Eu odeio carnaval por razões pessoais, mas eu amo o carnaval enquanto manifestação cultural. Do agitado Carnaval de Rua gosto de como os cidadãos se apropriam dos locais, das vias e praças, no sentido de ocupação e não de farofada, a liberdade de como utilizar o espaço público de forma muito característica durante esse período. Não só pelos blocos, sinto como se o povo realmente tomasse a cidade pra si. Talvez até demais. Já com relação às Escolas de Samba, onde quero refletir um pouco mais, existe a imponência e internacionalização da cultura popular brasileira.

As agremiações de bairro, que viriam a se tornar Escolas de Samba, começaram na década de 30 como manifestação popular no Rio de Janeiro e o que hoje são mega desfiles, antes eram cortejos de rua. Atualmente, o Carnaval e principalmente, o desfile das Escolas de Samba, é considerado a maior atração turística do país.

Nos enredos, uma festa! Qualquer coisa vira tema e precisa-se adaptar a música e letra (a literatura) ao visual. Uma combinação de artes visuais, música, dança, criatividade, trabalho manual, artesanato e tecnologia. É inegavelmente uma apresentação rica em sua manifestação cultural. Em conjunto, a participação do povo, o envolvimento das comunidades do entorno. Como não torcer pela sua escola favorita? Toda escola de samba possui o G.R.E.S (Grêmio Recreativo Escola de Samba) antes do nome, o G e o R traduzem a responsabilidade da Escola não apenas de montar os desfiles, mas de oferecer atividades aos moradores da região durante o ano. Soma-se à isso o gostinho da competição: ser a melhor, preencher os critérios, passar pelo rigor da avaliação dos jurados e evitar as penalidades tornam o trabalho particularmente desafiador pra quem faz. O estímulo final do investimento.

Em 1984 foi formada a Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Liesa), contendo as 10 principais escolas da época, uma grande contribuição para formar o “maior espetáculo da terra”. Antes da Liesa, as escolas de samba queriam investir mais nos desfiles, mas ficavam muito presas aos interesses da prefeitura. Com a Liesa, pode-se buscar melhorias na qualidade das apresentações, principalmente através da regulamentação das mesmas e na representatividade das Escolas de Samba junto ao governo, sua principal atividade. No mesmo ano, foi criado o sambódromo, Marquês de Sapucaí.

O Carnaval trouxe, em 2014, 920 mil turistas ao Rio de Janeiro, que movimentaram US$ 734 milhões de dólares no período. Como comparação, a noite de Ano Novo, o segundo período com maior número de turistas no Rio, trouxe 816 mil turistas no mesmo ano, com aporte financeiro de US$ 653 milhões de dólares. Para o atual Carnaval são esperados 977 mil turistas na cidade e a movimentação econômica de US$ 782 milhões de dólares. Transformamos o Carnaval em uma grande empresa, será que perdemos a identidade da manifestação cultural nas Escolas de Samba? Será que isso de alguma forma está relacionado ao fortalecimento dos blocos de rua?

A produção do desfile de uma escola de samba custa em torno de 7 milhões de reais. Então de onde vem a verba para o carnaval? O governo fornece aproximadamente 1 milhão de reais para cada escola de samba, com algumas variações entre a primeira colocada e a última no Grupo Especial. Além disso, é possível arrecadar fundos com os ensaios na quadra da escola, mensalidade de associados, venda de fantasias (uma fantasia de destaque – em cima do carro alegórico – pode custar em torno de R$ 15 mil Reais), patrocínio (inclusive de enredos) e participação na venda dos ingressos do desfile (adquirida apenas em 1986) e no contrato de transmissão do mesmo nos meios de comunicação.

Para ter uma ideia, em 2007 foram faturados 40 milhões de reais com a venda de ingressos. Este ano, fazendo a conta apenas dos camarotes, no qual o mais barato custa 31 mil reais e o mais caro, 120 mil reais, pode-se faturar aproximadamente 24 milhões (R$ 23.796.000,00 pra ser exato). No regulamento do Carnaval redigido e disponibilizado pela Liesa, consta apenas a quantidade de repasse dos ingressos arrecadados com o Desfile das Campeãs: da venda de arquibancadas, cadeiras e frisas, 5% são destinados à Liesa, 60% do restante destinado a distribuição igualitária entre as campeãs e os 40% dividido por cotas entre as mesmas e a ganhadora do Grupo de Acesso. Infelizmente, não há muitas informações sobre as “contas” do Carnaval, que pela sua dimensão e interesse público, eu acredito que deveria ser transparente. Pra mim fica a última pergunta do ‘Jogo do milhão’: qual o prêmio da escola campeã? Só um troféu e um título? Nem o regulamento conta.

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Ps. 1) Para ler: http://www.forumnacional.org.br/pub/ep/EP0431.pdf

Ps. 2) Sacada de gênio do verão carioca, combo: cultura da cidade + produto + marca: picolé de mate com limão da Farm em parceria com a Kibon. Pena que não tem gosto nem de mate, nem de limão.

Juliana Turano
Bacharel em Produção Cultural pela Universidade Federal Fluminense e pós-graduada em Gestão Empresarial e Marketing pela ESPM. Idealizadora e gestora do site TagCultural e projetos derivados, trabalhou como produtora de importantes empresas como Grupo Editorial Record, Espaço Cultural Escola Sesc e Rock in Rio, nas edições de Lisboa 2012 e Brasil 2013. Megalomaníaca, criativa, entusiasta da música e do ballet clássico, não perde um espetáculo de dança do Theatro Municipal do Rio de Janeiro ou um festival de música legal. Adora viajar e aproveita suas viagens para assistir espetáculos de importantes companhias como do Royal Opera House e New York City Ballet. Também aproveita para comparar o desenvolvimento cultural de outros países com o do Brasil e sonha que seu país se desenvolva mais nesse campo.

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