A respeito do discurso sobre a arte, encontramos três tipos diferentes: a crítica de arte, o achismo e o gosto. Tudo se mistura na hora que tentamos falar de arte. As ideias se tornam pessoais e, por vezes, adensam conceitos errados sobre determinado tema.

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Vamos pensar na possível situação: Um artista não tem a cor que deseja, o que ele faria? Passaria no vizinho pedindo um pouco de sal, pão e o ciano terroso que ele precisa para terminar a paisagem bucólica-maneirista de seu quadro. Será que seria essa a ação do artista? Claro que sim.

A arte tem um grande problema, como está muito próxima de todos, achamos que temos a intimidade de dar a nossa opinião como se ela encaixasse perfeitamente na história real. Assim, surgem os críticos de bar que acham qualquer coisa com discursos prolixos e inflados só para dizer que a tal obra contemporânea é daquele jeito por causa da intenção ou vontade do artista.

Como contextualiza a artista Fayga Ostrower, em seus livros sobre o processo artístico, o ‘acaso’ é o que rege toda se não a principal característica do artista ter feito aquela obra daquela maneira. Fayga defende que o processo, aqui falo do tempo que o artista gasta para estudar a sua arte unindo textos e estudos, só é definido quando o ‘acaso’ acontece.

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Com esse argumento, vamos pensar no ‘acaso’ inserido nas nossas vidas. Imagine andar na rua e cruzar com um conhecido seu ou encontrar aquela moeda dourada que faltava para completar o troco. Todos passaram por ela, mas a moeda é sua agora por que o ‘acaso’ fez com que ela chegasse até você.

Na arte é a mesma coisa.

Vamos pensar nas cores, há pouco tempo, saiu uma notícia sobre os girassóis de Van Gogh e que estes estariam “morrendo”. Em todo caso, eles estariam perdendo as suas cores originais. Tal problema acontece porque a tinta que Van Gogh comprou usa um produto químico que intensifica as cores por um determinado tempo. Porém, com os anos, elas se desgastam e se tornam opacas até chegar ao branco total.

Van Gogh tinha uma gama enorme de marcas de tintas para pintar os seus girassóis, mas ao ‘acaso’ escolheu a marca com tons mais quentes e que vão esbranquiçar suas telas até sumirem totalmente. Se não fosse pelo ‘acaso’ não veríamos que os amarelos de Van Gogh são lindos e vivos. Até porque, ele era um dos únicos que continuavam a comprar essa marca de tinta.

Fayga Ostrower diz que a solução que o artista encontra para finalmente criar a sua obra de arte só existe no momento em que pinta de maneira impulsiva e que isso não seria uma mera coincidência. Fayga ainda identifica o artista como um agenciador de ‘acasos’. Como se a atenção do artista estivesse concentrada nos pequenos detalhes que acontecem ao seu redor.

O cuidado é em perceber o seu mundo para poder capitar a essência sem deixar escapar os ‘acasos’ e exprimi-la na criação artística. Claro que a cor em determinada obra de arte sempre será um problema, opinião de crítico de bar sempre trará discursos inventados, mas o ‘acaso’ é quem é o dono de tudo o que pode ser considerado parte da criação artística.

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Por isso, devemos seguir o conselho de Fayga e prestar mais atenção aos detalhes, pois o ‘acaso’ está escondido entre eles.

 

Aldene Rocha
Nascido como um artista bastardo e um eterno aprendiz, se formou em belas artes por uma paixão de menino e seguiu levando ela até o além. Desenvolve trabalhos artísticos em diferentes mídias como vídeo, modificações em jogos eletrônicos, fotografias, instalações e intervenções urbanas. Participou de exposições coletivas e foca a sua pesquisa nas novas mídias aliada à teoria do cinema, na fotografia e na arte contemporânea. Mesmo não parecendo, curte uma praia e joga videogame nas horas vagas.

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