Parte 2: O universo infantil (Menino Maluquinho – O Filme)

“Uma vez um alemão, um francês e um americano foram fazer um picnic. Aí eles arrumaram tudo e foram passear.”

Essas são as primeiras palavras que ouvimos quando assistimos “Menino Maluquinho – O Filme”. É o início de uma piada contada pela voz debochada e doce do ator Samuel Costa.

Se no primeiro texto desse especial o caminho usado pelo cineasta para chegar ao olhar infantil foi sua própria memória, nesse segundo caso, esse percurso é todo um universo que rodeia as crianças.

Falamos aqui de uma infância que de tão regional, torna-se universal. O filme se passa em Minas Gerais, nos anos 1960. Época em que criança brincava com criança (sem a opção vídeo-games e computadores) num lugar onde havia espaço e segurança pra que essas brincadeiras acontecessem nas ruas, pela cidade ou no campo. Por isso, todas as clássicas brincadeiras estão presentes no filme como elementos que nos empurram na direção do olhar infantil. Carrinho de rolimã, bolinha de gude, pique-pega, o peão de madeira…  Está tudo lá. Não tem como não se identificar. Mesmo alguém que não tenha brincado dessas coisas na infância, vai saborear ali um comportamento, um sentimento e uma liberdade que provavelmente sentiu em qualquer momento divertido que viveu quando criança.

Outro aspecto que compõe esse universo é a cor. O filme é pintado com cores vibrantes nos espaços e no figurino. O amarelo vivo é a cor que representa o Menino o que evoca para sua posição “solar” (olha eu encaixando meu filme aí sutilmente) na história. Tudo gira em torno dele e ele é a fonte de energia para todos os demais personagens e acontecimentos.

O som é decisivo: nada fala mais ao universo infantil do que risadas e burburinho de criança na hora do recreio. Logo na primeira cena somos rodeados pelo som do pátio da escola. Som específico e bonito, que pode ser encontrado até hoje, no colégio mais próximo de você. A impecável trilha sonora conta com gênios como Milton Nascimento (canto e melodia essencialmente mineiros), Fernando Brant e Antonio Pinto.

Mesmo com todos esses aspectos alinhados, o verdadeiro mérito desse filme é a direção e interpretação das crianças. Todas estão absolutamente confortáveis na frente da câmera e cada personagem deixa sua marca registrada na tela sem fazer muito esforço. É de brilhar os olhos.

“Menino Maluquinho – O Filme” é um caminho divertido, colorido e doce que nos leva ao olhar infantil sem esforço algum.

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Parte 3: A imaginação (Indomável Sonhadora)

(Quvenzhzé Wallis)

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Nathália Oliveira
Parte cineasta, parte bailarina e parte roteirista, Nathália Oliveira gosta de fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Formada em Cinema pela PUC-Rio, ela trabalha atualmente como redatora publicitária na Rede Telecine e roteirista de projetos independentes. Ao longo de sua formação acadêmica fez curtas universitários e clipes musicais como assistente de direção, assistente de produção, assistente de fotografia, conselheira e animadora de equipe. Trabalhou durante 6 meses como voluntária no projeto social CriAtivos organizando um cineclube para crianças. Isso tudo sem deixar de frequentar as aulas de ballet e jazz. Apaixonada por cinema brasileiro, esta é sua primeira colaboração para um site cultural. Nathália acredita que todo filme merece ser visto e vai tentar te convencer disso.

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