cinema2No dia 1º de setembro a Academia Brasileira de Cinema reuniu os principais nomes do cinema nacional no Cine Odeon – Centro Cultural Luiz Severiano Ribeiro, no Rio de Janeiro, durante a décima quarta edição do Grande Prêmio do Cinema Brasileiro. O grande destaque da noite foi o longa-metragem “O Lobo Atrás da Porta”, de Fernando Coimbra, que levou sete troféus Grande Otelo, incluindo Melhor Longa-metragem de Ficção, Melhor Direção e Melhor Atriz.

A primeira coisa que o espectador vê em “O Lobo Atrás da Porta” é uma paisagem com o Cristo Redentor meio de costas, bem de longe e com muitos objetos urbanos em primeiro plano, deixando o ícone da cidade ainda menos relevante.

Esse plano inicial dá a dica não só sobre onde a história vai se passar, mas também de que se trata de uma trama um tanto quanto obscura, no ponto-cego de uma cidade “maravilhosa”.

O sequestro de uma menina de 6 anos reúne mãe, pai e a amante numa delegacia na Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro. O que esses três personagens contam a partir daí forma uma ciranda de segredos e pistas falsas que deixa o espectador preso à tela até o último segundo. A relação extraconjugal entre Bernardo (Milhem Cortaz), o pai da criança, e Rosa (Leandra Leal) é o ponto de partida para uma rede de segredos e mentiras que acaba envolvendo também Sylvia (Fabiula Nascimento), a mãe.

“O Lobo Atrás da Porta” é o primeiro longa-metragem de Fernando Coimbra. O diretor passou mais de 15 anos pensando em como contar essa história, baseada em fatos que aconteceram no Rio de Janeiro na década de 1960.

O roteiro é pautado em um dispositivo simples, mas de forte atração para quem assiste: a revelação da verdade, um mistério a ser resolvido. Somos inicialmente levados a crer que tudo o que está sendo contado é verdade, apesar da desconfiança (e truculência) do delegado, vivido por Juliano Cazarré. Até que em certo ponto, quando o mistério parece estar sendo resolvido, um último depoimento coloca novas cartas na mesa.

É difícil falar muito sobre “O Lobo Atrás da Porta” sem dar spoilers. E é importante deixar o mistério se dissolver no tempo e no ritmo que o filme nos dá. O tempo de cada plano, de cada cena, é um tempo justo para que a versão de cada personagem seja contada sem deixar escapar o final surpreendente antes da hora certa. A direção também tem seu grande triunfo na direção dos atores. Claro, são grandes nomes, mas claramente passaram por um trabalho intenso de composição e de interação uns com os outros. Leandra Leal é o ponto alto do filme. Uma aula de como ministrar uma personagem dubiamente complexa e verdadeiramente dissimulada. É uma mistura fantástica.

Ainda sobre veracidade, o que nos dá a certeza de que essa história poderia acontecer a qualquer momento, nessa cidade, com pessoas comuns, é a construção dos ambientes filmados. A casa de Bernardo e Sylvia, a delegacia e o apartamento onde os amantes se encontram são alguns dos lugares rigorosamente montados pela direção de arte de Tiago Marques. A fotografia de Lula Carvalho é na maior parte do tempo fechada nos personagens como se não pudéssemos ter acesso a nenhum lado da verdade a não ser aquele que sai de suas bocas.

Preciso fazer um comentário um tanto mais pessoal que só quem assistir ao filme vai entender de fato, mas que não posso passar por essa crítica sem falar sobre: a personagem Rosa descendo as escadarias da Igreja Nossa Senhora da Penha durante uma lavagem dos degraus feita por dezenas (talvez centenas) de fiéis ao seu redor, num tom absolutamente documental e dramático é uma das cenas mais bonitas que vi ultimamente no cinema brasileiro e reforça a referência Glauberiana que Fernando Coimbra carrega.

“O Lobo Atrás da Porta” é um filme com extensa carreira por festivais internacionais e se faz obrigatório a todo aquele que diz que o cinema brasileiro “é muito escasso” ou que “só produz comédias comerciais”. Existe muito mais por trás dessa porta, meus amigos.

 

Trailer do filme:

 

Nathália Oliveira
Parte cineasta, parte bailarina e parte roteirista, Nathália Oliveira gosta de fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Formada em Cinema pela PUC-Rio, ela trabalha atualmente como redatora publicitária na Rede Telecine e roteirista de projetos independentes. Ao longo de sua formação acadêmica fez curtas universitários e clipes musicais como assistente de direção, assistente de produção, assistente de fotografia, conselheira e animadora de equipe. Trabalhou durante 6 meses como voluntária no projeto social CriAtivos organizando um cineclube para crianças. Isso tudo sem deixar de frequentar as aulas de ballet e jazz. Apaixonada por cinema brasileiro, esta é sua primeira colaboração para um site cultural. Nathália acredita que todo filme merece ser visto e vai tentar te convencer disso.

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