Método Benesh de notação

Full Circle Moving Passages

Não, não é só a música que possui uma forma de registro em papel, a famosa partitura musical, onde a pauta e os símbolos musicais traduzem de forma escrita e palpável todos aqueles sons encantadores que escutamos quando uma orquestra se apresenta em um teatro.  Apesar de muita gente não ter conhecimento, a dança também tem a sua escrita e ela é denominada notação coreográfica.

O movimento é efêmero, uma vez realizado, evapora-se no ar e não deixa nenhum rastro como vestígio. Sem nenhum tipo de registro material, a memória da dança seria prejudicada e um enorme legado se perderia. Daí a grande importância da notação coreográfica, como forma de preservação dessa arte para as futuras gerações.

É claro que na atualidade, dispomos de outros meios de registro, como fotos e filmagens de espetáculos em DVD. Entretanto, a vantagem da notação coreográfica sobre estes dois exemplos é que ela apresenta a pura intenção do coreógrafo criador, não sofrendo intervenções interpretativas dos bailarinos executantes.  A notação coreográfica seria, até o momento, a maneira mais original de representação de uma obra de dança.

“A necessidade de registrar situações, ideias, crenças transações comerciais, medições de terras, espaços, ampliando a memória e fazendo com que as informações e dados pudessem romper o imediatismo do presente, permanecendo no tempo e circulando em outros espaços, fez com que fossem criados não só a escrita alfabética, como também, a escrita matemática, a cartografia com os mapas geográficos, as cartas de navegação com a representação celeste, as partituras musicais, entre outras formas de registro” (WILMER; CORSINO, 2006)

Laban, criador da “Labanotation”, em suas pesquisas de análise do movimento.


A dança então, apesar de ser uma arte onde corpos se expressam sem depender de palavra ou símbolo algum, precisou aderir à escrita em prol de sua memória e história.

Muitas formas diferentes de anotação de dança foram criadas, mas os dois sistemas principais usados na cultura Ocidental são Labanotation (também conhecido como Kinetography Laban) e Benesh Movement Notation.

Labanotation
Labanotation

O Labanotation é considerado o mais completo e também o mais complexo. Foi criado por Rudolf Von Laban, importante coreógrafo e teórico da dança do século XX.  A análise do Movimento neste tipo de notação é feita em quatro categorias: corpo, esforço, forma e espaço.  A notação consiste em três linhas dispostas verticalmente, que são lidas de baixo para cima e não da esquerda para a direita. Isso é vantajoso, pois qualquer coisa que aconteça do lado esquerdo do corpo pode ser escrita do lado esquerdo da pauta e igualmente com o lado direito.

 

 

 Já o Benesh Movement Notation, criada pelo inglês Rudolf Benesh e patenteada em 1955,  utiliza o pentagrama como base da notação

Método Benesh de notação
Método Benesh de notação

coreográfica, como se o bailarino fosse literalmente um instrumento musical. É uma forma de analogia entre o compasso musical e o movimento coreográfico.  Na pauta, anota-se com sinais e traços, a posição e o movimento da cabeça, dos braços e mãos e das pernas e pés. Esse tipo de notação é lido da esquerda para direita e do alto da página ao fundo.

A notação coreográfica é uma grande aliada ao mercado da dança, pois além da sua importância como fonte documental de memória, ela ainda se revela um campo fértil em relação à pesquisa, tanto no meio acadêmico quanto no meio de criação coreográfica. No Brasil, temos poucos profissionais (chamados coreólogos) especializados. Talvez seja a hora de se investir nesta formação para os nossos profissionais da dança, para que essa arte, tão intensa e diversificada em nosso país, seja escrita de forma eficaz e preservada. Porque dançada, ela já o é por natureza!

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Referências:
-WILMER, C.; CORSINO, P. O olfato e o paladar despertam a memória, fazem o pensamento ir longe entre cheiros e sabores da história individual e coletiva: Linguagem escrita e linguagem matemática: memória, registros e coletividade.

-Lígia Trindade, Ana, Pilla do Valle, Flavia. A escrita da dança: um histórico da notação do movimento; Movimento [On-line] 2007, 13 (Setembro-Dezembro) :  Disponível em:<http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=115314345012>

 


 

Liana Vasconcelos
Bailarina formada pela Escola Estadual de Dança Maria Olenewa (Fundação Theatro Municipal do Rio de Janeiro) e pela Royal Academy of Dance, de Londres. Conta em seu currículo com diversas premiações em concursos nacionais e internacionais. Ganhou, em 2009, o prêmio de melhor bailarina no Seminário de Dança de Brasília e foi agraciada com uma bolsa de estudos para o Conservatório de Dança de Viena. Pertenceu à Cia. Jovem de Ballet do Rio de Janeiro, São Paulo Companhia de Dança e se apresenta como bailarina convidada em diversos festivais de dança no Brasil. É Bacharel em Produção Cultural pela Universidade Federal Fluminense (UFF), com a monografia “Memória da Dança: Importância, Registro, Preservação e Legado”. Fez parte do elenco da novela “Gabriela”, da Rede Globo de televisão como bailarina/atriz. Foi contratada pela São Paulo Companhia de Dança, como Pesquisadora, para elaborar duzentos verbetes relativos à dança no Rio de Janeiro, para a enciclopédia online “Dança em Rede”, criada por esta companhia. É também colunista de dança no Blog Radar da Produção É bailarina-intérprete e produtora, junto ao diretor Thiago Saldanha e a coreógrafa Regina Miranda, do projeto “Corpo da Cidade”, uma experimentação em vídeodança que busca dialogar o corpo dançante da bailarina clássica com as transformações urbanas que a cidade do Rio de Janeiro vem sofrendo. Atualmente, é bailarina contratada do Corpo de Baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro É apaixonada pelas artes cênicas, espectadora frequente dos teatros do Rio de Janeiro, ama viajar e vive em eterna dança.

1 COMENTÁRIO

  1. Ótimo texto, bem interessante. Gostaria de fazer uma pergunta:
    Atualmente alguém utiliza alguma dessas técnicas, qual seria a mais utilizada?

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