Auschwitz. Uma palavra cunhada na nossa história. Provavelmente por mais desinformada que uma pessoa seja, ela já deve ter ouvido esse nome, mesmo sem ter uma compreensão do seu significado. O maior e mais simbólico dos campos de concentração, onde morreram por volta de 1,1 milhão de pessoas, sendo 1 milhão só de judeus, até restar apenas 7 mil prisioneiros, libertados há exatos 70 anos pelas forças soviéticas, em 1945.

Como colocar toda a destruição de Auschwitz e toda a tragédia da perseguição nazista aos judeus em palavras? E ainda, como trazer para os quadrinhos o sentido dessas 1,1 milhão de mortes? Os mesmos quadrinhos que trouxeram um marinheiro que ganha superforça com espinafre, super-heróis com cuecas sobre a calça, Dennis o Pimentinha, entre outros personagens que não são exatamente exemplos de reflexão madura.

Na década de oitenta, o quadrinhista underground Art Spiegelman resolveu tentar, e da maneira mais cartunesca possível, com animais representando pessoas (ratos, os judeus; gatos, os alemães). E assim foi criada uma das maiores obras sobre o Holocausto e um clássico dos quadrinhos — Maus.

 

O autor em pessoa. Quadrinhistas curtem coletes.
O autor em pessoa. Não é só o Ziraldo que curte coletes.

Para você ver como foi uma iniciativa arrojada, ainda era relativamente raro mostrar os campos de concentração e em particular o extermínio. Havia filmes sobre a Segunda Guerra, alguns sobre a perseguição dos judeus, poucos sobre os campos de concentração e quase nada sobre as câmaras de gás e seu funcionamento. O primeiro filme popular a mostrar isso de fato foi A lista de Schindler, em 1993, desde então surgiram várias obras sobre o tema.

Mas arrisco dizer que poucas obras são tão efetivas quanto Maus. Essa história conta como o pai de Art Spiegelmen, Vladek, sobreviveu à invasão nazista na Polônia e aos campos de concentração, ao mesmo tempo que, no presente da narrativa, conta o processo de construção do quadrinho, com Art entrevistando o pai e tendo crises com relação ao seu trabalho e seu passado familiar.

E é isso que dá força à narrativa. Não é só uma história sobre o extermínio, mas também sobre as cicatrizes do extermínio e como afetam para sempre a vida de seus sobreviventes e de sua família (e o mundo, haja vista Israel). Vejam as duas primeiras páginas com o prelúdio de Maus:

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Repare como os quadros vão ficando mais escuros. No último quadro pai e filho estão cercados pela escuridão e separados da parte clara. Isso evoca a sombra do passado trágico.
Repare como os quadros vão ficando mais escuros. No último quadro pai e filho estão cercados pela escuridão e separados da parte clara. Isso evoca a sombra do passado trágico.

Já dá para observar aí o minimalismo e agilidade do quadrinho. Em uma página o personagem aposta corrida, se machuca e já está de volta em casa chorando. Os cenários são estilizados, quase tudo é uma mancha negra em meio ao branco, com detalhes suficientes para tornar o mundo discernível e real.

Mas o mais importante é o choque causado pelas palavras do pai: “Se trancar elas em quarto sem comida por uma semana, aí ia ver o que é amigo!”

Acredito que você, quando chegava chorando para seu pai depois de se machucar assim, ouvia alguma coisa boba do tipo “Vai passar”, ou “Não liga pra eles”, ou “Você tem que tomar mais cuidado!” No máximo, se seu pai chegasse ao ponto de falar algo como no quadrinho, seria sim meio ríspido mas você daria de ombros, porque afinal seu pai, com aquela barriguinha de cerveja proeminente, não faz ideia do que está falando.

Mas, no quadrinho, tanto o leitor quanto o personagem, mesmo sendo criança, sabem muito bem do que o pai está falando. Do campo de concentração.

É uma marca tão forte que para um filho de um sobrevivente, como Art Spiegelman, Auschwitz vai estar em todos os conselhos que ouvir, em todas as repreensões, em todas as brigas, em todos os comentários corriqueiros, em cada moeda gasta, em todos os choros, lamentações, desesperos, dúvidas. Essa busca em tentar compreender e dar vida à essa presença invisível cria uma tensão esmagadora em Maus. Ela é representada numa conversa entre Art e sua esposa, Françoise, no carro:

 

A metalinguagem em Maus
A metalinguagem em Maus

Art Spiegelman se preocupava em encontrar uma forma de retratar uma realidade que não conheceu. Uma forma de fazer jus àquelas várias pessoas. Diversas vezes a saída que muitos autores optam é por ser extremamente detalhistas e fiéis aos documentos, registros e fotos da época. Mas, não sei se vocês repararam, muitas obras baseadas a rigor na realidade não parecem tão reais e vivas. A questão é que a vida não é tão coesa quanto uma narrativa, e a foto de uma pessoa pode ser infiel a ela (pensem nas fotos do Facebook).

Em Maus, a opção foi outra. Em vez de utilizar traços humanos e desenhar um retrato mais fiel, Spiegelman desumanizou os personagens. Todos são animais e todos são praticamente iguais. Dois pontos pretos somente para os olhos dos ratos representando os judeus.

O que Spiegelman fez foi o contrário do nazismo. O nazismo chamava os judeus de vermin (pestes, como os ratos), para tirar deles a humanidade, e assim se tornar fácil odiá-los e matá-los. Essa simbologia é retomada em Maus, mas a narrativa traz de volta a humanidade aos personagens. Eles são personagens cheios de vida, qualidades e defeitos. Cada momento parece tão real quanto se fossem imagens de pessoas de verdade.

A preocupação maior do autor não foi reproduzir a realidade, mas reproduzir as emoções que a realidade evoca através do desenho e da palavra. Ele permite o leitor se projetar naquelas faces, completá-las, ao mesmo tempo que revela o modo como os nazistas (e racistas em geral) veem o mundo. E como falham em desumanizar as pessoas.

Maus é a prova máxima da força da empatia. Não precisamos do real na cara necessariamente para senti-lo.

Agora, acho que já joguei água fria o suficiente no seu Carnaval. 😛

Vamos ficar por aqui. Mas se pensa que terminei de falar sobre Maus, está enganado! Vai lá ler o livro, se ainda não leu. Aí voltamos para falar mais.

Boa leitura!

Társio Abranches
Aluno com mais estrelas douradas na classe de alfabetização da Escola Cachinhos de Ouro, também sou formado em Rádio e TV e em Produção Editorial pela UFRJ, mas não com tanto louvor. Trabalho como revisor de livros, tenho um conto publicado pela Andross Editora, já fui crítico de quadrinhos do site O Grito e vez ou outra faço uma tirinha para confirmar que desenho mal. Você vai me ver falando sem parar sobre quadrinhos e suas páginas que misturam cultura pop, arte, vanguarda, conservadorismo e tudo que couber num balão de fala. Vou mostrar o que tem de melhor e o que tem de pior no mundo do gibi, então não se preocupe se você está por fora do assunto. Acompanhando a coluna você vai entender que tem quadrinho para cada um e que nem tudo é super-herói com cueca para fora da calça. E se você curte cueca para fora da calça, tem lugar para isso aqui também.

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