Parte 3: A imaginação (Indomável Sonhadora)

Deixei para a terceira parte desse especial (e meu 30º post aqui no TagCultural) o filme que mais se aproxima narrativamente do que deu origem a esse especial (quem não sabe do que eu estou falando é só olhar lá no primeiro post do especial).

“Indomável Sonhadora” segue o caminho da imaginação de encontro ao olhar infantil dentro do cinema.

A história narra a dura realidade da população pobre da cidade de New Orleans nos Estados Unidos, que sofreu com o desamparo do Estado após ser atingida pelo Furacão Katrina em 2005.

No filme, a protagonista, Hushpuppy, vive com seu pai em condições precárias numa comunidade fictícia chamada “Banheira”. Lá, os moradores moram em barracos arranjados em cima do rio, e com a passagem do furacão, muitos deles perdem suas casas.

Abandonada pela mãe e com o pai doente, a pequena, vivida pela brilhante Quvenzhané Wallis, precisa aprender a sobreviver sozinha naquele ambiente hostil e instável. É aí que a imaginação ganha vida. A vivência naquele espaço, em meio à natureza e aos animais, faz com que a menina se enxergue como uma pequena parte de “um universo muito, muito grande”, como ela mesma diz. Sua dimensão de fantasias está ligada à animais selvagens e pré-históricos, e isso diz muito sobre como o imaginário infantil é construído.

Essa construção é revelada de forma bem clara no filme. A menina ouve uma vizinha falar sobre os grandes animais pré-históricos e como os humanos eram pequenos diante deles. Ouve também sobre o derretimento de calotas polares, elemento que também passa a habitar sua imaginação.

Protagonista e narradora, Hushpuppy não só dá asas à sua imaginação para interpretar o universo à sua volta mas também se mostra uma garotinha forte e determinada, que desde cedo entendeu que naquele espaço bruto e violento, o seu lugar deve ser conquistado a duras penas.

A interpretação arrebatadora de Quvenzhané Wallis rendeu à pequena uma indicação ao Oscar® de melhor atriz. Isso mesmo, aos 6 anos de idade! Ela é a atriz mais jovem a concorrer ao prêmio.

O cenário e situação da história contada em “Indomável Sonhadora” é uma fonte de inúmeras manifestações artísticas nos Estados Unidos, que lutam pela vida da população negra e pobre de New Orleans. O clipe mais recente da cantora Beyoncé traz (dentre outras bandeiras importantíssimas) o questionamento sobre o que aconteceu em 2005 no estado de Louisiana. Clipe aqui para ver esse clipe la-cra-dor!

Na conclusão desse especial é preciso dizer que existem muitos caminhos para o cinema encontrar esse olhar tão rico e inesgotavelmente criativo que é o olhar da criança. E agora, depois de tanto pesquisar e ler sobre o assunto, chego a acreditar que o olhar do cineasta é uma manifestação dessa forma de ver o mundo. A criação de universos e a elaboração deles em imagem e som é uma arma poderosa e encantadora que só nos nossos mais belos sonhos infantis poderíamos realizar.

Hoje, o “Sistema Solar” está totalmente filmado e se metamorfoseando na fase de pós-produção. O caminho ainda não está completo, mas do tanto que andei até aqui posso dizer: a busca pela infância no cinema é difícil, mas é bonita e vale a pena ser vivida.

Nathália Oliveira
Parte cineasta, parte bailarina e parte roteirista, Nathália Oliveira gosta de fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Formada em Cinema pela PUC-Rio, ela trabalha atualmente como redatora publicitária na Rede Telecine e roteirista de projetos independentes. Ao longo de sua formação acadêmica fez curtas universitários e clipes musicais como assistente de direção, assistente de produção, assistente de fotografia, conselheira e animadora de equipe. Trabalhou durante 6 meses como voluntária no projeto social CriAtivos organizando um cineclube para crianças. Isso tudo sem deixar de frequentar as aulas de ballet e jazz. Apaixonada por cinema brasileiro, esta é sua primeira colaboração para um site cultural. Nathália acredita que todo filme merece ser visto e vai tentar te convencer disso.

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