Na quinta-feira da semana passada, não muito depois da morte também recente de Leonard Nimoy, o grande público “nerd” mundo afora foi despido de mais um de seus ilustres ícones: Sir Terry Pratchett, falecido aos 66 anos de idade por uma complicação de sua condição. Na década passada, o escritor e prolífico autor da série de fantasia Discworld foi diagnosticado com uma variação rara do mal de Alzheimer que parece tê-lo levado, infelizmente, cedo demais.

Um dos maiores nomes do mundo dos livros britânico — só perdendo para J.K. Rowling em termos de vendas — Pratchett desenvolveu o mundo fantástico do Disco em 1983, a princípio como paródia direta, como forma de brincar um pouco com os clichês e convenções do gênero da alta fantasia aos moldes de Tolkien. Neste mundo plano e circular que navega pelo espaço nas costas de quatro elefantes, que por sua vez estão postados na enorme tartaruga A’tuin, o início foi estipulado pelas aventuras do mago Rincewind e seu companheiro turista Twoflower. Suas duas primeiras aventuras, A cor da magia e A luz fantástica, acabaram dando origem a uma série de longa duração que transcendeu seus personagens, focou em diversos outros aspectos, povos e pessoas recorrentes daquele mundo, e acabou com quarenta livros (e mais um para ser publicado postumamente no segundo semestre desse ano) antes que Sir Terry viesse a falecer neste começo de março.

The_Colour_of_Magic_(cover_art)Se no começo da série, em seus primeiros livros, Discworld era mais uma paródia nos moldes de O guia mochileiro das galáxias, como o foi para a ficção científica, logo esta característica se expandiu de forma a transformar-se em uma sátira bem-humorada da própria vida real. Com suas piadas e suas notas de rodapé, nenhum aspecto da sociedade deixou de ser percebido e desconstruído em seu mundo plano: desde religião à cultura, xenofobia, movimentos sociais, cinema, universidades e sistemas de governo, expandindo a própria fantasia e removendo-a de seus moldes para falar da vida, para nos fazer rir e, sim, para contar ótimas histórias.

Mas é claro que não só de uma série vive um autor, e Sir Terry não se limitou ao seu mundo plano nos exercícios de sua habilidade da escrita, a despeito de lançar uns bons dois livros por ano ambientados em seu Disco sem perder o fôlego em quaisquer momentos. Contos e não-ficção eram a norma, e, sim, romances separados de sua mitologia já estabelecida também figuram na obra do autor, como o popular livro que escreveu em coautoria com Neil Gaiman, Belas maldições (Good Omens). Mas Pratchett era indubitavelmente conhecido e associado à sua obra mais extensa e mais famosa, em sua série não sequencial que lhe tornou um rosto conhecido no mundo anglófono e diversos outros países.

Falta muito para a obra completa do autor ser trazida para nossas terras, no entanto: os primeiros doze volumes e mais alguns avulsos foram lançados pela editora Conrad há alguns anos, e agora a editora Bertrand Brasil comprou os direitos e pretende voltar de onde a outra deixou, a começar por Pequenos Deuses, décimo-terceiro livro do Disco publicado, muito em breve.

Sir Terry não deixou que seu diagnóstico o deixasse parar de produzir, tendo escrito e produzido até o fim de sua vida; não à toa um livro terminado recentemente ainda está para publicação. Se algo, a noção de que seu cérebro e sua mente afiada lhe falhariam eventualmente só fez com que produzisse com ainda mais voracidade, aproveitando com intensidade cada momento de lucidez que lhe restava. Não houve tempo, entretanto, para que o Alzheimer lhe degenerasse à senilidade; acabou levando-o definitivamente antes disso.

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Um dos personagens mais populares de Discworld era Morte. O ceifador sinistro está presente desde o primeiro volume da série, mas apenas em seu quarto livro, O aprendiz da Morte (Mort, no original), foi que este personagem teve um desenvolvimento mais detalhado. Menos uma personagem antagônica que uma figura com saudáveis curiosidades a respeito da vida humana, Morte tem apenas um trabalho impopular a ser feito que, no obstante, precisa existir para o equilíbrio do universo. A abordagem de Sir Terry nessa sua personagem recorrente, somado a suas aparentes filosofias pessoais (como o seu apoio ao suicídio assistido, para que pessoas em condições similares à sua possam escolher a forma e a hora de sua partida desse mundo), passam uma impressão de um homem que aprendeu a não temer o ceifador. Esta frase é literalmente o lema de seu brasão de armas, feito quando foi tornado cavaleiro do Império Britânico: Noli timere messorem, não tema o ceifador. 

É apenas trágico que uma mente como a de Sir Terry Pratchett tenha sido afetada, por um azar cósmico, por um mal que o tiraria tão rápido e antecipadamente do nosso convívio. Entretanto, podemos ter certeza de que seu legado perdurará e que, até o fim, ele esteve trabalhando e fazendo o que fazia de melhor: construindo histórias que, apesar de bem-humoradas, não deixam de ser tão sérias quanto qualquer outro tipo de literatura.

Encerro este texto com um trecho de Neil Gaiman, deste texto sobre experiências anteriores com Pratchett:

Conforme Terry caminha em direção às trevas cedo demais, flagro-me com raiva […] da injustiça que nos privará… do quê? Outros vinte ou trinta livros? Outra prateleira de ideias e frases gloriosas e velhos e novos amigos, e de histórias nas quais as pessoas fazem o que fazem de melhor, que é usar suas cabeças para se livrarem de problemas nos quais se meteram por não pensar? Mais um ou dois livros de jornalismo ou agitprop? Na verdade, a perda dessas coisas não me enraivece como deveriam. Me entristecem, mas eu, que vi algumas delas construídas de perto, entendo que cada livro de Terry Pratchett é um pequeno milagre, e já temos mais do que o deveria ser o suficiente; não é certo sermos gananciosos.

Eu me enraiveço frente à perda iminente do meu amigo. E penso: “O que Terry faria com essa raiva?” Então pego minha caneta, e começo a escrever.

Bruno Alves
Paulistano de nascimento, jundiaiense de coração e carioca honorário. Formando em Comunicação Social (Produção Editorial) na Universidade Federal do Rio de Janeiro, é assistente editorial na Bertrand Brasil e leitor de gosto eclético: ama literaturas contemporâneas e ficções de gênero em igual medida. Eventualmente tenta a mão na ficção, com resultados aqui e ali.

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