Dando continuidade ao nosso último texto, começo falando de Anna Pavlova, que eternizou o papel de “A morte do Cisne” do coreógrafo Fokine. Anna combinava os dois estereótipos de mulher: casta e libertina e se tornou uma grande personalidade na história da dança.

Anna Pavlova em "A Morte do Cisne"
Anna Pavlova em “A Morte do Cisne”

 

Ballet "Les Noces" de Nijinska, com a São Paulo Cia de Dança
Ballet “Les Noces” de Nijinska, com a São Paulo Cia de Dança

Até o século XIX, a maioria das mulheres artistas, no campo dominado por homens, obteve acesso à formação e ao conhecimento sob a proteção de um artista masculino. Bronislava Nijinska (1891-1972) foi a única coreógrafa mulher da primeira metade do século XX a trabalhar com uma grande companhia de balé, o Ballets Russes. Mesmo tendo coreografado aproximadamente cinquenta balés e seu trabalho tenha se desenvolvido muito a partir dos avanços coreográficos iniciados por seu irmão, o grande Nijinsky, Nijinska custou a receber seu devido reconhecimento, sendo mais conhecida simplesmente como a irmã de Nijinsky. Abertamente feminista, ela encenou papéis masculinos, mostrando-se versátil e adaptável, questionando os papéis sociais rígidos destinados às mulheres, como no seu ballet “Les Noces”.

 

A dança moderna proporcionou às mulheres a oportunidade de afirmar, como artista e mulher, sua independência em face aos convencionalismos. O início do modernismo na dança se deu com mulheres educadas e de personalidade forte, ao mesmo tempo em que programas de dança eram criados em universidades. Constrangidas financeiramente e descontentes com os papéis femininos de até então, as mulheres da dança moderna escolheram ser agentes, e não mais objetos como antes. Com uma nova dimensão técnico-formal, simbólica e contextual em suas coreografias, passaram a ser admiradas pela plateia, aliviando antigos sentimentos de insignificância física e social impostos pelos homens.

As precursoras da dança moderna então fundaram suas próprias escolas e companhias, sendo também bailarinas, coreógrafas, empresárias, escritoras, críticas e estudiosas, fazendo progressos e, de certa forma, elevando seu status na dança e na sociedade.

Com essas características foi se compondo a primeira geração da dança moderna, com nomes como Isadora Duncan (1877-1927) e Ruth St. Denis (1879-1968).

 

Isadora Duncan e sua dança livre
Isadora Duncan e sua dança livre

A Duncan causou tremendo choque na sociedade ao dançar com túnicas transparentes e pés descalços, o que era considerado tão ousado quanto a nudez. Ela fundou uma nova linguagem gestual que libertava o corpo dos convencionalismos da dança e da sociedade e sua expressão era uma reivindicação tanto do movimento feminista quanto desta dança que começava a surgir. Já Ruth St. Denis tinha a intenção de  provocar experiências místicas, insistindo no corpo feminino como um recipiente sensual para o espiritual.

Na  segunda geração da dança moderna, ainda na primeira metade do século XX, surge Martha Graham (1894-1991), figura de destaque na vanguarda. Dirigindo uma companhia só de mulheres até o final da década de 30, ela perseguiu as paixões femininas na história, na literatura e no mito. Preocupada com a luta da mulher pela dominação sem culpa, suas obras apresentavam temas com certas polaridades e dicotomias: paixão desenfreada e dever, atração e repulsa pelo amor, inibição e liberdade sexual, sem que as mulheres se reduzissem ao status de objetos sexuais.

Mais tarde, a dança-teatro de Pina Bausch (1940-2009), revela preocupações com as questões de identidade e dominação masculina em características agressivas, brutais e controladoras do comportamento masculino. Bausch tinha obsessão quanto à opressão das mulheres, revelando no palco jogos de poder entre homens e mulheres, combinando além de violência entre os sexos, ternura com selvageria, celebração com desespero, erotismo ou excesso sexual. A separação entre os sexos e a relação de insatisfação e desejo se fazem presentes no trabalho da coreógrafa, principalmente em cenas em que entre um casal se dá a alternância de gestos carinhosos e agressões recíprocas, sinalizando a ausência e insaciável necessidade um do outro. Há ainda em sua obra coreográfica estereótipos do andar sexy das mulheres e dos gestos brutais e viris dos homens, mas também, homens tornando-se mulheres, em nítidas transformações de identidade de gênero, acompanhando as transformações sociais.

 

 

A nossa contemporaneidade é composta por danças que se opõem às representações tradicionais entre os sexos. Muitos coreógrafos contemporâneos criam também obras em que criticam a supremacia feminina no balé, nas quais bailarinos dançam nas pontas, travestidos de bailarinas de forma irônica, invertendo os valores clássicos desse estilo, como é o caso do Les Ballets Trokadero de Monte Carlo.

 

 

Assim, ideias codificadas de feminilidades e masculinidades inscritas em cada gênero são desmistificadas e paradoxos dos papéis sexuais se apresentam, expressando rupturas de certos padrões e modelos acerca desses papéis na dança, assim como na nossa sociedade atual, onde as questões de gênero e sexualidade estão em fervilhante discussão.

“A dança, que nasceu e cresceu nas civilizações comunitárias e que se estiolou nas civilizações individualistas, nos dias de hoje pode contribuir significativamente para a realização da síntese pela qual nossa época espera: a de uma sociedade aberta onde o comunitário não se degradasse em totalitário, nem a expressão da pessoa em individualismo, mas, ao contrário, o homem pudesse conjugar sinfonicamente, como numa dança bem dançada, sua dimensão social e sua criatividade em um sistema consciente de sua relatividade e aberto para o futuro, para suas profecias e suas utopias.”(GARAUDY, 1980)

 

Liana Vasconcelos
Bailarina formada pela Escola Estadual de Dança Maria Olenewa (Fundação Theatro Municipal do Rio de Janeiro) e pela Royal Academy of Dance, de Londres. Conta em seu currículo com diversas premiações em concursos nacionais e internacionais. Ganhou, em 2009, o prêmio de melhor bailarina no Seminário de Dança de Brasília e foi agraciada com uma bolsa de estudos para o Conservatório de Dança de Viena. Pertenceu à Cia. Jovem de Ballet do Rio de Janeiro, São Paulo Companhia de Dança e se apresenta como bailarina convidada em diversos festivais de dança no Brasil. É Bacharel em Produção Cultural pela Universidade Federal Fluminense (UFF), com a monografia “Memória da Dança: Importância, Registro, Preservação e Legado”. Fez parte do elenco da novela “Gabriela”, da Rede Globo de televisão como bailarina/atriz. Foi contratada pela São Paulo Companhia de Dança, como Pesquisadora, para elaborar duzentos verbetes relativos à dança no Rio de Janeiro, para a enciclopédia online “Dança em Rede”, criada por esta companhia. É também colunista de dança no Blog Radar da Produção É bailarina-intérprete e produtora, junto ao diretor Thiago Saldanha e a coreógrafa Regina Miranda, do projeto “Corpo da Cidade”, uma experimentação em vídeodança que busca dialogar o corpo dançante da bailarina clássica com as transformações urbanas que a cidade do Rio de Janeiro vem sofrendo. Atualmente, é bailarina contratada do Corpo de Baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro É apaixonada pelas artes cênicas, espectadora frequente dos teatros do Rio de Janeiro, ama viajar e vive em eterna dança.

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