Quando os e-books entraram no mercado, previsões apocalípticas sobre o futuro do livro impresso e das editoras surgiram e durante muito tempo não se falou em outra coisa. O livro em seu formato digital potencializaria a pirataria, as editoras iriam à falência, as livrarias fechariam as portas, a autopublicação faria o trabalho do editor entrar em extinção.

Felizmente, os apocalípticos deram com a cara no chão. Apesar de o mercado editorial americano ter entrado num impasse quando a Amazon adotou a postura agressiva de venda de e-books a preço unificado, levando algumas livrarias a fecharem as portas, o que se viu foi um novo ramo para as editoras. Além disso, a autopublicação fortaleceu o mercado: o que faz sucesso na internet é logo comprado por alguma editora e logo se torna fenômeno. Cinquenta tons de cinza é um dos exemplos mais bem sucedidos.

Se as grandes editoras estavam ameaçadas de extinção, o fim das editoras independentes era tão certo quanto um especial do Roberto Carlos no final do ano. Mas elas resistiram. Não só ficaram de pé como também se multiplicaram e algumas pequenas se tornaram não tão pequenas assim.

Algumas considerações sobre isso são fáceis de se fazer. Mesmo com a possibilidade de se publicar sem intermediários, o autor quer ver seu livro físico, bem-acabado. Sites que oferecem esse serviço e impressão por demanda, como o http://www.clubedeautores.com.br/, não garantem uma boa edição no sentido literal do termo: não há copidesque, não há revisão, não há parecer crítico.

As editoras não são apenas grupos empresariais sedentas por dinheiro que vendem livros; nelas, o texto é aprimorado e o editor conversa com o autor sobre a clareza de determinado trecho, orienta o ritmo da narrativa, determina meios de divulgação, etc.

É nesse ponto que se encontra o problema do autor brasileiro, ainda mais o estreante: em um mercado dominado por livros estrangeiros e empresas familiares, que mal consome tiragens médias de cinco mil livros, como conseguir ser publicado?

O baixo consumo de livros pelo brasileiro (que, ainda bem, vem melhorando a cada dia) faz com que esse seja um ramo pouco ousado. Até os livros estrangeiros chegam aqui com anos de atraso, e mesmo assim só após ganhar algum prêmio lá fora ou sair em alguma lista do The New York Times.

Cansados com esse panorama, muitos jovens empreendedores resolveram fundar seu próprio negócio e editar autores estreantes. É o caso, por exemplo, da Patuá (http://www.editorapatua.com.br/) , de São Paulo. O dono, Eduardo Lacerda, abriu seu negócio com apenas cinco mil reais e faz tiragens médias de 150 exemplares. Sua linha editorial é guiada por autores iniciantes, com pouco ou nenhum público. A carioca  (http://www.abolhaeditora.com.br/) é ainda mais ousada: vende obras publicadas também de pequenas editoras estrangeiras, com alto grau de experimentação de linguagem, muitas vezes transitando entre a literatura escrita e a HQ. Grande parte de seu catálogo é formada por artistas plásticos. Há também muitos casos de editoras cujos donos querem apenas se autopublicar.

Esses empreendedores, ao contrário de Tom Hanks no primeiro filme que lhe garantiu uma indicação ao Oscar, não querem ser grandes. As editoras independentes são pequenas e querem continuar sendo, afinal, é isso que garante independência editorial e a capacidade de atender determinados nichos. Mas não se engane quem pensa que a vida de editor independente é tranquila. Mesmo atuando regionalmente e com tiragens pequenas, há um grande impasse para quem quer publicar livro no Brasil, a venda.

As grandes livrarias valem-se de seu tamanho para vender em sistema de consignação. A editora deixa uma quantidade determinada de livros com o livreiro, que só paga por aquilo que conseguir vender. Além disso, algo que é completamente inviável para quem quer se iniciar no ramo com tiragens pequenas, há a barreira do custo da distribuição, que às vezes pode chegar até a 40% do preço do produto.

Diante desse quadro, não é incomum que muitas dessas editoras funcionem no mesmo recinto que uma livraria. Inclusive, em São Paulo, há uma destinada só a editoras independentes, a Livraria de Microeditoras. Outra tática muito usada é a venda pela internet, com envios por PAC e Sedex.

Os jovens empreendedores aprenderam que a união, de fato, faz a força. Em busca de visibilidade em exposições e feiras internacionais, como a de Frankfurt, as editoras independentes criaram a Libre, Liga Brasileira de Editores de Livros. Com isso, chegam até mesmo a financiar o custo das viagens para os eventos literários.

Num mercado com poucas opções de livros e apenas algumas gigantes controlando o que se publica – a união entre a Companhia das Letras e a Objetiva só reforça esse cenário –, o surgimento das editoras independente tende a aumentar. Com maior acesso ao consumo, a população brasileira demanda mais pluralidade literária, e hoje já se pode até falar de nichos literários. Portanto, se você pensa em entrar no mercado editorial, que tal pensar em abrir o seu próprio negócio? O momento não poderia ser melhor.

*Escrito por Yago Barbosa – Fã de literatura desde pequeno, obcecado por ciências sociais e cognitivas, amante de fotografia e design gráfico, Yago Barbosa transita entre a multidisciplinaridade e um interesse genuíno de entender como os meios de comunicação operam e quais são as consequências de um mundo midiático. Estudante de Comunicação Social, na Escola de Comunicação da UFRJ, se especializando em Produção Editorial, em sua breve história como gente grande já atuou como designer em uma grande empresa de logística; participou de projetos de iniciação científica; na organização do Seminário Internacional de Fotografia e Experiência, em 2012 no Centro Cultural da Justiça Federal; e atualmente é estagiário de Ficção Estrangeira no Grupo Editorial Record, o maior conglomerado editorial da América Latina. Espantado com os poucos sites e materiais publicados no país sobre o mercado editorial, pretende compartilhar dados, informações e tendências do mercado de forma crítica e acessível.

Participou da primeira equipe de colunista do TagCultural, contribuindo com seus textos sobre Literatura de 02 de abril à 02 de agosto de 2014.

Yago Barbosa
Fã de literatura desde pequeno, obcecado por ciências sociais e cognitivas, amante de fotografia e design gráfico, Yago Barbosa transita entre a multidisciplinaridade e um interesse genuíno de entender como os meios de comunicação operam e quais são as consequências de um mundo midiático. Estudante de Comunicação Social, na Escola de Comunicação da UFRJ, se especializando em Produção Editorial, em sua breve história como gente grande já atuou como designer em uma grande empresa de logística; participou de projetos de iniciação científica; na organização do Seminário Internacional de Fotografia e Experiência, em 2012 no Centro Cultural da Justiça Federal; e atualmente é estagiário de Ficção Estrangeira no Grupo Editorial Record, o maior conglomerado editorial da América Latina. Espantado com os poucos sites e materiais publicados no país sobre o mercado editorial, pretende compartilhar dados, informações e tendências do mercado de forma crítica e acessível.

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