Será que estou ficando louco ou estou escutando um silencioso clamor por informações sobre mangá? Rá rá! É impossível eu estar louco. Eu tomo a minha poção antiloucura todo dia. Ela leva só ingredientes sensatos: gravata triturada, suor de contador, saliva de boi (bois são sérios) e uma pitadinha de coentro pra dar um saborzinho. Logo, não estou louco e vocês querem saber sobre mangás! Por isso todo mundo em posições, que essa papo vai rolar em gravidade aumentada 20 vezes, pra gente aprender e ficar fortinho no final.

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Mangá hoje é onipresente. Antes, se você quisesse ser fã de quadrinhos japoneses, bastava comprar Dragon Ball e Cavaleiros do Zodíaco. Eram as únicas coisas que vendiam nas bancas. Agora, se passar numa livraria ou num jornaleiro, vai encontrar prateleiras cheias de mangás dos mais diversos temas: horror, romance, histórico, porradaria, adulto, juvenil, infantil, pornô… A variedade é enorme, e o sucesso consagrado. Mas o que torna o mangá uma forma de narrativa tão única e com tanto apelo?

Bom, com certeza não há uma resposta só para essa pergunta, mas eu quero focar num elemento narrativo bem particular: a capacidade de as histórias japonesas passarem da comédia para ação e da ação para o dramalhão num piscar de olhos. É algo muito típico da arte oriental, até mesmo no cinema isso aparece, cenas super tensas com uma piada pastelão no meio. Ou personagens que de repente começam a chorar, e não só a chorar, mas derramar dilúvios por causa das coisas mais bobas, tipo perder um jogo de cartas e estar longe do sonho de ser o “o maior jogador de cartas do mundo”.

Ler mangá é sempre uma experiência surpreendente. O leitor nunca sabe o que pode acontecer nessas páginas em preto e branco. É como se você vislumbrasse um mundo de pessoas bipolares. Não é pra tanto que as histórias são cheias de porradaria. Como é que neguinho vai se entender? Estabilidade emocional e meio-termo ficam a quilômetros de distância da maioria dos mangás.

Mas não é só o tom da história que tem uma elasticidade alucinante. A própria estética acompanha essas variações de humor. O traço do mangá, em geral, se baseia num personagem caricato com contornos simples. Mas o mangaká (o autor) pode simplesmente, numa breve mudança de quadro, aumentar o grau de realismo do personagem. Isso pode servir para exagerar uma expressão com objetivo cômico. O que está sendo mostrado não é como o personagem é, mas como ele se vê no momento. Dr. Slump, do mesmo Akira Toriyama de Dragon Ball, fazia isso direto.

Dr. Slump acaba de construir Arale, a robô-menina de 13 anos.
Dr. Slump acaba de construir Arale, a robô-menina de 13 anos.

A imagem caricata do cientista baixinho e gordinho, num estilo chapado e sem sombras, se choca com a imagem dele se gabando, com um ar mais elegante e sombras mais realistas. Depois a realidade volta. A sua maior criação, a robô Arale não está nem aí para a genialidade dele, ela só quer saber por que, diabos, não tem poderes de voar. O traço fica exagerado de novo, e o contraste entre os estilos contribui para dar mais graça à piadinha.

No mangá One-Punch Man, escrito por One e desenhado por Yusuke Murata, o protagonista costuma ter um rosto extremamente simplório (praticamente um ovo com riscos para boca e olhos) enquanto ao redor tudo é desenhado com mais detalhes. O objetivo não é só cômico, mas serve para externalizar o sentimento do personagem. Ele é um herói que consegue derrotar qualquer monstro com um soco só, e está terrivelmente entediado com isso. A expressão vazia, oval, é também um símbolo para o vazio da existência do personagem. Quando finalmente, ele se sente desafiado, o traço do seu rosto muda completamente.

Repare como tudo parece estar cheio de energia e movimento, menos o rosto do herói.
Repare como tudo parece estar cheio de energia e movimento, menos o rosto do herói.
Mudança de expressão.
Agora desafiado, a expressão do rosto muda completamente.

Essa mudança de traço pode também ter objetivos dramáticos. Numa ficção científica curta de Boichi chamada Hotel, a humanidade está com os dias contados devido ao aquecimento da Terra. Um cientista decide então criar uma torre, apelidada de Hotel, cujo objetivo é guardar DNA da vida do planeta. Uma aluna e assistente do tal cientista decide pedir à inteligência artificial que controla o Hotel para que guarde o DNA do filho do cara. Até aí, o cientista tem rejeitado guardar DNA humano, mesmo o DNA dele, por isso ele acaba impedindo sua aluna (ela, afinal de contas, é sua amante e mãe do seu filho). A cena então muda para um traço super realista para mostrar a fisionomia algo distante, algo emocionada do cientista. Veja aí:

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E o inverso também é feito nessa mesmíssima história. Em uma página o traço fica ridiculamente infantil, para criar um alívio cômico e também para mostrar a inocência da personagem da aluna. Não funciona muito bem ao meu ver, mas ainda assim é interessante. Alguns mangás irão fazer melhor uso dessa ferramenta, conseguindo representar o estado de um personagem e criando contraste com o realismo normal da narrativa.

A cagada de regra dos mangás com as barreiras da estética é o que os tornam uma leitura tão revigorante. Foi o que incendiou os meus olhos na primeira vez que vi uma edição no jornaleiro. A elasticidade da arte japonesa se tornou uma grande influência nos quadrinhos ocidentais. É possível ver esse quê de bipolaridade em muito do que é produzido nos Estados Unidos e aqui no Brasil também. Um bom exemplo brasileiro é o Quadrinho A2, crônicas autobiográficas que podem ir do cotidiano a robôs gigantes numa virada de página.

Visite o site: http://www.quadrinhosa2.com/
A2, por Cristina Eiko e Paulo Crumbim.

Eu falei sobre uma de muitas características dos mangás. Com certeza, o assunto vai voltar. Tem muito mangá legal e diferente para comentar e estou em débito com o Japão nessa coluna. Fizemos apenas um treinamento básico numa gravidade ampliada, agora você está com o ki mais poderoso do que nunca. É hora de sair e procurar por novos desafios! Principalmente, na livraria ou banca mais perto da sua casa.

Társio Abranches
Aluno com mais estrelas douradas na classe de alfabetização da Escola Cachinhos de Ouro, também sou formado em Rádio e TV e em Produção Editorial pela UFRJ, mas não com tanto louvor. Trabalho como revisor de livros, tenho um conto publicado pela Andross Editora, já fui crítico de quadrinhos do site O Grito e vez ou outra faço uma tirinha para confirmar que desenho mal. Você vai me ver falando sem parar sobre quadrinhos e suas páginas que misturam cultura pop, arte, vanguarda, conservadorismo e tudo que couber num balão de fala. Vou mostrar o que tem de melhor e o que tem de pior no mundo do gibi, então não se preocupe se você está por fora do assunto. Acompanhando a coluna você vai entender que tem quadrinho para cada um e que nem tudo é super-herói com cueca para fora da calça. E se você curte cueca para fora da calça, tem lugar para isso aqui também.

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