Seguido do sucesso estrondoso do espetáculo The Book of Mormon, o professor Rubens Lima Jr. apresenta o final da sua trilogia cômica em teatro musical: O Jovem Frankenstein – um exercício cênico. O projeto Teatro Musicado comemora 7 anos e inserido na sua pesquisa de mestrado contou com comédias como Monty Phyton’s Spamalot e o espetaculoso Mormon. Os dois textos de comédia se aproximam do espectador, são modernos e pop. O Spamalot trata de uma adaptação do musical premiado da Broadway que por sua vez é uma releitura para o teatro musical do filme Monty Phyton em Busca do Cálice Sagrado.  Já o The Book Of Mormon tem em seu texto um humor agressivo e satírico bem característico dos autores que são nada menos que os criadores de South Park: Trey Parker e Matt Stone. Você conquista o público de cara com textos tão versáteis e com tanta possibilidade de criação. O terceiro e último projeto dessa trilogia, O Jovem Frankenstein, já não é assim.

O texto traz em si o clássico do humor, piadas que vêm prontas no texto e que eleva o valor do teatro burlesco e do vaudeville (conceito predominante nos Estados Unidos e no Canadá no final do século XIX, início do XX até meados da década de 30).  O burlesco aborda uma linguagem grotesca e satírica parodiando textos sérios, trazendo piada de duplo sentido de forma escancarada. O exagero e a distorção dos sentidos desse gênero surgem de forma inofensiva – remetendo a antecessora Commeddia Dell’arte – com a presença de gagues e identificação provocando o riso em cima dos arquétipos. Já o vaudeville francês é a composição de variadas performances artísticas que contavam com dançarinos, acrobatas, ilusionistas, comediantes. O resultado sai pronto: o espectador já sabe que o personagem vai  entrar numa enrascada e ainda assim se estipula o contexto do riso com a situação apresentada que é muito óbvia. Dessa forma, todo o efeito é criado e o riso está programado.

Mel Brooks, autor do filme e da peça musical, trabalha com associação e reinterpretação de forma que cada passagem tem um paralelo traçado para se tomar como referência  (surgindo a comédia por meio da comparação).  O espetáculo é carregado com chistes que provocam uma desarticulação da mente quando a realidade é rompida (exemplo: Elizabeth falando ao Dr. Frankenstein que não pode tocar nem no cabelo, nem nas unhas e nem beijá-la interrompendo-o sempre com um grito). Esses conceitos trazem para o espetáculo a informação de um show a cada cena, ou seja, a cada passagem você espera um grande momento e, como a tônica é oferecer essa expectativa,  o momento acontece e a plateia se conforta com a expectativa que se realiza (ou que por vezes é superada).
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O espetáculo que é composto por 27 atores (e mais 2 sapateadores) conta com nove personagens que conduzem a história enquanto o restante ambienta os aldeões da Transilvânia para onde o Dr. Frankenstein se dirige no início da trama, após o telegrama sobre a morte do seu avô Victor Frankenstein. No papel do cientista louco e um tanto quanto exibicionista está o Luiz Gofman (que já esteve presente em outros dois projetos do teatro musicado na UNIRIO) que se mostra extremamente competente vocalmente, bem como firme e seguro em cena (durante a peça de quase três horas o ator praticamente não sai de cena, além de cantar e dançar!). Essa evidente resiliência não é por acaso: o elenco está em processo de ensaio desde abril de 2014, não é pra tanto que estejam afiados.

Quem co-protagoniza a aventura ao lado do Dr. Frankenstein é o seu servo Igor (leia-se “Aigor” como ele mesmo prefere ser chamado) interpretado pelo excepcional Bruno Nunes (The Book Of Mormon). De tempos cômicos perfeitamente acertados, Bruno Nunes carrega todo o espetáculo na sua corcunda guiando o espectador para onde ele quiser. Uma pena que Mel Brooks ainda não o conheça. O Frederick Frankenstein é casado mas nunca fez nada, pois sua noiva Elizabeth nunca faz (quase) nada. E é Flora Menezes (Monty Phyton’s Spamalot), que com incrível domínio vocal, dá vida a essa esnobe mulher.

Lá no castelo na Transilvânia, além do servo, se esconde atrás de seu violino a soturna governanta Frau Blücher interpretada pela atriz Esther Dias que, em seu primeiro musical, leva empaticamente uma das personagens mais difíceis do espetáculo – o clima da governanta destoa de todos os outros protagonistas devido ao humor seco e pontual abusando da ambiguidade. Para compor o tripè feminino, a personagem Inga é dividida por duas atrizes: Carol Pita e Julia Nogueira. As duas artistas alternam a personagem e, quando uma não está protagonizando, está presente no coro. As jovens têm uma exigência extraordinária: é necessário que cantem, dancem e interpretem com excelência. Na Broadway a personagem é interpretada pela Sutton Foster, um fenômeno do teatro musical. E a competência da já madura artista não deixa a desejar. No caso do exercício cênico proposto pelo projeto de Teatro Musicado se percebe a falta de embasamento no material de trabalho das suas atrizes. A carga da personagem é muito grande, mas nada que uma primeira temporada intensa (de quinta à segunda) não forneça ferramentas para que o trabalho tenha o requinte que merece.

O cargo chefe desse espetáculo é composto por esses 5 protagonistas que coordenam todo o desenvolvimento cênico cabendo a eles o ritmo e a frequência dos acontecimentos. Com alguns equívocos de iluminação, capto a necessidade de haver mais cumplicidade cênica entre os personagens porque por vezes falta propriedade no texto dito; o mal entendimento que um ator passa a outro decodifica um embate comunicativo do espetáculo para o público: a mensagem para ser passada deve ser clara e compreendida pelo emissor, no caso, os atores.

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Espera aí, onde ficam os 27 atores?! Divididos em diversas funções coreográficas, vocais, cênicas e de contrarregragem, os aldeões trabalham muito nesse espetáculo. As músicas todas cantadas, na direção de Marcelo Farias e na preparação vocal de Doriana Mendes, demonstram a precisão musical de 10 meses de ensaio: elas cantam e dançam como se fosse brincadeira (e somos nós que ficamos com vontade de ir pro palco nos divertir também!). Infelizmente, o pesar desse espetáculo se encontra no problema técnico de som. Os microfones estão muito mais baixos que a base da música, por exemplo, dificultando a compreensão de texto e cantoria. O maior empecilho é que na ausência da banda, tem sido difícil equalizar o som na estrutura precária existente onde falta um excelente mecanismo de coordenação que a peça exige e o retorno para os atores. Em contrapartida, como a base é estática, proporciona segurança musical aos atores.

A direção já conhecida de Rubens Lima Jr. traz potencialmente em cima desses 27 atores a sua distinção como profissional: um diretor de cena. Coordenar cenas de coro e personagens e tornando-as harmônicas e repletas de nuances é a tarefa que demarca toda a sua pesquisa em teatro musicado. Mas todo esse êxito não seria possível se não fosse o competente grupo de artistas que na seleção de uma semana de testes e callbacks foram atraídos para a Transilvânia. Por último, mas não menos importante, não há como não frisar o trabalho coreográfico de Adriana Salomão e seu assistente Gabriel Demartine – sim, o Monstro. Adriana Salomão esteve em seu primeiro projeto vinculado a UNIRIO e conseguiu abrilhantar a peça com magia no número do sonho onde aparece todas as gerações de cientistas loucos; com energia no final do primeiro ato onde todos se unem para lidar com inconstância e pavor em relação ao Monstro; com maestria e graciosidade no número do sapateado; com mistério e entusiasmo na abertura do espetáculo. Um trabalho dedicado e delicado a ser lembrado.

Encerrando esse processo de pesquisa, o diretor Rubens Lima Jr. ainda vai ter muito o que comemorar. O espetáculo sucessor de The Book of Mormon cumprimenta e agradece seu veterano, mas a vez é a do calouro O Jovem Frankenstein honrar com mérito a finalização da investigação cômico-musical apoiada pela UNIRIO e pela Fundação Cesgranrio. O espetáculo ficou em cartaz na Sala Paschoal Carlos Magno na própria universidade e se dirige para sua segunda temporada no Teatro da UFF, em Niterói.

Para mais informações visite a página do facebook (Unirio Teatro Musicado) e confira o Centro de Artes da UFF.

 

Serviço:

O Jovem Frankenstein – um exercício cênico
Temporada: 06 a 28 de maio
Horários: 21h – quartas e quintas
Local: Teatro da UFF
Endereço: Rua Miguel de Frias, 9, Icaraí – RJ
Entrada Franca
Retirada de senha somente no dia do espetáculo à partir das 16h.
Classificação: Livre
Informações: 3674-7512 | a partir de 14h

 

Hikari Amada
Hikari tem uma certeza na vida: teatro. Ele se apresenta não como um hobby, um desejo, uma carreira; é um dogma. Canceriana camuflada de maquaigem aquariana e sabor agridoce de leão tem mania de transformar tudo em poesia sarcástica, mas sempre com uma boa dose de impacto (lê-se drama). Integrou as cias. Trupe do Experimento e Sociedade das Artes. Já fez teatro infantil, adulto, musical e deu pinta em novela. Atriz formada na Escola Técnica Estadual de Teatro Martins Pena, estuda Produção Cultural na Universidade Federal Fluminense (UFF) e trabalha no Centro Cultural da Justiça Federal. Assim que finalizar a formação de ensino superior, pretende expandir os horizontes teatrais, espirituais e filosóficos.

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