Bailarina Isabella Boylston- Principal Dancer do American Ballet Theater Foto: Gene Schiavone

O assunto hoje é complexo: instrumento de execução, objeto de apreciação e o mais eficiente e autêntico meio de comunicação do artista: O CORPO.

O maestro Gustavo Dudamel, regendo a Orquestra Sinfônica da Venezuela
O maestro Gustavo Dudamel, regendo a Orquestra Sinfônica da Venezuela

Palco de criação desde as primeiras representações artísticas construídas na história da humanidade, o corpo está no centro do fenômeno das artes, tanto do ponto de vista de sua produção quanto o de sua recepção. As mãos do maestro, os olhos do fotógrafo, a voz do cantor, os ouvidos do público. O corpo é inerente à existência da arte.

Na história da civilização, antes do homem procurar se expressar através da palavra articulada ou escrita, ele criou com o corpo padrões rítmicos de movimentos, ao mesmo tempo em que desenvolvia uma relação com outros corpos e o espaço ao seu redor. Já na Idade Média, a representação do corpo foi construída pela igreja. Pregava-se ser este, a prisão da alma. Não obstante, castigos eram infligidos aos corpos como uma ação sobre a alma.  O domínio religioso da época foi decisivo na imposição desta visão dualista entre corpo e alma.

Davi, de Michelangelo
Davi, de Michelangelo

A era Moderna chegou e trouxe com ela o renascimento da arte clássica, grega e romana. O enaltecimento do corpo e suas proporções,  a busca pela beleza e as leis da perspectiva voltaram a tona. A arte deixa de ser mero instrumento para contar as histórias sagradas da Igreja e passa a propiciar uma reflexão sobre o mundo visível. Surge Michelangelo, que expressa o mistério da criação esculpindo e pintando belos corpos nus. Leonardo da Vinci alia a arte e a ciência investigando os mistérios do corpo humano, dissecando cadáveres na tentativa de descobrir a origem da vida e retratando através de desenhos seus ossos, músculos e órgãos, profanando assim as ordens religiosas.

O homem chega ao século XX trazendo um enorme progresso nas ciências naturais e no estudo do corpo. Capaz das mais infinitas criações, ele conquista o poder de modificar as leis da natureza e de seu próprio organismo, utilizando as descobertas da genética a partir da manipulação das sequencias de DNA.  No campo artístico, o progresso e as inovações tecnológicas também suscitaram mudanças. A criação nas artes não se limitou mais aos usos dos instrumentos tradicionais como a tela, o pincel e a moldura. Pollock, por exemplo, utilizou o próprio corpo como pincel para criar na tela, em nome da total liberdade de criação.

 

Pollock
Pollock

 

gadgets
Gadgets, extensões do corpo na atualidade

 

Atualmente, a tecnologia se apoderou da vida cotidiana e as pessoas se acostumaram a viver na dependência dos chamados gadgets, que se tornaram verdadeiras extensões dos corpos. A mídia tornou-se a potência reguladora da vida e o homem, um consumidor passivo de imagens e notícias incessantes. Por um lado, esse progresso facilita o trabalho humano, mas por outro, o corpo padece. O corpo que foi criado pela natureza para ser utilizado e movimentado em sua máxima potência, tornou-se, na atualidade, subutilizado e sedentário, acarretando em doenças das mais diversas.

 

Somente com essa breve linha do tempo sobre o corpo, já podemos perceber que este é um suporte de identidades e uma matriz de significados. Cada época constrói sua representação de corpo em virtude de questões que atravessam a existência do humano e seus valores culturais. Logo, as atitudes corporais não devem ser compreendidas como atos individuais e sim, como representações de uma sociedade. O corpo é o primeiro e o mais autêntico instrumento do homem, com o qual ele habita o mundo e a ele pertence,  além de ser também um fato social, passível de ser interpretado de diferentes modos, de acordo com o grupo social no qual esteja inserido.

Essa multiplicidade relativa à interpretação que se dá ao corpo nas mais diferentes épocas da história, é importante para reconhecer que “o fenômeno do corpo é o fenômeno mais rico, mais claro, mais compreensível: deve ser posto em primazia, sem que descubramos seu significado último” (Nietzsche, 2008)[1].

Quanto às artes cênicas (o teatro, a performance e a dança especialmente), elas exigem o corpo por inteiro, em funcionamento harmônico da cabeça aos pés, da musculatura às articulações. São o próprio corpo em si. Mas sobre elas, falaremos no próximo texto. Porém desde já, levanto uma questão:

O corpo do artista… que corpo é esse que se empresta e se entrega ao mundo para ressignificar a vida?

Bailarina Isabella Boylston- Principal Dancer do American Ballet Theater Foto: Gene Schiavone
Bailarina Isabella Boylston – Principal Dancer do American Ballet Theater
Foto: Gene Schiavone

 


[1] NIETZSCHE, Friedrich. A vontade de poder. Rio de Janeiro:Contraponto,2008.

Liana Vasconcelos
Bailarina formada pela Escola Estadual de Dança Maria Olenewa (Fundação Theatro Municipal do Rio de Janeiro) e pela Royal Academy of Dance, de Londres. Conta em seu currículo com diversas premiações em concursos nacionais e internacionais. Ganhou, em 2009, o prêmio de melhor bailarina no Seminário de Dança de Brasília e foi agraciada com uma bolsa de estudos para o Conservatório de Dança de Viena. Pertenceu à Cia. Jovem de Ballet do Rio de Janeiro, São Paulo Companhia de Dança e se apresenta como bailarina convidada em diversos festivais de dança no Brasil. É Bacharel em Produção Cultural pela Universidade Federal Fluminense (UFF), com a monografia “Memória da Dança: Importância, Registro, Preservação e Legado”. Fez parte do elenco da novela “Gabriela”, da Rede Globo de televisão como bailarina/atriz. Foi contratada pela São Paulo Companhia de Dança, como Pesquisadora, para elaborar duzentos verbetes relativos à dança no Rio de Janeiro, para a enciclopédia online “Dança em Rede”, criada por esta companhia. É também colunista de dança no Blog Radar da Produção É bailarina-intérprete e produtora, junto ao diretor Thiago Saldanha e a coreógrafa Regina Miranda, do projeto “Corpo da Cidade”, uma experimentação em vídeodança que busca dialogar o corpo dançante da bailarina clássica com as transformações urbanas que a cidade do Rio de Janeiro vem sofrendo. Atualmente, é bailarina contratada do Corpo de Baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro É apaixonada pelas artes cênicas, espectadora frequente dos teatros do Rio de Janeiro, ama viajar e vive em eterna dança.

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