este é o outro, aquele outro que é o outro e, ao mesmo tempo, meu encontro comigo mesmo, com minha paz, com minha plenitude, com minha conexão com a natureza e com a minha natureza.

O OUTRO LADO. LONDRINA, PR, 1955. FOTO: MARCEL GAUTHEROT/ACERVO IMS
O OUTRO LADO. LONDRINA, PR, 1955. FOTO: MARCEL GAUTHEROT/ACERVO IMS

 

Pensando no cheiro da noite do quintal de meus avós em noites de verão

Caroline Alciones

 

 

 

*Escrito por Caroline Alciones, mestranda do Programa de Pós-Graduação em Estudos Contemporâneos das Artes da Universidade Federal Fluminense (UFF). É bacharel e licenciada em Letras Português-Inglês pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e bacharel em Produção Cultural pela UFF, tendo sido bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) da Universidade Federal Fluminense (2012-2013), é membro do grupo de pesquisa CNPq “Arte e Democracia: produção e circulação da arte na contemporaneidade” sob orientação do Prof. Dr. Luiz Sérgio da Cruz de Oliveira. Caroline Alciones faz traduções e revisões no campo das artes, além de ter participado da curadoria das exposições Arte e Cultura indígena do povo Karajá e Genealogia Nobiliárquica do Teatro Brasileiro. Atualmente, trabalha junto ao PROJETO SOCIAL A TOCHA!

Participou da primeira equipe de colunista do TagCultural, contribuindo com seus textos sobre Artes Visuais de 07 de abril de 2014 à 09 de março de 2015.

Caroline Alciones
Caroline Alciones é mestranda do Programa de Pós-Graduação em Estudos Contemporâneos das Artes da Universidade Federal Fluminense (UFF). É bacharel e licenciada em Letras Português-Inglês pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e bacharel em Produção Cultural pela UFF, tendo sido bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) da Universidade Federal Fluminense (2012-2013), é membro do grupo de pesquisa CNPq "Arte e Democracia: produção e circulação da arte na contemporaneidade" sob orientação do Prof. Dr. Luiz Sérgio da Cruz de Oliveira. Caroline Alciones faz traduções e revisões no campo das artes, além de ter participado da curadoria das exposições Arte e Cultura indígena do povo Karajá e Genealogia Nobiliárquica do Teatro Brasileiro. Atualmente, trabalha junto ao PROJETO SOCIAL A TOCHA!

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