Hoje as pessoas podem achar um Super-Homem porradeiro muito legal e se divertir com os filmes cheios de piada da Marvel, mas daqui a pouco elas podem ficar cansadas disso. É normal o público ter uma visão redutora do gênero, o grande problema é que os produtores parecem ter assumido a mesma visão míope. Eles ignoram a diversidade de formas de trabalhar com super-heróis, e adotaram dois estilos.

O estilo Marvel. Depois do sucesso do filme do Homem-Aranha e do Homem de Ferro, com muitas piadas e ação, a Marvel passou a repetir a fórmula com Thor, Quarteto Fantástico, Guardiões da Galáxia e Vingadores (eu to juntando as produções da Fox, porque seguem a mesma linha).

A grande questão, que a Marvel não entende, é que não existe uma forma única de humor. Para fazer um filme bem-humorado, não precisa que todos os personagens façam piadinhas o tempo todo. Isso quebra a tensão, quando ela é necessária. O humor pode vir da situação, não precisa sair da boca de alguém.

Uma das minhas cenas favoritas do Homem-Aranha do Sam Raimi é quando o Homem-Aranha, depois de uma luta contra o vilão Duende Verde, volta para o apartamento para desfrutar de uma ceia com sua família, amigos e Norman Osborn — o próprio Duende Verde. É uma cena tensa e divertida, porque durante todo jantar há um clima de desconfiança e inimizade ao mesmo tempo que todos tentam ter uma boa ceia. Não é piadinha. É atuação, roteiro, enquadramento, criação de expectativa.

Essa parte é genial! Pena que não achei um gif.
Essa parte é genial! Pena que não achei um gif.

Narrativa é investimento. E a Marvel às vezes esquece isso em prol de uma piadinha rápida. São engraçadas? São. Mas é uma graça que passa rápido. É uma graça que às vezes parece uma distração para o público não perceber a incapacidade dos roteiristas de pensar em algo melhor.

O outro estilo de super-herói é o sombrio, muito popular nos trabalhos da DC. Quem lançou o modelo foi Christopher Nolan com Batman Begins, um filme realista que procurava explicar como, por que e para que Bruce Wayne cria o Batman. A trilogia deu um ar mais adulto ao mundo dos super-heróis, sendo reconhecida até mesmo em premiações. Isso é ótimo, mas houve uma interpretação errada do sucesso de Nolan.

Filme sombrio virou sinônimo de pouca cor, muita sombra e morte e violência. Sendo que morte e violência não torna uma obra necessariamente sombria e melancólica, haja vista os filmes do Tarantino.

O que torna algo sombrio e melancólico, como Nolan e seu irmão sabiam bem, é roteiro; é criar dilemas morais para o herói. O herói precisa estar em conflito não só físico, mas em conflito com ele mesmo. Ele precisa, por exemplo, no Batman: O Cavaleiro das Trevas, escolher entre salvar a mulher que ama, ou um político que pode realmente mudar a cidade para melhor.

Não há vitória em qualquer uma das escolhas, e ainda há uma pegadinha cruel do Coringa. Ele troca a localização de Kate e Harvey Dent, de forma que o Batman não vai ter nem a satisfação de pelo menos ter feito uma escolha. Ele foi manipulado duas vezes. É crueldade demais.

E aqui entra a beleza da montagem paralela de Nolan; ela nos mostra Batman na correria para fazer o resgate e depois o lugar em que Kate está presa, prestes a explodir. A gente entende pela montagem que Batman escolheu salvar Kate, e quando ele chega num prédio com uma pessoa presa, nós acreditamos que é onde Kate está. Porém, ao se aproximar, nós, junto com o Batman, percebemos que não se trata de Kate, é Harvey Dente. Nesse segundo nós entendemos a trapaça do Coringa e, para nos massacrar, Nolan corta para Kate sozinha, prestes a morrer.

ISSO é ser sombrio.

É estética aliada ao roteiro, e não recursos superficiais. É investir na cena, dar importância a ela, fazer valer. De novo, narrativa é investimento.

Mas por que Nolan fez algo incrível isso significa que temos um Batman definitivo? Não. Há outras formas de contar história, mesmo no espectro sombrio. O Batman pode ser mais sarcástico e noir, ele pode ser mais aventureiro ou mais James Bond, há muito a ser explorado.

Os quadrinhos de super-herói são ricos porque eles provam que todo personagem pode ser reinventado e há sempre uma outra maneira de contar a mesma coisa. O que importa é o autor ter uma intenção e ser coerente com ela.

Porque, sim, às vezes tudo o que o Batman precisa realmente é entrar numa boate e dançar. Então, dancemos juntos.

 

dancing

Társio Abranches
Aluno com mais estrelas douradas na classe de alfabetização da Escola Cachinhos de Ouro, também sou formado em Rádio e TV e em Produção Editorial pela UFRJ, mas não com tanto louvor. Trabalho como revisor de livros, tenho um conto publicado pela Andross Editora, já fui crítico de quadrinhos do site O Grito e vez ou outra faço uma tirinha para confirmar que desenho mal. Você vai me ver falando sem parar sobre quadrinhos e suas páginas que misturam cultura pop, arte, vanguarda, conservadorismo e tudo que couber num balão de fala. Vou mostrar o que tem de melhor e o que tem de pior no mundo do gibi, então não se preocupe se você está por fora do assunto. Acompanhando a coluna você vai entender que tem quadrinho para cada um e que nem tudo é super-herói com cueca para fora da calça. E se você curte cueca para fora da calça, tem lugar para isso aqui também.

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