am_1_5766954_890636 E vamos seguindo falando sobre o corpo de quem faz arte, até porque esse assunto é inesgotável.  Hoje  o tema é o  corpo  movente,  transcendente e dançante, que induz a uma experiência não conceitualizável, não redutível à  palavra. O corpo que se joga no espaço, que expande limites e comunica em ritmo extasiante. O corpo do bailarino.

A arte da dança proporciona aos seus executantes a construção, a desconstrução e a reconstrução das fronteiras entre o fora e o dentro, buscando incessantemente o lugar do corpo pelos lugares do mundo. Um corpo torna-se bailarino quando extrai o movimento de um estado de coisa e o eleva à condição de arte produtora de afetos e percepções. O corpo do bailarino consegue ser então, ao mesmo tempo um espaço de expressão e de construção de pensamento, sendo  portanto, objeto e sujeito de sua arte.

O ato de dançar, significa tornar o corpo instrumento de demonstração de ideias e conceitos através de um determinado código, nesse caso, uma técnica de dança: Ballet Clássico, Dança Moderna, Contemporânea, Sapateado, Street Dance, dentre outras.  Todas as técnicas exigem determinado nível de disciplina para a sua correta execução.

Mas no Ballet Clássico isto é ainda mais exacerbado. O corpo do bailarino clássico,  mais do que todos os outros,  precisa ser um “corpo dócil,a-danca-faz-bem-para-o-corpo-e-para-a-mente-6 conceito de Michel Foucault[1], segundo o qual, é dócil um corpo que pode ser submetido, que pode ser utilizado, que pode ser transformado e aperfeiçoado. Um corpo disciplinado é a base da eficiência de um gesto. No caso do Ballet Clássico, é a base da eficiência de todos os seus movimentos técnicos.

O corpo do bailarino é considerado um corpo belo, na condição dos movimentos realizados se conformarem a padrões formais de harmonia e de elegância e a elevadas exigências técnicas, por vezes até antinaturais e inorgânicas, acarretando em uma série de lesões. Em eterna busca pelo virtuosismo técnico, pela graciosidade e leveza, este corpo interroga a si próprio: seus limites, suas configurações, suas possibilidades, sua resistência, sua vulnerabilidade, sua permeabilidade e sua entrega.

A dança integra várias funções cerebrais ao mesmo tempo.  Ela envolve simultaneamente processos sinestésicos, racionais, musicais e emocionais. Dançar exige um tipo de coordenação interpessoal no espaço e tempo quase inexistente em outros contextos sociais. Durante um espetáculo de Ballet Clássico, uma bailarina movimenta todos os músculos do seu corpo e muitas vezes, em direções opostas e intensidades diferentes. O seu cérebro está trabalhando intensamente, pensando em cada movimento que precisa ser realizado, tentando esquecer as dores das lesões recorrentes dos treinamentos e ainda, preocupado em transmitir  os sentimentos e as emoções da personagem que ela está interpretando.  É um corpo multiuso.

Graças à natureza particular do seu movimento, o corpo que dança toma como ponto de partida o desequilíbrio e não volta a sair dele. Sua arte consiste em construir, driblando a gravidade, um grau máximo de instabilidade, desarticulando as articulações, segmentando os movimentos, separando os membros e os órgãos, com o objetivo de poder reconstruir um sistema de equilíbrio infinitamente delicado, uma espécie de caixa de ressonância ou amplificador dos movimentos microscópicos do corpo.

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Eis os motivos do espaço do corpo de quem dança causar tanto fascínio sobre o espectador. Entre a visibilidade da superfície corpórea e a invisibilidade dos rastros oriundos dos movimentos, a dança acontece. Que corpo é esse que não precisa de voz e nem de palavras para dizer muito sobre a vida?  É o corpo que dança.

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Como afirmou o coreógrafo Bill T. Jones, em entrevista a Inês Bogéa[1], “O mundo se vê no corpo que dança”.

     E uma única frase, da coreógrafa Martha Graham (americana que revolucionou a história da dança Moderna) sintetiza tudo isso que abordei acima:

“O corpo diz o que as palavras não podem dizer”.

Para ilustrar, dois vídeos desses corpos em movimento:

Lost in Motion

Lost in Motion II

 


[1] FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: história da violência nas prisões. 7.ed. Petrópolis: Vozes, 1989.

[2] BOGÉA, Inês(org). Primeira Estação: ensaios sobre a São Paulo Companhia de Dança. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2009.

 

Liana Vasconcelos
Bailarina formada pela Escola Estadual de Dança Maria Olenewa (Fundação Theatro Municipal do Rio de Janeiro) e pela Royal Academy of Dance, de Londres. Conta em seu currículo com diversas premiações em concursos nacionais e internacionais. Ganhou, em 2009, o prêmio de melhor bailarina no Seminário de Dança de Brasília e foi agraciada com uma bolsa de estudos para o Conservatório de Dança de Viena. Pertenceu à Cia. Jovem de Ballet do Rio de Janeiro, São Paulo Companhia de Dança e se apresenta como bailarina convidada em diversos festivais de dança no Brasil. É Bacharel em Produção Cultural pela Universidade Federal Fluminense (UFF), com a monografia “Memória da Dança: Importância, Registro, Preservação e Legado”. Fez parte do elenco da novela “Gabriela”, da Rede Globo de televisão como bailarina/atriz. Foi contratada pela São Paulo Companhia de Dança, como Pesquisadora, para elaborar duzentos verbetes relativos à dança no Rio de Janeiro, para a enciclopédia online “Dança em Rede”, criada por esta companhia. É também colunista de dança no Blog Radar da Produção É bailarina-intérprete e produtora, junto ao diretor Thiago Saldanha e a coreógrafa Regina Miranda, do projeto “Corpo da Cidade”, uma experimentação em vídeodança que busca dialogar o corpo dançante da bailarina clássica com as transformações urbanas que a cidade do Rio de Janeiro vem sofrendo. Atualmente, é bailarina contratada do Corpo de Baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro É apaixonada pelas artes cênicas, espectadora frequente dos teatros do Rio de Janeiro, ama viajar e vive em eterna dança.

2 COMENTÁRIOS

  1. Vc dá o status de enunciado à dança, o que a aproximaria da ciência ou ainda a uma verdade possível. A dança reside no esquecimento do gesto, na indisciplina da cultura, no sagrado que pode por vezes habitar o banal e o vulgar. Mas isso não faz dela linguagem, pelo contrário. A dança é pré-adâmica

  2. Maravilhoso artigo. Quando as palavras são expressadas de forma simples elas conseguem traduzir melhor a dança. Liana, divide esses vídeos belíssimos conosco no Facebook. Bjsss

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