O corpo e as literaturas sobre esse tema sempre me chamaram muito a atenção. A maneira como as mídias se apropriam do corpo para vender e sexualizar toda e qualquer curva, me fazem refletir sobre a nudez e que paratextos são esses que vêm junto ao corpo nu na contemporaneidade. O corpo jovem, velho, o corpo normativo, o corpo subversivo, todos eles vêm acompanhado de muitas identidades, no entanto, o nu sempre está associado ao erotismo ou a algo repulsivo, libidinoso e assustador.

Quando comecei a me interessar mais sobre esse assunto, descobri uma nova função do nu, que deveria ser a mais óbvia, que é ser só o nu. Os pudores que cercam o corpo no Brasil, a proibição do top less na praia e o fio dental liberado, me fazem questionar que construção cultural é essa ao redor do corpo.

Talvez seja uma coisa regional, nas conversas de bar meus amigos juram que é relacionado a latinidade, mas fato é que o corpo aqui é visto de outra maneira que nos países do norte, por exemplo. Lembro do choque da minha família ao me visitar em Barcelona e perceber que eu não me importava em ir a varanda em roupa interior e mais choque ainda tiveram quando perceberam que os vizinhos todos faziam igual e ninguém se olhava estranho por isso. Na realidade ninguém sequer se olhava, afinal, é o espaço do outro e o corpo do outro que – surpresa! – não está aberto ou interpelando a minha mirada.

Afinal, com todo mundo acontece de esquecer a toalha, ou de lembrar de pegar a roupa no varal só depois que sai do banho e ir pelado na varanda é a opção mais fácil. Isso é dia-a-dia, rotina, varal, toalha e roupa e isso não é nada sexual, sensual ou erótico e, sinceramente, não entendo essa hiper-sexualização que temos ao nu.

Obviamente o corpo masculino é sexualizado, mas é o corpo feminino que ganha destaque nos anúncios. Lembro sempre das vezes que fui ao salão do automóvel e aquelas mulheres lindas, normativas, com pernas maiores do que eu e roupas sensuais, ficavam paradas ao lado dos últimos modelos de possantes. O carro é o produto e o corpo feminino é a maneira de vender. Quase como: compre esse carro, ganhe esse corpo/sexo. E, nesses detalhes que a associação do corpo ao sexo é sutil ao mesmo tempo que arrasadora.

Estamos tão acostumados com esse tipo de abordagem em relação ao corpo que não estranhamos a maneira como se constrói a relação entre o ato sexual e o nu, quando entre os dois existem abismos de distância, ou deveria existir. Para ajudar nessas reflexões recorro aos estudos feministas e de como se apropriam do corpo como metáfora, plataforma e metalinguagem: o corpo falando do corpo.

A artista Casey Jenkins, em especial, provoca uma discussão forte em relação a isso com o trabalho “Vaginal Knitting”, no qual ela questiona as associações negativas em relação a vulva e faz isso através de uma performance onde coloca um novelo de lã dentro da sua vagina e tricota cachecóis gigantes durante 28 dias. A primeira vez que vi esse trabalho, fiquei chocada e, logo, fiquei chocada com o meu choque. Pois estava justamente questionando esse estranhamento e associações negativas com o corpo e me choco ao ver como ela usa seu corpo nesses questionamentos, prova de como o corpo feminino é associado ainda como algo repulsivo ou algo libidinoso e que isso é uma ideia que está arraigada no inconsciente coletivo.

Para ver o vaginal knitting clique aqui.

Como diz Jenkins no vídeo, temos esse tipo de associação quando é só um corpo e, no caso de sua performance, porque o estranhamento já que saem bebês pelo mesmo caminho da lã dos seus cachecóis?

Conclusão que eu chego é que temos medo corpo e o tratamos como algo assustador, quando o nu não deveria estar associado a padrões, normas ou subjulgado ao olhar do outro. A nudez nada tem a ver com a capa da playboy e muito tem a ver em como tratar o próprio nu e aos outros de maneira natural. O corpo, tal como é, deveria ser o bastante para o nu sem sexualizações e livre para ir a varanda, a praia, para fazer arte e ser usado em todos os seus cantinhos, sem que isso signifique necessariamente o último lançamento erótico das brasileirinhas. É só quando nós ficamos pelados que podemos parar de sexualizar os corpos e situar o nu em um outro lugar, entender que o erotismo nada tem a ver com a nudez por si só. Afinal, nascemos nus e sempre vamos precisar buscar a toalha e isso é só a gente pelado, pelado, nu com a mão no bolso.

 

Foto: Sperncer Tunnick.

Annanda Galvão
Annanda Galvão Ferreira da Silva têm quase tantas profissões quanto sobrenomes: designer de moda pelo SENAI/Cetiqt, Produtora Cultural pela Universidade Federal Fluminense. Cursou Gestão Cultural na Universidade Lusófona de Lisboa e foi investigadora pelo CNPQ-Pibic na Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB) em Políticas Culturais, sendo seu artigo “A visão do Conselho Federal de Cultura sobre as artes popular e erudita” premiado na V jornada de iniciação científica da FCRB e também pela Gerência de Cultura da Escola Sesc de Ensino Médio (2012). Mestre pela Universitat de Barcelona onde cursou o mestrado “Construção e Representação de Identidades Culturais”. Atualmente é aluna do programa de doutorado em Estudios Migratorios da Universidad de Granada, onde continua estudando as migrações a luz das políticas culturais. Tendo atuado em diversas áreas da produção e gestão cultural, realizou instância de colaboração no departamento de conteúdo do teatro do governo espanhol e catalão Mercat de les Flors, tendo coordenado o projeto "Trocas - formació i dansa" de intercâmbio entre entidades espanholas e brasileiras, foi também colaboradora e palestrante do IPAM - International Performes Arts Meeting que acontece dentro do Festival Grec em Barcelona. É professora de elaboração de projetos culturais do curso de formação de agentes culturais dentro do Programa Favela Criativa da Sec-rj gestionado pelo Cieds. É idealizadora de projetos nas áreas de cinema, arquitetura e educação. Apaixonada por viagens, carimbos no passaporte, museus, livros e pessoas , é curiosa por natureza e espera mostrar um pouquinho do que têm visto mundo a fora para os leitores do TagCultural.

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