Todo sonho tem uma carta

É preciso tomar nota. Fazer apontamentos. Refletir e produzir. Entender que nada é por acaso e que é nele que devemos ficar atentos. Nos detalhes. Entender qual é a verdade pode ser nossa maior distração. Compreender realmente ninguém nunca vai, mas não se deve desistir.

”O Grande Livro dos Pequenos Detalhes” é aula; é aquela aula reveladora que sanou todas as dúvidas (surgidas no início da aula) e no qual bateu o sinal: “Estou bem, estou viva. Não me procura.”.

O espetáculo que está em cartaz até 13 de junho no Oi Futuro Flamengo consta com 4 atores – dois brasileiros e duas portuguesas. A dramaturgia do inglês Alexander Kelly surgiu através da co-criação de todo o grupo harmonizando as diferentes referências culturais. Cláudia Gaiolas, Paula Diogo, Michel Blois e Thiare Maia Amaral são responsáveis pela autoria desse livro. Quando ocorre um trabalho de um grupo e a ideia de coletivo é exercida, teatralmente se vê o quanto eles vibram aquilo que construíram. Estão presentes e vivos embebidos de um texto rico, democrático e inovador que resulta num produto ativo – o espetáculo em si é um baú com tesouros escondidos e em movimento.

_DSC1981

O nome da peça me sugere uma noção do que é macro e do que é micro, dá apresentação do todo que é inalcançável e, portanto, incontrolável sem desvalorizar todas as partes envolvidas; o menor dos elementos ainda detém a responsabilidade de criar e representar o conjunto que está inserido.

Dividida em duas visíveis partes, ”O Grande Livro” tem como primeiro volume o Departamento de Clarificações e Distrações com seus integrantes debatendo ideias abstratas de como melhorar o cotidiano. Discutem como dar um pouco mais de poesia para as pessoas vertendo o olhar delas para o que está fora, sem focar nos próprios problemas. E na segunda trama, segundo volume, a história de Laura Pacheco, locutora da Rádio Cidade Bahia, que começa a dar falsas notícias de trânsito, o que atrapalha um ouvinte que acaba numa investigação policial com uma amiga da locutora. Nessa segunda parte a encenação é mais surreal – o passado se confronta com o futuro e o presente da cena -, mas com uma trama mais compreensível e palpável. Além se ter referências poéticas e perspicazes do Departamento de Clarificações e Distrações – que sugere, por sua vez, um quadro mais realista com um acúmulo excessivo de ideias que exaure a mente (o que credita o concebimento da obra).

o grande livro

A direção, assim como o texto, surge coletivamente. Os atores-diretores trazem o espectador para dentro da barraca. Perdido e rendido em um monte de ideias, embarca na investigação policial de forma natural e fluida. O cenário é composto basicamente pela barraca central de onde quase tudo sai, um teclado e a rádio e uma mesa com mais elementos. Simples, funcional e equilibrado. A iluminação faz parte do humor da cena e ela varia de forma eficaz e cortante. As concepções estéticas e musicais têm uma liberdade calculada: ao mesmo tempo é hilário e leve, é firme e correto.

De alguma forma verei novamente e constatarei a mesma sensação: é verdade que acabei de ver isso? Toda a criação seduz pelo seu caráter, pela legitimidade da obra. É parecido com um sonho: a encenação, a dramaturgia e a interpretação parecem ter vindo direto do subconsciente, mas eu sequer me dei ao trabalho de dormir pra sonhar; um sonambulismo consciente.

”O Grande Livro dos Pequenos Detalhes” critica a beleza do movimento eterno das coisas, valoriza ideias que possam melhorar seu dia e indaga sobre problemas macro focalizando e revirando o fundo de casa questão. Qualquer informação a mais pode desgastar a peça. E eu desejo que cada um tenha seus próprios fluxos de energia. Bom sonho.

Hikari Amada
Hikari tem uma certeza na vida: teatro. Ele se apresenta não como um hobby, um desejo, uma carreira; é um dogma. Canceriana camuflada de maquaigem aquariana e sabor agridoce de leão tem mania de transformar tudo em poesia sarcástica, mas sempre com uma boa dose de impacto (lê-se drama). Integrou as cias. Trupe do Experimento e Sociedade das Artes. Já fez teatro infantil, adulto, musical e deu pinta em novela. Atriz formada na Escola Técnica Estadual de Teatro Martins Pena, estuda Produção Cultural na Universidade Federal Fluminense (UFF) e trabalha no Centro Cultural da Justiça Federal. Assim que finalizar a formação de ensino superior, pretende expandir os horizontes teatrais, espirituais e filosóficos.

DÊ SUA OPINIÃO