Kukei, akopee – Nein! 1964.

Tendo participado do Fluxus e, rapidamente mudado sua direção, o artista Joseph Beuys traçou uma carreira polêmica com inúmeras performances. Em sua constituição como artista, segue o mito tão difundido que se confunde com história real de sua vida de que, quando aviador da força área alemã, teria sido abatido na Criméia no inverno de 1943. Segundo a estória, Beuys teria sido resgatado pelos tártaros que, para mantê-lo vivo, utilizaram gordura e feltro como forma de esquentar seu corpo. Contudo, essa tão difundida estória não passa de um mito fundador da própria figura de Joseph Beuys que na verdade quando abatido teria sido resgatado e tivera a vida salva pelos próprios nazistas.

Em seu trabalho, Joseph Beuys lida com temáticas políticas e da natureza, com o feltro e a gordura. Fez inúmeras performances que tal como seu mito fundacional, podemos chamar de míticas como a celebre “Como ensinar arte a uma lebre morta”. Podemos tecer inúmeros questionamentos como: “quem seria a lebre morta?”; “Sou uma lebre morta?”; “A instituição é uma lebre morta?”; “Quem possui autonomia de afirmar poder ensinar arte?”; “Como se ensina arte?”; “A quem se ensina arte?”; “Quem quer aprender arte?”; “Quem tem o poder de ensinar arte?”.

É curioso pensar que uma arte que se propõe tão politizada no viés de Beuys esteja dentro do espaço museológico. Talvez não esteja mesmo. Os fragmentos das performances estão lá, como se objetos, vídeos, fotos e desenhos pudessem dar conta do que foram as performances de Beuys. Neste sentido, não entendo que esse seja um movimento puramente e exclusivamente da instituição museológica que, em uma tarefa de pesquisa, tivesse coletado esses vestígios para expor. Antes, o artista alemão reproduziu múltiplos de seus objetos, roupas e aparatos utilizados durante os trabalhos para que os mesmos atingissem espaços de exibição não sem a mítica chancela da “democratização da arte” que dá a possibilidade de pessoas de várias partes do mundo entrarem em contato com um ou o trabalho de arte. Contudo, esse caráter dito democrático não se faz sem a contrapartida financeira e da visibilidade do próprio artista ao redor do mundo.

A questão não é desvalorizar o trabalho do artista, sem reconhecer que a necessidade de recursos financeiros para sobreviver e outras questões neste sentido. A questão é entender o mito que se constrói em torno da arte e até onde vai a ética do artista em manipular essas questões para ter seu trabalho difundido, visto, reconhecido, exposto, ou mesmo exibido. Jeseph Beuys, professor universitário expulso da instituição, encontrara outro ambiente para viver.

O autor Jan Verwoert percebeu esse movimento, questionando a suposta autoridade de Beuys em lidar com as questões com as quais ele lidou. Para além de um mito de construção da figura do artista, a estória contada por Beuys é, no entender de Verwoert, uma forma de Beuys trocar seu papel de perpetrador à vítima. A questão que se apresenta é – isso o autorizaria a ensinar arte a uma lebre morta? Talvez sim, talvez essa arte dialogue e faça sentido somente para as lebres mortas. Talvez não, talvez nem as lebres mortas compreendam. Talvez seja necessário um coiote. Talvez o coiote goste desse tipo de trabalho.

Em “I Like America and America Likes Me” ao ser carregado do avião à galeria de arte em uma maca, não permitindo que seus pés tocassem o solo norte-americano, Beuys passa alguns dias em uma jaula (ou seria uma vitrine?) com um coiote, envolto em um cobertor de feltro, com sua bengala e, dia após dia, terminado o expediente, o artista se recolhia no conforto que a América lhe proporcionava. Como não gostar da América e de seus recursos? Como ter uma arte politizada e aceita pelo sistema que essa arte supostamente colocaria em questão? Como ser um artista democrático nestes termos? Como ser um artista?

Na verdade, até para a última questão, Beuys tinha uma resposta apressada e eficaz que muitos gostam de repetir – “Todo homem é um artista”. É mesmo? De outra forma o artista apresentou sua generosidade, ao permitir que qualquer um possa se investir do glamour de se apresentar, de se sentir um artista. A pergunta com a qual me despeço é – quem outorgou a Joseph Beuys o poder de estabelecer quem é ou não artista?

Caroline Alciones
Antes que o mundial se inicie

 

 

*Escrito por Caroline Alciones, mestranda do Programa de Pós-Graduação em Estudos Contemporâneos das Artes da Universidade Federal Fluminense (UFF). É bacharel e licenciada em Letras Português-Inglês pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e bacharel em Produção Cultural pela UFF, tendo sido bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) da Universidade Federal Fluminense (2012-2013), é membro do grupo de pesquisa CNPq “Arte e Democracia: produção e circulação da arte na contemporaneidade” sob orientação do Prof. Dr. Luiz Sérgio da Cruz de Oliveira. Caroline Alciones faz traduções e revisões no campo das artes, além de ter participado da curadoria das exposições Arte e Cultura indígena do povo Karajá e Genealogia Nobiliárquica do Teatro Brasileiro. Atualmente, trabalha junto ao PROJETO SOCIAL A TOCHA!

Participou da primeira equipe de colunista do TagCultural, contribuindo com seus textos sobre Artes Visuais de 07 de abril de 2014 à 09 de março de 2015.

Caroline Alciones
Caroline Alciones é mestranda do Programa de Pós-Graduação em Estudos Contemporâneos das Artes da Universidade Federal Fluminense (UFF). É bacharel e licenciada em Letras Português-Inglês pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e bacharel em Produção Cultural pela UFF, tendo sido bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) da Universidade Federal Fluminense (2012-2013), é membro do grupo de pesquisa CNPq "Arte e Democracia: produção e circulação da arte na contemporaneidade" sob orientação do Prof. Dr. Luiz Sérgio da Cruz de Oliveira. Caroline Alciones faz traduções e revisões no campo das artes, além de ter participado da curadoria das exposições Arte e Cultura indígena do povo Karajá e Genealogia Nobiliárquica do Teatro Brasileiro. Atualmente, trabalha junto ao PROJETO SOCIAL A TOCHA!

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