Nenhuma frase dita ao longo do documentário “Geraldinos” é capaz de resumir tão bem o sentimento de quem assiste ao filme quanto essa que, aqui, me serve de título. A verdade é que essa é uma obra marcada por dualidades e paradoxos de sentimentos, marca tão típica dos torcedores apaixonados.

Exibido na 20ª edição do festival “É Tudo Verdade”, o longa é dirigido por Pedro Asbeg e Renato Martins, dupla que já deu certo em outro documentário sobre o universo do futebol: “Democracia em preto e branco”, de 2014.

“Geraldinos” consegue ser, num só filme, declaração de amor ao futebol e ao Maracanã de outrora, e denúncia ao estado em que as coisas se encontram na cidade do Rio de Janeiro, feita sob a ótica do esporte mais popular do país.

Geral em 1950
A festa da Geral / fonte: Arquivo Nacional

O ponto de partida são os chamados “geraldinos” (termo criado pelo radialista Washington Rodrigues), torcedores ocupavam a Geral, área mais próxima do gramado e com ingressos mais baratos. Nesse espaço anárquico, sem divisão de lugares ou torcidas, eles eram técnicos, centroavantes, goleiros, zagueiros… Participavam do jogo e faziam a festa naquele espaço-templo em que eram reis e súditos. O sufoco de estar ali, no primeiro piso do estádio, em meio a uma massa que podia chegar até 30 mil pessoas, era compensado pela chance de aplaudir de pé o seu time (e xingá-lo no lance seguinte) e extravasar a emoção de corpo inteiro.

 

O filme nos aproxima dos geraldinos para falar de um Maracanã que foi, durante 55 anos, uma grande arena da convivência, e que em 2005 se transformou em uma coisa bem diferente. Transformação essa que, em maior escala, pode ser aplicada ao futebol como um todo. Um esporte-arte que virou esporte-business.

O som violento das britadeiras faz o corte da primeira parte do filme, mais nostálgica, para a parte mais trágica. Na primeira, acompanhamos as histórias e a festa da Geral desde a inauguração do Maracanã (1950), até seus últimos suspiros. Na segunda, a ascensão do projeto de estádio “Padrão Fifa”, elitizado e “comportado”, como inglês gosta de ver. A essa altura do filme, chega a ser doloroso pra quem tá assistindo ver aquele espaço que abrigou tantas paixões sendo quebrado, destruído.

Nessa segunda parte, o documentário acompanha mais de perto as histórias de dois heróis geraldinos (que já haviam aparecido na primeira parte, em “ação” na Geral) e faz um paralelo da antiga rotina de torcer no estádio com a nova, em que se torce em casa, ou no bar. É a clara denúncia que o filme nos traz: não há mais espaço para geraldinos (leia-se torcedor popular médio) no novo Maracanã.

Para além dessa divisão em “partes” (feita por mim, diga-se de passagem), o documentário conta com um rico material de imagens de arquivo, fruto de uma pesquisa bem-feita que reuniu cerca de 200 horas de material. Conta também com depoimentos que refletem sobre a importância da Geral e o que está por trás de sua destruição. O ex-jogador Romário, o deputado Marcelo Freixo, o jornalista Lucio de Castro, o historiador Luiz Antônio Simas, entre outros, falam de como a elitização do Maracanã (e do futebol em geral) reflete uma elitização da própria cidade do Rio de Janeiro, a “grande sede” de eventos esportivos mundiais que começa a ser embalada para exportação, onde quem não está no “Padrão Fifa” não é bem-vindo.

Um novo Maracanã
Um novo Maracanã

E para aqueles que estão achando tranquilo até agora, “Geraldinos” não deixa pra depois e prova que o buraco da britadeira é (de fato) bem mais embaixo. A marquise e as arquibancadas do Estádio Jornalista Mauro Filho (esse é o nome oficial do Maracanã, galera) eram tombadas pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), e como tais, só poderiam ser demolidas, ou sofrer qualquer tipo de alteração arquitetônica com a autorização da Presidente da República, como manda a lei em casos de patrimônios tombados. No entanto, para a reforma do estádio feita para a Copa do Mundo de 2014, essa autorização foi dada pelo ex-superintendente do IPHAN, Carlos Fernando de Souza Leão Andrade, que não tinha respaldo legal para isso. Em 2013, esse cidadão virou réu de uma ação criminal. Ok. Mas e o Maraca?

E seus novos torcedores chegando direto do "The Sims"
E seus novos torcedores chegando direto do “The Sims”

O Maraca tá lá, cobrando ingressos que podem chegar a R$ 165, 00. Tá lá, recebendo um público de 66.156 pessoas em final de campeonato estadual, quando tem capacidade para 78.838. Capacidade essa que um dia já foi de 200 mil pessoas.

O que “Geraldinos” nos deixa, no fim das contas, é essa mistura de sentimentos antagônicos de ódio e amor que só o futebol é capaz de unir. O fim da Geral representou muito mais do que o fim de um setor popular em um estádio mitológico, representou a expulsão de uma parcela da sociedade que é cada vez mais excluída dos palcos públicos de uma cidade que se elitiza a cada evento internacional, de uma cidade cuja política não é agregar, e sim excluir. Mas ao mesmo tempo, o sentimento de amor fica ao sabermos que o futebol jamais será “deles”, e sim de todos nós, dos apaixonados pelo esporte, dos geraldinos. O Maraca pode até não ser mais nosso, mas o futebol jamais terá outro dono.

Eis o trailer:

 

Nathália Oliveira
Parte cineasta, parte bailarina e parte roteirista, Nathália Oliveira gosta de fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Formada em Cinema pela PUC-Rio, ela trabalha atualmente como redatora publicitária na Rede Telecine e roteirista de projetos independentes. Ao longo de sua formação acadêmica fez curtas universitários e clipes musicais como assistente de direção, assistente de produção, assistente de fotografia, conselheira e animadora de equipe. Trabalhou durante 6 meses como voluntária no projeto social CriAtivos organizando um cineclube para crianças. Isso tudo sem deixar de frequentar as aulas de ballet e jazz. Apaixonada por cinema brasileiro, esta é sua primeira colaboração para um site cultural. Nathália acredita que todo filme merece ser visto e vai tentar te convencer disso.

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