1889 73,66 x 92,08 cm óleo sobre tela

Continuando pelas alturas, se em nossa última crônica me ative a pensar sobre o espetáculo visual que acontece no céu em ocasião do Réveillon, ainda nesta crônica me detenho no firmamento. Nas férias de janeiro e fevereiro, sempre foi a imagem do céu noturno que mais povoava, ou que mais povoa, meu imaginário. Durante o dia, o calor escaldante me fazia passar mais tempo dentro d’água ou querendo dentro dela estar do que qualquer outra coisa. Contudo, à noite, quando a luz se apagava, é que eu conseguia enxergar melhor as coisas, ver o mundo com olhos-de-criança.

 

O passeio pelo quintal de meus avós era guiado pelo olhar nas estrelas, pelo famoso Cruzeiro do Sul que saía dos livros da escola e povoava o céu de meu olhar. Eis que no auge de minha adolescência, um conselho de um parente “nunca deixe de olhar para o céu.” Céu. Algo misterioso. Algo que muitos estudaram e ainda estudam. Algo que nos une.

 

Estes dias li algumas coisas sobre Aby Warburg e sobre os traços que persistem ao longo da história. Algo que não sei se compreendo. Uma espécie de traço que perpassa imagens ao longo dos séculos. Fala-se de uma tal sobrevivência da imagem. Didi-Huberman pode dizer. Eu não. Contudo, se os filósofos, estudiosos ou quem mais pode falar de traço, eu prefiro a imagem completa. É neste sentido penso sobre o céu. Uma imagem que me parece sobreviver ao longo do tempo. De forma que escolho “Noite Estrelada” de Vincent Van Gogh como forma de iluminar esta crônica.

 

Desta vez, porém não quero falar de aspectos técnicos, de pinceladas rápidas, de cores assim ou assim. Também penso ser tão raso a grande e estupenda descoberta de que as estrelas por Van Gogh pintadas estão na mesma, ou quase, localização das estrelas no céu. Antes, me interessa pensar o quanto uma imagem como a do céu é capaz de afetar um homem. O quanto este homem é capaz de gravar pedaço por pedaço a memória de um instante do céu que nunca se repete, mas que sempre se renova e de alguma forma representá-la. A mim interessa pensar o quanto a representação do irrepresentável, uma visão, por assim dizer, perpassa as mais diferentes leituras.

 

Esta semana, assistindo à animação “Coraline e o Mundo Secreto”, a clara referência à “Noite Estrelada” para encerrar o filme me fez pensar que, se para Warburg alguns traços na arte atravessam gerações, para o homem, alguns assuntos, por mais esgotados que possam parecer, perpassam a curiosidade de toda a humanidade, geração pós geração.

 

O filme, pretensamente infantil, nos traz inúmeras referências ao céu, algumas delas consagradas pela arte. Poderíamos supor que se trata de um recorte, de uma leitura de outros trabalhos de arte. De colagens, de uma morte do autor como poderia Barthes nos dizer? Não há um autor? Ou quem sabe nos questionarmos como Michel Foucault – o que é um autor?

 

Neste sentido, me pergunto: quem é o autor do céu? Que é o inventor desta obra de arte, deste traço de inumanidade que perpassa as gerações das mais distintas culturas na tentativa de se localizar no mundo e de explicar a história desta vida? A quem pertence o direito de representação do céu? Neste ponto, lembro da sessão de planetário na qual estive mês passado, o último do ano passado. Nela, a planetarista teve a audácia de dizer que por uma diferença de 3000 mil anos, as constelações localizadas no céu mudam de lugar e que, por tanto, boa parte de nós não pertence ao signo que crer pertencer. E me pergunto: quem tem direito de afirmar o que era e o que é o céu?

 

Os democráticos que me desculpem, os estudiosos e os cientistas demasiadamente humanos, como diria Nietzsche, também, mas para mim esta habilidade pertence ao artista. A Vincent Van Gogh toda minha admiração por saber se chocar com seu tempo, por saber observar aquilo que todos olham, mas que nem todos enxergam. Ao artista que não se deixa embaçar pela rotina do cotidiano que torna banal o mais glorioso dos espetáculos – meu respeito, minha contemplação, minha atenção.

 

Alguém que afirma gostar de arte, que gosta de usar esta palavra como chancela para suas atuações, mas que não sabe olhar para o céu, é alguém que apenas ocupa espaço no mundo, mas que não vive. Os pragmáticos não me desculpem, mas olhar o mundo exige um pouco mais do que raciocínio lógico, enxergar o mundo exige imaginação e coração.

 

Um ótimo 2015 para quem merece!

Caroline Alciones

 

 

 

*Escrito por Caroline Alciones, mestranda do Programa de Pós-Graduação em Estudos Contemporâneos das Artes da Universidade Federal Fluminense (UFF). É bacharel e licenciada em Letras Português-Inglês pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e bacharel em Produção Cultural pela UFF, tendo sido bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) da Universidade Federal Fluminense (2012-2013), é membro do grupo de pesquisa CNPq “Arte e Democracia: produção e circulação da arte na contemporaneidade” sob orientação do Prof. Dr. Luiz Sérgio da Cruz de Oliveira. Caroline Alciones faz traduções e revisões no campo das artes, além de ter participado da curadoria das exposições Arte e Cultura indígena do povo Karajá e Genealogia Nobiliárquica do Teatro Brasileiro. Atualmente, trabalha junto ao PROJETO SOCIAL A TOCHA!

Participou da primeira equipe de colunista do TagCultural, contribuindo com seus textos sobre Artes Visuais de 07 de abril de 2014 à 09 de março de 2015.

Caroline Alciones
Caroline Alciones é mestranda do Programa de Pós-Graduação em Estudos Contemporâneos das Artes da Universidade Federal Fluminense (UFF). É bacharel e licenciada em Letras Português-Inglês pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e bacharel em Produção Cultural pela UFF, tendo sido bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) da Universidade Federal Fluminense (2012-2013), é membro do grupo de pesquisa CNPq "Arte e Democracia: produção e circulação da arte na contemporaneidade" sob orientação do Prof. Dr. Luiz Sérgio da Cruz de Oliveira. Caroline Alciones faz traduções e revisões no campo das artes, além de ter participado da curadoria das exposições Arte e Cultura indígena do povo Karajá e Genealogia Nobiliárquica do Teatro Brasileiro. Atualmente, trabalha junto ao PROJETO SOCIAL A TOCHA!

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