Celebramos no último dia de setembro o Dia Mundial do Tradutor, então nada mais natural falarmos um pouco sobre tradução literária na primeira coluna do mês de outubro. E há muito a ser dito sobre essa figura que, como um malabarista, deve estar sempre em contato com mais de um idioma, pensar em duas línguas, ler e escrever, brincando e revezando as falas e culturas até dar seu papel por cumprido.

No mercado de publicações, principalmente se estamos focando na edição de literatura, existem várias funções que denunciam maior competência em sua invisibilidade. Ou seja, quanto menos você percebe que houve um trabalho a ser feito ou quanto menos se mostram indícios de um processo, melhor foi realizado dito trabalho. Estas funções incluem preparadores de originais, os próprios editores e, sim, os tradutores. São aqueles profissionais que percebemos mais pelos equívocos que pelos acertos, pois estes aparecem, enquanto sua ausência é que caracteriza um texto homogêneo e fluido. Isto o leitor médio vai atribuir naturalmente ao autor, considerado o sumo senhor do livro, e não percebe que houve um intenso trabalho por cima de um original que pode ou não ter sido problemático.

Por isso, muitas vezes acabamos nos esquecendo da função fundamental que desempenha um tradutor literário. Imagine, então, um mundo em que a tradução não existisse; em que verter um texto, técnico ou literário, para outro idioma, não fosse uma tarefa possível. Seria de alguma forma mensurável o prejuízo científico e cultural pelo qual o mundo passaria? Imagine ter de aprender todos os idiomas de seus países de escolha — o francês, o inglês, o japonês, o árabe — para ter de ter acesso às obras que essas culturas nos propiciam? Inúmeros não poderiam ler, digamos, Madame Bovary, As mil e uma noites, e mesmo Harry Potter ou O pequeno príncipe.

O ofício do tradutor é nos colocar em contato com diferentes culturas, diferentes ambientes e pontos de vista, de maneira a abrir a nossa cabeça ao leque cultural que podemos assimilar a partir do contato com obras estrangeiras. Podemos então, com relativa segurança, dizer que a tradução literária é um componente fundamental para a difusão e acessibilidade literária, permitindo que pessoas no mundo todo leiam obras do mundo todo (salvo as suas raras e despóticas exceções).

Se a ignorância do papel do tradutor como facilitador — se não possibilitador — da leitura é um empecilho para o reconhecimento da importância da profissão, temos outro elemento importante no mito da facilidade do ofício. Posso jurar que já li em algum comentário de portal, clássico contemporâneo: “qual é a dificuldade de ser um tradutor? É só saber inglês e escrever palavra por palavra. Ué, até eu posso traduzir”. Infelizmente, é uma concepção de senso comum. O trabalho do tradutor é apagado pela aparente simplicidade do trabalho.

Quem dera fosse assim simples.

O eminente professor Paulo Henriques Britto, em seu livro A tradução literária (2012), diz:

De modo geral, os leigos — inclusive as pessoas que leem regularmente, e que leem muitas traduções — não costumam pensar sobre a natureza da tarefa de traduzir uma obra. […] As pessoas tendem a pensar que (i) que traduzir é, na verdade uma tarefa relativamente fácil; (ii) que o principal problema do tradutor consiste em saber que nomes têm as coisas no idioma estrangeiro; (iii) que este problema se resolve com a consulta de dicionários bilíngues; e (iv) que, com os avanços da informática […] a tradução em um futuro próximo será uma atividade inteiramente automatizada.

Se fosse fácil como parece, não haveríamos as mais diferentes versões de livros traduzidos que podemos encontrar. Traduzir é passar um texto do domínio linguístico de um idioma ao de outro, e aí entram as mais diferentes — e complicadas — nuances que envolvem o trabalho do tradutor literário. A versão literal de uma frase jamais basta.

A dificuldade principal é evitar que se perca as nuances de significado e, digamos, sensações que o texto transmite ao leitor em determinada língua. Sem sequer entrar no campo dos trocadilhos e jogos de linguagem que muitas vezes permeiam obras literárias, a tradução de literatura tem o seu principal dificultador na tarefa de se adequar todo o texto. As sensações que transmite, o tom da voz narrativa, a sonoridade própria, possíveis referências culturais — que podem ser perdidas, localizadas, ou explanadas através do uso de notas de rodapé — o nível de arcaísmo da linguagem utilizada pelo autor original do texto.

Esta dificuldade é principalmente agravada se entramos no campo da poesia, quando o ritmo, a sonoridade e a escolha certa de palavras, uma vez feita no idioma original, não pode ser de forma alguma repetida em uma língua distinta; deixando aí o tradutor na difícil tarefa de fazer opções entre reproduzir a forma, o conteúdo, a sonoridade e o ritmo, ou as imagens, entre outras inúmeras que levam livros inteiros para expor.

Por isso o tradutor é, antes de tudo, um escritor que, em vez de verter mecanicamente palavra a palavra, pode-se dizer que reescreve o texto em outro idioma, fazendo o esforço necessário para que sua versão se aproxime o máximo possível de todos os efeitos do original.

É claro que o ofício da tradução, seu papel e importância, além de suas consequências, levantam outras questões: a regularização da profissão, a formação do tradutor, e mesmo alguns assuntos mais controversos como as consequências de uma possível “importação cultural” exacerbada por parte do mercado brasileiro. Quais as causas da preferência do leitor médio pela tradução da obra estrangeira em detrimento do material nacional? E qual o papel do tradutor neste meio? A acessiblidade literária refletindo a globalização? Assuntos estes que podem demorar livros para ser esgotados, mas que, infelizmente, não temos espaço para tratar em apenas uma coluna…

Mas, por essas e outras, dificuldades e felicidades, um parabéns atrasado aos tradutores! Que consigam continuar a driblar as dificuldades e diferenças culturais e idiomáticas para permitir a acessibilidade de milhares ou milhões a obras que, de outra forma, jamais deixariam um pequeno território.

Referência

BRITTO, Paulo Henriques. A tradução literária. 1. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2012. 160 p, trecho citado da página 12.

Também pode interessar:

RÓNAI, Paulo. A tradução vivida. 4. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2012. 256 p.
RÓNAI, Paulo. Escola de tradutores. 7. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2012. 192 p.

Bruno Alves
Paulistano de nascimento, jundiaiense de coração e carioca honorário. Formando em Comunicação Social (Produção Editorial) na Universidade Federal do Rio de Janeiro, é assistente editorial na Bertrand Brasil e leitor de gosto eclético: ama literaturas contemporâneas e ficções de gênero em igual medida. Eventualmente tenta a mão na ficção, com resultados aqui e ali.

1 COMENTÁRIO

DÊ SUA OPINIÃO