Estamos de volta, depois de todo esse tempo. Você se lembra daquela quarta-feira fatídica, na qual saiu para comprar leite? Sim, era quarta-feira de cinzas, e o Carnaval havia acabado de acabar. Finalmente parara de chover, depois de ter se alagado um tanto durante os inúmeros pulos de carnaval. E nós dois, eu e você, estivemos falando sobre sua vida, sua necessidade por comprar leite, e, sim, sobre narrativa.

Mas aquela história ficou sem um final. Você se lembra? Assim que você saiu à rua, com o objetivo firme em sua mente, o telefone tocou e tivemos de lhe abandonar por questões de extensão do texto. Então por que não retomamos a história, rememoramos aquela quarta-feira já distante? Já faz tempo o bastante.

Porque esse próprio ato de lembrar o que se passou para a continuação de uma história é um artifício, uma técnica necessária se estamos lendo séries que não se fecham em seu próprio livro. Ora, estamos retomando nossa narrativa quase dois meses depois — mas e, por exemplo, nosso excelentíssimo George Martin, que nos abandona por cinco anos (quando não mais) entre um livro e outro? Qual é e qual deve ser a sensação de tentar uma reentrância na narrativa que há muito não aborda? E como o autor pode recuperar a atenção e o mundo, a história passada, para aquele que depois de tanto tempo deverá se aventurar de novo em uma vida que não a sua?

Podemos fazer do jeito mais óbvio e discutivelmente sem graça: uma retrospectiva. Que tal? Fora da narrativa, um pouco antes do começo, quiçá desse jeito que eu fiz ali em cima ao te lembrar do leite, do Carnaval, da nossa história. Podemos começar a história do nada e deixar que a memória do leitor se vire, pegando os detalhes e arriscando um começo talvez confuso. E podemos tentar ir inserindo algumas dicas, memórias e argumentos no começo da narrativa, ainda se o personagem estiver se lembrando de como chegou ali ou algo parecido. Pode ser simples. Pode dar errado.

Pode acontecer qualquer coisa.

Mas, de qualquer jeito, aqui é mais fácil: já nos lembramos de onde paramos, não é? Haja paciência, no entanto, pois teremos que mudar o tempo verbal. Afinal, já passamos há semanas daquele dia, e tudo a partir de agora são apenas rememorações do seu e do nosso passado.

De fato: você pegou o celular. Não era de última geração, mas você não estava assim com tanta ansiedade para que trocá-lo. Era um bom aparelho, já com você havia um bom tempo, e ainda não lhe deixara na mão. Mas o número da chamada lhe estava esquecido. Um que você sabia que já tinha discado, mas que não estava na agenda e tampouco conseguia se lembrar a quem pertencia. Ficou em dúvida de se devia atender ou não, então deixou tocar três vezes — o som conhecido do seu toque ressoando gravemente em seus ouvidos — antes de dar de ombros. Não pode ser assim tão ruim.

Mas, ao atender, ao colocar o celular contra o ouvido, você só ouviu um som de desligamento, e a chamada acabou. Você se atrasou, enrolou demais, e a pessoa do outro lado desistiu. Que pena, pensou; mas também, se for importante, qualquer pessoa tentará de novo. E com a feliz disposição de quem sente que acabou de driblar uma ligação de telemarketing, você guardou o celular no bolso novamente e se colocou a caminhar em direção ao mercado próximo.

Está vendo, o tempo mudando ao seu redor? Antes descrevíamos e narrávamos tudo no presente, o que pode dar uma sensação interessante: é como se tudo estivesse se desenrolando à sua frente, como em um filme. Não é? Agora, estamos vendo tudo com um pouco mais de distância, através das nebulosas areias do tempo. Tudo já aconteceu, e mesmo por isso já passa uma impressão de finalidade, definição. Efeitos e narrativas, às vezes gostamos de ler no passado, no presente, na terceira, primeira, segunda (?) pessoa. Prossigamos.

Uma construção baixa, talvez um tanto cinzenta, ou quem sabe laranja, vermelha ou azul em tons berrantes — sinceramente, não sei — se estendia à sua frente, maior a cada passo. Você passava pelos mesmos elementos de sempre, sem dar muita atenção: aquela árvore, as casas, mesmo o gato branco dormindo em cima do muro já são elementos tão recorrentes que seus olhos mal os notavam. E como estamos vendo tudo pelos seus olhos, também é assim que os percebemos: do seu ponto de vista, o enfoque é dado ao que você percebe, e mesmo por isso não podemos ter uma noção completa da situação. Estamos limitados, não somos oniscientes — estamos sob seu jugo, e por isso somos, como você, apenas pessoas.

Quando você entrou no mercado, estava um tanto vazio. Afinal, era Quarta-feira de Cinzas, e você não sabia até mesmo como ele tinha aberto em pleno feriado. No entanto, não se importou, pois chegava o próximo estágio: outras pessoas. Interações. Diálogos. São os outros personagens, os coadjuvantes que compõem esses pequenos espaços deixados na vida, que tornam seu mundo mais vivo.

Você escolheu o leite — enfim! — e se aproximou do caixa. Uma mulher no final dos trinta anos, com os cabelos presos em um coque e uma expressão um tanto desiludida no rosto. Trabalhar no feriado, ainda mais depois do carnaval, certamente não era agradável a ninguém. Você se condoeu um pouco enquanto passava a caixa de leite. Ela lhe mandou um olhar um tanto incrédulo de lado, como se perguntasse “só isso, jura?”, mas você ignorou.

Afinal, a atendente era uma outra pessoa, e aí temos mais um ponto, não é? A construção de personagens críveis, desses que parecem ter uma vida própria por trás das páginas, é um grande trunfo para se ter na manga em uma obra literária. É através de relações interpessoais — de conversas, brigas, interações e lembranças — que se constrói a nata emocional de uma história. Somos animais sociais, e estamos tão entranhados no meio de conviver um com o outro que uma história hermética, sozinha, acaba perdendo o grande trunfo que é o conflito, a batalha muda de mente com mente, de objetivo com objetivo, de vida com vida.

Entretanto, aqui estávamos apenas pincelando, e você só pagou em dinheiro e mandou um olhar à atendente, como se mostrando simpatia. Um olhar que ela, no entanto, falhou em retribuir, dispensando-lhe como se você fosse um visitante inconveniente. Com o coração um tanto mais pesado mas com o leite nas mãos, você enfim começou seu caminho para casa.

Estávamos chegando novamente ao fim, com o leite em mãos, seu tão caro objetivo alcançado e com você voltando para o local de partida, suas decisões e ações desse curto espaço de tempo tendo modificado algum estado da sua existência — no caso, a presença de leite em sua casa e o acerto organizacional da sua vida. Contudo, pontas ficaram soltas: quem te ligou, afinal? Sua vida ficará acertada depois de todo esse imbróglio? Seu trabalho seria um saco no dia seguinte?

Às vezes, realmente, nem todas as pontas soltas são fechadas. É claro que, eu tendo colocado a ligação como o gancho no final da última parte, não fechar esse pequeno enredo seria uma falta de consideração para aqueles que leram e ficaram curiosos, então é sempre bom saber dosar que pontas podem ficar em aberto e quais não devem, sob o risco de alienar os leitores. Então, como um último adendo à sua busca pelo leite, à sua compra rápida, ao seu quarto anônimo, digo-lhe quem ligou:

Bruno Alves
Paulistano de nascimento, jundiaiense de coração e carioca honorário. Formando em Comunicação Social (Produção Editorial) na Universidade Federal do Rio de Janeiro, é assistente editorial na Bertrand Brasil e leitor de gosto eclético: ama literaturas contemporâneas e ficções de gênero em igual medida. Eventualmente tenta a mão na ficção, com resultados aqui e ali.

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