Como podemos começar? Que tal assim: estamos nós dois, eu e você (mas principalmente eu), caminhando rua abaixo em uma noite semi-movimentada de terça-feira. A hora do rush já passou, a happy hour está para começar, e ambos escolhemos um daqueles agradáveis estabelecimentos com luzes amareladas e cerveja importada para passar umas boas horas falando besteira. Não é sexta, discutivelmente o melhor dia para um programa como o nosso, mas terça. É quase o começo da semana! Foi o que você disse para tentar me convencer de que sair hoje não seria lá aquelas coisas. Mas eu insisti, insisti e insisti até que você desistisse. Afinal, terças são cansativas também, e você não precisa acordar tão cedo amanhã.

Separados por uma mesa quadrada com estampa de cerveja, eu começo a te contar aquela velha ladainha sobre noites anteriores e sobre o fim de semana, que ainda não tive a oportunidade de te explicar. É tudo bem simples, sabe? Eu estava nessa festa, aquela para a qual eu te convidei, mas que você recusou, com um par de amigos quando fui abordado por esses dois caras. Cada um tinha quase dois metros, e não pareciam muito satisfeitos comigo. Já explico: eu devia um dinheirinho pra eles. Nada tão grande, mas o suficiente para que eles se lembrassem de mim de outros carnavais.

Foi quando eu tive que fazer o impensável, eu te conto: mesmo na frente dos meus amigos: acertei os dois com meu raio da morte e saí correndo, para meu covil, agora que minha identidade secreta havia sido revelada.

Sim. Eu sei que você não acredita em mim, mas não posso fazer nada, não é?

Você deve saber que o que lemos são mentiras. Mentiras bem contadas, desenvolvidas e enlaçadas para que possamos acreditar nela. É como um contrato não-verbal, estipulado a partir do momento em que abrimos a capa de papel-cartão e visualizamos as primeiras palavras em preto impressas sobre o papel. Estamos, por aqueles minutos, horas, dias e semanas, dispostos a acreditar em algo que sabemos não ser verdade, mas cuja natureza irreal estamos dispostos a esquecer pela duração da experiência.

Afinal, como seria possível aproveitar essas experiências de outra forma? Sem a sua vontade de acreditar, como se imergir na história, aproveitar os personagens, usufruir dos tempos bons (ou maus) de uma narrativa posta à sua frente? É o que chamam, em inglês, da willing suspension of disbelief (traduzido aqui como a suspensão voluntária de descrença ou descrédito), ou seja, o esforço que você pode fazer para não ficar procurando desacreditar nas histórias à frente, sabendo de sua natureza ficcional. Há um bom post (em inglês) sobre o fenômeno aqui.

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É claro que existem níveis diferentes dessa suspensão que podem ser invocados ou que precisam ser invocados pelo leitor para que aproveite a obra. Preciso de muito menos esforço para tomar como verdadeira a história de um sobrevivente da Segunda Guerra Mundial, geralmente, do que para fazê-lo com uma saga épica em outras galáxias. Digo “geralmente” porque, independente dessas ambientações, do gênero e da escala da história, há pequenos elementos em cada narrativa que podem matar essa suspensão rápido, removê-lo da imersão da narrativa e te jogar direto para o mundo real: estes pequenos elementos inverossímeis que se encaixam e saltam aos olhos, que te fazem perguntar “ué, mas por que alguém em sã consciência faria isso?”, ou “isso é muito esquisito para ser verdade”.

Faz tudo parte de uma coerência interna: a partir do momento em que estamos em um mundo fantástico, aceitamos as coisas fantásticas. Se a história se propõe a ser realista e depois joga uma bruxa no meio, estranharemos. A suspensão de nosso descrédito havia sido evocada até certo ponto, e agora as regras do jogo mudaram. Dá para se adaptar, e inclusive a surpresa pode causar uma reviravolta que cai muito bem à história, mas há boas chances de resultar em desastre.

Infelizmente você não acreditaria em mim se eu dissesse que eu tinha um raio da morte e um covil. E o que posso fazer em relação a isso, se até agora eu parecia contar um causo da noite urbana?

Tudo bem. Mas, sabe, mentiras narrativas podem se tornar mais metatextuais do que parecem. E quando, por exemplo, você, leitor, não sabe se acredita ou não no narrador no próprio âmbito da história? A história é ficção, mas mesmo assim, o narrador parece estar mexendo uns pauzinhos, alguns elementos de enredo lhe levam a acreditar que ele está mentindo em seu relato, uma ficção dentro da ficção?

ellisnew_custom-4384b2b49fb1e1f10dcb0230ce83f18991017650-s6-c30Acontece quando, por exemplo, temos dois pontos de vista diferentes dentro da história que chegam a se contradizer. O livro de Keith Donohue, por exemplo, A criança roubada (muito bom, por sinal), intercala capítulos de dois personagens antagônicos que, pela própria concepção que um tem do outro, acabam exagerando ou demonizando as ações do outro personagem quando acontecem coisas completamente justificáveis. Um acidente para um torna-se um ato de vilania para o outro.

Há um grande jogo dessa questão dos pontos de vista no qual somente o leitor tem o foro privilegiado para distinguir a verdade da mentira, mesmo tudo não passando de ficção. E se cada personagem opta por limpar sua barra, por se ver como o bem-intencionado, podemos realmente julgá-los? Que atire a primeira pedra, afinal, quem nunca passou por um mal-entendido, ou mesmo embelezou um pouco uma história para que se representar sob uma luz mais favorável?

Mas e quando a má-interpretação da narrativa torna-se de fato uma possível mentira ou fantasia do personagem? O livro O psicopata americano de Bret Easton Ellis chega a um ponto em que, de tão egocêntrico e psicologicamente instável, possivelmente alucinante, e não sabemos mais dizer o que em sua narrativa de primeira pessoa acontece de verdade, o que é apenas invenção do personagem, ou mesmo uma completa alucinação de suas encenações.

Mentiras, enganos, confusões…

Mas se sabemos, se aceitamos, ora, a mentira na ficção pode deixar todo o jogo um pouco mais interessante. Não posso te pedir para acreditar que eu vaporizei dois caras réguas maiores que eu com um raio da morte, porque a verossimilhança ainda assim nos puxará de volta para o mundo real. Mas precisarei de um pouco de sua suspensão voluntária de uma descrença, pedir para que você não seja assim tão cético, para que você possa aproveitar melhor uma história que eu tenha para contar. Podemos começar de novo, com alguns toques de magia, com um mundo a grandes distâncias, e poderemos contar algumas coisas… talvez um pouco exageradas. Mas se formos cuidados nessa dosagem, será que vamos perceber?

Afinal, não é tudo só mais uma história?

Bruno Alves
Paulistano de nascimento, jundiaiense de coração e carioca honorário. Formando em Comunicação Social (Produção Editorial) na Universidade Federal do Rio de Janeiro, é assistente editorial na Bertrand Brasil e leitor de gosto eclético: ama literaturas contemporâneas e ficções de gênero em igual medida. Eventualmente tenta a mão na ficção, com resultados aqui e ali.

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