No último domingo, o mundo comemorou o Dia Internacional da Mulher. Diante das mais belas mensagens e imagens de flores, decidi trazer essa temática para a coluna: o papel da mulher no Ballet Clássico.

Traçar esta temática detalhadamente, desde o início da história da dança, seria praticamente uma tese de doutorado. Então decidi fazer um rápido apanhado dos principais momentos e de como a mulher foi representada em cada um deles. Hoje vou falar do período do Renascimento até o Romântico. Vamos lá:

 

A partir da Renascimento do século XVI o balé começou a se delinear na Itália, mas tendo na França o seu apogeu. As apresentações nessa época, ao mesmo tempo em que serviam de divertimento nas festas dos salões da elite, eram as oportunidades em que se definiam as posições sociais, celebrando-se as relações de poder.  Neste período  apenas os homens dançavam, mas  não tinham formação específica nem virtuosismo técnico. As mulheres ficavam apenas na plateia assistindo.

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A dança era, então, muito mais do que entretenimento: as apresentações na corte tinham como objetivo a socialização e inclusão de homens em um grupo. Ela fazia parte da educação dos jovens da elite que ambicionavam aumentar o seu prestígio.

Mais tarde, no século XVII, o balé se torna mais refinado, sendo executado por bailarinos profissionais e não mais pelos homens da nobreza. A inclusão de bailarinas só se deu em 1681, com Mademoiselle Lafontaine. O Ballet Clássico tornou-se então uma arte profissional para os dois sexos.

 

No século XVIII, a Ópera de Paris era um dos principais centros mundiais da dança, onde as bailarinas começaram a se destacar, ocupando os principais lugares nos espetáculos. No entanto, a questão da prostituição era latente e as bailarinas tiveram  uma conotação negativa até meados do século XX. Elas  eram vistas como  uma fonte de excitação, e por vezes, satisfação sexual. A simples exibição de pernas no balé atraía a atenção de homens de alta classe, que se apaixonavam pelas  bailarinas e suplicavam recompensas mais íntimas, e assim, muitas bailarinas acabavam deixando os palcos para se tornarem prostitutas.

Entretanto, a evolução técnica do  Ballet, no mesmo período, traz destaques para o papel das bailarinas na sociedade.  Marie Sallé foi uma das primeiras a abolir os incômodos  trajes da época, como as perucas e sapatos altos. Já Marie Camargo conseguiu encurtar as saias usadas  e foi uma das primeiras bailarinas a dançar como homem e alcançar um enorme brilhantismo técnico.  Elas foram mulheres revolucionárias para a época.

Marie Camargo
Marie Camargo

 

Posteriormente, temos o período romântico do século XIX, que revelava um fascínio pelo sobrenatural, pelo exótico e pela fantasia. Nos espetáculos de dança, faziam-se presentes os contos de fadas e os romances. Os coreógrafos buscavam a magia e os aspectos emocionais e intuitivos da natureza humana, em detrimento ao aspecto racional.

 

Marie Taglioni
Marie Taglioni

O romantismo exaltava a mulher, não tanto em sua condição de mãe, esposa ou amante, mas como uma representação do inacessível, do ideal sonhado pelo homem, que está disposto a sacrificar sua vida por  ela.  Personificando o caráter etéreo e sublime da bailarina inatingível, Maria Taglioni foi a primeira bailarina a subir na ponta dos pés. Isso ficou estabelecido como elemento essencial do balé, até os dias de hoje.

Abro aqui um parênteses para agradecer a Marie Taglioni em nome de todas as bailarinas, não pelos calos e bolhas que todas nós ganhamos ao usar sapatilhas de ponta (ossos do ofício… RsRs), mas pela sensação que temos de flutuar e desafiar a gravidade. É de fato, algo muito especial, que virou o símbolo da feminilidade no Ballet Clássico.

 

Vou ficando por aqui! Texto que vem começarei falando de Anna Pavlova, bailarina que eternizou o papel da “Morte do Cisne”. Até lá!

Liana Vasconcelos
Bailarina formada pela Escola Estadual de Dança Maria Olenewa (Fundação Theatro Municipal do Rio de Janeiro) e pela Royal Academy of Dance, de Londres. Conta em seu currículo com diversas premiações em concursos nacionais e internacionais. Ganhou, em 2009, o prêmio de melhor bailarina no Seminário de Dança de Brasília e foi agraciada com uma bolsa de estudos para o Conservatório de Dança de Viena. Pertenceu à Cia. Jovem de Ballet do Rio de Janeiro, São Paulo Companhia de Dança e se apresenta como bailarina convidada em diversos festivais de dança no Brasil. É Bacharel em Produção Cultural pela Universidade Federal Fluminense (UFF), com a monografia “Memória da Dança: Importância, Registro, Preservação e Legado”. Fez parte do elenco da novela “Gabriela”, da Rede Globo de televisão como bailarina/atriz. Foi contratada pela São Paulo Companhia de Dança, como Pesquisadora, para elaborar duzentos verbetes relativos à dança no Rio de Janeiro, para a enciclopédia online “Dança em Rede”, criada por esta companhia. É também colunista de dança no Blog Radar da Produção É bailarina-intérprete e produtora, junto ao diretor Thiago Saldanha e a coreógrafa Regina Miranda, do projeto “Corpo da Cidade”, uma experimentação em vídeodança que busca dialogar o corpo dançante da bailarina clássica com as transformações urbanas que a cidade do Rio de Janeiro vem sofrendo. Atualmente, é bailarina contratada do Corpo de Baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro É apaixonada pelas artes cênicas, espectadora frequente dos teatros do Rio de Janeiro, ama viajar e vive em eterna dança.

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