São apenas alguns pensamentos soltos.

Vemos há algumas semanas os reflexos mais claros de como a crise econômica-política brasileira está afetando o mercado editorial. Não são novas as notícias de que alguns prêmios estão atrasando seus pagamentos, mas agora também as compras de governo — um dos pilares econômicos do mercado nacional do livro — foram drasticamente afetadas; algumas editoras e livrarias encolheram sua produção e absorção; livrarias fecham o trimestre no prejuízo, muita coisa, enfim: como todos os outros, o setor cultural também é afetado, é lógico, pelas mazelas econômicas e dificuldades pelas quais passa o país neste momento do tempo.

Isso nos leva a pensar qual o reflexo que isso poderá causar em um futuro do livro no Brasil. Ora, em tempos de discussão de medidas protecionistas justamente para assegurar a bibliodiversidade, este torna-se um debate de primeira importância. A indústria do livro deve ser deixada para sobreviver segundo suas próprias diretrizes, batalhando economicamente sem intervenções, entrando no mercado quem quiser, falindo quem não vender, em suma, agindo e reagindo às ondas da economia como outras empresas capitalistas? Ou, por se tratar de um produto de caráter educacional e cultural, tradição histórica e intelectual, deveria usufruir de incentivos e proteções daqueles no topo — para que seja sempre assegurada a diversidade de seu pensamento, produção e distribuição?

Se esta também é uma discussão que influencia o polêmico projeto do preço fixo, há a questão do que exatamente é o prejudicial e o que deve ser mantido na indústria, antes de pensarmos em que medidas exatamente deveriam ser tomadas — ou deixar de sê-las.

Alguns veem, por exemplo, na entrada das editoras multinacionais estrangeiras no Brasil  uma tendência nociva; temem que, em corporações do porte e caráter das gigantes americanas, empresas de capital e frieza, seja deixado de lado o valor do livro como objeto cultural, que ele seja tão somente visto como mero produto na cadeia do faturamento. Por outro lado, alguns acreditam que esta tendência possa elevar os padrões de produção para uma adequação aos níveis de um mercado significantemente maior, o norte-americano. Em outra perspectiva, há também todo o fator ideológico; não à toa nossa Constituição, em seu capítulo sobre a comunicação social, impede que os meios de comunicação (no caso, jornais, concessões de televisão e rádio) sejam propriedade de pessoas ou corporações estrangeiras, por questões de segurança nacional. E, no entanto, isso não se aplica à cadeia do livro — mesmo o tal sendo um dos meios mais antigos de comunicação social.

A questão do livro como produto versus livro como obra de arte e cultural, também, é antiga, mas resta levar em consideração que, atualmente, assim como o resto do mercado artístico — filme e música, enfim — no final ele se resume a um pouco dos dois. A dicotomia arte-produto afeta esses mercados há tempos, o que leva suas produtoras e distribuidoras a uma espécie de dilema: o vendável ou artisticamente aprazível? Muitas consideram o que publicam — e vendem bem — como artisticamente relevante e, apesar de certos setores da sociedade poderem discordar, há todos os motivos para que seja considerado válido o que publicam; afinal, não apenas as “belas” artes tem valor cultural (como defendo em outros posts, o mercado não é o diabo). Outros podem esnobar aspirações ao capital, clamando publicar e distribuir apenas o mais artisticamente virtuoso. Independentemente de suas inclinações, muitas das editoras são prejudicadas pelo cenário econômico corrente, quando, quase sempre, comprar um livro não é mais uma prioridade na lista do brasileiro médio.

O que fazer, agora? O setor caminha a passos hesitantes, procurando reacender a chama da leitura em um país onde ela nunca foi muito potente. Os cintos são apertados, e olhamos para o horizonte, não muito certos de quando essa fase ruim vai passar. Olhando para os lados, a conversa é de estimular a leitura, conscientizar a importância intelectual do livro, para que, mesmo em tempos de vacas magras, possa-se sorver novos fôlegos de ar fresco nesse cenário de sobriedade. Resta ver se teremos resultados.

Foto da capa por: Ruth Hartnup

Bruno Alves
Paulistano de nascimento, jundiaiense de coração e carioca honorário. Formando em Comunicação Social (Produção Editorial) na Universidade Federal do Rio de Janeiro, é assistente editorial na Bertrand Brasil e leitor de gosto eclético: ama literaturas contemporâneas e ficções de gênero em igual medida. Eventualmente tenta a mão na ficção, com resultados aqui e ali.

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