Um dia para se lembrar: a tão aguardada entrega do Prêmio Sâo Paulo de Literatura, honraria anual que movimenta dezenas de cabeças do mercado editorial e da esfera literária. Uma premiação, o anúncio: o grande livro do ano é Tempo de espalhar pedras, de Estevão Azevedo, publicado pela casa paulistana Cosac Naify no ano anterior, mais uma vitória da editora em dezenove anos de existência. Uma rodada de comemorações, aplausos, prêmios levados para casa.

A bomba: em matéria exclusiva do Estadão, o publisher Charles Cosac, sócio e co-fundador da editora junto a seu cunhado Michael Naify, anuncia que pretende encerrar as atividades da empresa. Todos pegos de surpresas: não somente leitores como autores e mesmo funcionários da casa, de maneira verdadeiramente democrática, ficam sabendo ao mesmo tempo do fim da editora que, já há anos, destaca-se pela proposta de “fazer de todo livro um livro de arte”.

Qualquer um que dê seus dois centavos sobre livros, e não precisamos nem falar de literatura, tinha alguma noção do impacto da Cosac Naify no mercado brasileiro. Conhecida como a editora dos livros de arte, a que transformava livros em arte, por um lado; a insustentável e inviável, editora cheia das frescuras, com projetos todos repletos de firula e pompa de ouro, a casa igualmente dividia opiniões em sua relação com o resto do mercado como modelo de negócio. Não era segredo para ninguém que a Cosac Naify não fechava muitos anos com dígitos verdes em seu saldo financeiro, e muito já se foi dito em relação a isto.

Mas não é disso que seu fundador fala ao encerrar as atividades. Não é o dinheiro que, em tempos de crise econômica, provoca demissões numerosas em editoras e gráficas; a alta do dólar que castiga o mercado de papel, a impressão de acabamentos e luxúrias que rodam graficamente por menos na China do que aqui.

Segundo Cosac, é uma escolha feita por princípios filosóficos.

Eu vejo a editora se descaracterizando, se afastando daquilo que fez dela tão querida, e prefiro encerrar as atividades a buscar uma solução que possa comprometer seu passado.

O que nos traz a questão: como se reflete o fim de uma editora no mercado brasileiro; principalmente uma que, como a Cosac Naify, fez história e deixou sua marca entre as estantes das livrarias e dos leitores?

Uma editora significa catálogo, que, por sua vez, amplia as vozes divergentes da literatura e não-ficção; a diversidade bibliográfica, tão aclamada, vai perdendo, com fusões, fins e compras, mais e mais vozes variadas em um mercado cultural que, sabe-se bem, desenvolve-se de uma base de pequenas empresas independentes para grandes conglomerados em expansão. Em tempo de crise, alta do dólar, encarecimento do papel e caixa em baixa, a Cosac não foi a única que terminou; mas, contando sua história e sua proposta de publicação, focada em livros que nem sempre encontrariam seu caminho pelo mercado brasileiro de outra forma, acaba por se tornar uma falta sentida naqueles que frequentam as livrarias.

O nicho de designers, a literatura menos conhecida de certos países que vez ou outra se viam no catálogo da Cosac deverá, agora, encontrar outras formas de permanecer no mercado (e o editor já afirmou que está em tentativas de negociação para encontrar casas aos projetos que deixou órfão). Mas a marca da Cosac, o esmero que permeava suas edições (e que, por outro lado, pode ter sido causa de sua bancarrota) também fará falta àqueles que, em um mercado menor que muitos por aí, sentem falta de edições de luxo, dos “livros transformados em arte” que a editora fazia.

O fim de uma editora, pois, simboliza a perda. Não apenas a perda de um produto, mas o fechar de uma das bocas divergentes do mercado, o encerramento de possibilidades futuras trazidas por aquela proposta. O desaparecimento de seu catálogo em um mercado já limitado, quanto mais algum que se dedique a nichos específicos, prova-se uma perda crucial. Uma perda que pode se provar cada vez mais duradoura quando a perspectiva de um mercado é encolher-se; uma perda que nos relegará ao sebo, procurando preencher uma falta ainda não completamente sentida.

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Bruno Alves
Paulistano de nascimento, jundiaiense de coração e carioca honorário. Formando em Comunicação Social (Produção Editorial) na Universidade Federal do Rio de Janeiro, é assistente editorial na Bertrand Brasil e leitor de gosto eclético: ama literaturas contemporâneas e ficções de gênero em igual medida. Eventualmente tenta a mão na ficção, com resultados aqui e ali.

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