Muita gente aí já sabe, mas é sempre bom relembrar: esta colunista está à frente do seu primeiro curta-metragem como roteirista e produtora. Animada e atolada de tarefas, ela conseguiu encontrar um tempo para explorar ainda mais a fundo o tema do seu próprio filme: o mundo através dos olhos de uma criança.

Há uma diferença clara entre um filme infantil (que é um filme para os olhos de uma criança) e um filme que se dá através do olhar infantil. Ou seja, não é necessariamente indicado ao público infantil um filme cujo protagonista/narrador/detentor do ponto de vista é uma criança. Muito pelo contrário. No cinema, os personagens infantis veem e sentem coisas que nenhum pai ou mãe quer que o filho veja na tela grande.

Dito isso, posso afirmar que “Sistema Solar”, o meu curta-metragem, não foi pensado para ser infantil, e sim um filme que busca ver o mundo através do olhar e da imaginação de um menino. E aí se estabelece um novo desafio: como pode um adulto ter a pretensão de fazer um filme através de um ponto de vista tão particular (e já distante) quanto o da criança? Pesquisa? Experiência com crianças próximas? Imaginação? Acredito que um pouco disso tudo e mais um ingrediente especial: memória.

Parte 1: Memória (Infância Clandestina)

E foi a memória que guiou o diretor argentino Benjamin Avila a escrever o roteiro e dirigir “Infância Clandestina”.

O filme traz como protagonista o pequeno Juan (Teo Gutiérrez Romero), filho de guerrilheiros argentinos durante a ditadura que assombrou o país entre 1976 e 1983. A constante mudança de cidade, país e até de identidade é vista pelos olhos do menino que, apesar de não entender completamente a situação em que se encontra, consegue interpretar do seu jeito e ainda viver seu primeiro amor.

Recém-chegados a uma cidade não identificada no interior da Argentina, a família de Juan tenta se estabelecer de novo no país para retomar a luta. Com novas identidades e empregos de fachada, os pais, o menino e a filha mais nova, ainda bebê, tentam viver uma rotina mais parecida com a de uma família normal.

O medo é o sentimento que predomina entre os personagens, e é bonito ver como, em certos momentos, é ele quem dá a brecha para que o amor aconteça. Como o medo e o amor podem ser sentimentos tão próximos.

O ponto de vista é estabelecido como “do menino” de forma narrativa e estética (que também pode ser interpretada como narrativa, talvez): a primeira é de forma bem simples: o menino está em todas as cenas e o que nós vemos é (praticamente) apenas o que ele vê/ouve. E a segunda é formada pelas poucas aparições de uma animação no estilo de quadrinhos que ilustra as cenas de mais impacto emotivo. No início do filme, funciona para ilustrar os vários lugares por onde a família passou enquanto estava exilada e, no meio pro fim, se torna um recurso que suaviza a violência e as cenas mais impactantes.

Em entrevista, o diretor confirma que muito dos acontecimentos do filme foram tirados integralmente de sua experiência como filho de guerrilheiros durante a ditadura. O roteiro, escrito com o brasileiro Marcelo Müller, tem momentos extraídos diretamente da memória.

Nesse caso, a memória desempenha um papel fundamental para alcançar o olhar infantil. Um assunto tão sério e violento como uma ditadura poderia se tornar raso ou clichê sem esse artifício. Com ele, ganha tons de aventura e encanta com certas sutilezas do cotidiano quando, por exemplo, o menino Juan (escondido sob o nome de Ernesto) é surpreendido na escola com a turma e a professora cantando “parabéns” para ele. É que em sua nova identidade, sua data de nascimento também havia mudado, e ele não percebera que dia 7 de outubro era seu aniversário para todo mundo que não sabia sua verdadeira história. Com isso, uma festa é organizada e, mesmo no meio do caos e da dor, eles vivem momentos de pura diversão, baseados em um disfarce.

Voltando ao recurso da animação, não sinto que eles sejam realmente necessários e nem entendo a razão de terem essa estética um tanto “bruta”, que bate de frente com a suavidade do ritmo do filme. Para além dele, as interpretações, a fotografia e todo o resto funcionam e caminham juntos para um desfecho cheio de esperança.

 

Próximo post:

Parte 2: Universo infantil (O Menino Maluquinho)

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Nathália Oliveira
Parte cineasta, parte bailarina e parte roteirista, Nathália Oliveira gosta de fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Formada em Cinema pela PUC-Rio, ela trabalha atualmente como redatora publicitária na Rede Telecine e roteirista de projetos independentes. Ao longo de sua formação acadêmica fez curtas universitários e clipes musicais como assistente de direção, assistente de produção, assistente de fotografia, conselheira e animadora de equipe. Trabalhou durante 6 meses como voluntária no projeto social CriAtivos organizando um cineclube para crianças. Isso tudo sem deixar de frequentar as aulas de ballet e jazz. Apaixonada por cinema brasileiro, esta é sua primeira colaboração para um site cultural. Nathália acredita que todo filme merece ser visto e vai tentar te convencer disso.

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