Alô você, alô Brasil! Chegando! É você mesmo!” Começamos com essa profunda e enigmática frase de um Vanucci visivelmente alterado pra falar de uma das características mais intrigantes e super utilizadas da música: o poder de alterar o estado mental do ouvinte! É claro que ele precisou de algo um pouquinho mais forte que escutar o Sgt. Pepper’s pra ficar desse jeito, mas você entendeu a relação, certo? Imagina se ele tivesse testemunhado o 7 x 1, coitado!

Mas sério, você com toda certeza sabe do que eu tô falando quando me refiro a estado mental alterado por música, né? Vai dizer que quando ouve aquela música super maneira que você adora não rola uma vontade de pular, gritar, sair correndo, dançar etc? Pois é, essa sensação é familiar pra todo mundo desde sempre porque a gente percebeu a existência desse fenômeno há milhares e milhares de anos, lá na antiguidade mesmo, e começou a usá-lo com funções bem definidas pra obter diferentes resultados. Os gregos antigos, por exemplo, eram um povo bastante esclarecido, você sabe, e usavam diversos tipos de música para “impulsionar” determinadas atividades; desde orgias até guerras.

Bom, música pra orgia? Até que vai, né? Não é difícil imaginar que uma trilha sonora adequada ajude bastante na execução dessa atividade. Alguma coisa que deixasse os envolvidos mais desinibidos e receptivos, porque vinho infinito e pessoas peladas transando aparentemente não eram incentivo suficiente! Mas sim, música pra orgia é perfeitamente compreensível! Dá uma ouvida nesse hino a Dionísio/Baco:

 

 

Não faz todo o sentido?

E música pra guerra, faz sentido também? Ah, claro que faz! Imagina, por mais que os soldados fossem pra batalha querendo defender seu país e suas famílias, ninguém segura essa convicção por muito tempo quando começa a ver gente matando e morrendo pela frente. É nessa hora que um tamborzão tocado do jeito certo faz o sangue do coitado do soldado amedrontado ferver e o joga cegamente no meio da carnificina! Olha a música sendo usada para o bem aí! É uma ideia realmente um pouco extrema, mas aqueles eram tempos extremos, você sabe. O caso é que até hoje esse conceito é aplicado pra diversos fins menos violentos, e eu queria começar a conversa sobre contemporaneidade com uma imagem que está rolando com bastante frequência essa semana com a estreia do Mad Max:

 

 

Pode clicar sem medo que não tem spoiler! É só a música tema do Doof Warrior:

Um maluco tocando uma guitarra-lança-chamas num carro gigante com dezenas de caixas de som em um veículo em movimento durante uma perseguição/batalha no deserto. Essa é a coisa mais desenfreada já criada na história da humanidade, sério. O mais louco é que ela é calcada na realidade! O Doof Warrior não tá fazendo nada de diferente dos seus antepassados gregos pré-apocalípticos que tentavam controlar as emoções da tropa com música. Nada além da utilização da música pra criar um estado de espírito necessário no momento.

 

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“Esse solo me faz querer te matar, cara!”

 

Hoje em dia o exemplo mais próximo que temos disso acontece no esporte. Se você se lembra, há alguns anos aquele nadador Michael Phelps ficou famoso porque venceu lá uma cacetada de provas de natação, e o cara sempre entrava no ginásio com uns fones de ouvido grandões. A música que ele escutava exatamente eu não sei, mas com certeza não era “What a wonderful world”, se é que você me entende. Se considerarmos uma competição esportiva profissional como uma batalha (o que não deixa de ser, né?), teremos uma ressignificação da prática de manipulação sonora de emoções humanas. O atleta chega pra competir pilhadaço e nenhum teste anti-doping no mundo vai conseguir pegar nada!

Agora, por que e como a música faz isso? Ninguém tem certeza ainda, mas a verdade é que ela faz. Muitos neurologistas estudam a relação entre o nosso cérebro e a música ou os efeitos que esta tem sobre aquele e já chegaram a questões bastante interessantes, mas nada conclusivo. Alguns defendem a teoria do condicionamento: que determinada música tocada várias vezes dentro de um contexto passa a reproduzir o padrão emocional observado nele. Outros acreditam que seja um fenômeno puramente cultural, o que explicaria por que os tambores de um exército da antiguidade não necessariamente impulsionavam o exército inimigo. O que eu acho? Acho que na realidade o que existe é uma mistura desses e milhares de outros fatores e que a música pode ser usada intencionalmente pra causar qualquer emoção, mas ela é tão subjetiva que você mesmo enquanto ouvinte é capaz de criar relações imprevisíveis com ela.

Por exemplo, por que eu conseguia quebrar todos os recordes de pontuação no Tony Hawk 3 justamente quando esta música específica começava a tocar?

 

 

A trilha desse jogo foi cuidadosamente selecionada entre artistas favoritos de skatistas, ou seja, todas as músicas tinham o objetivo de fazer você “jogar bem”. No entanto, eu sabia que por mais difícil que estivesse passar de alguma fase e que por mais que eu gostasse das outras músicas do jogo, assim que rolasse aquele ruído de microfonia dos primeiros segundos de “Not the same” eu ia magicamente começar a encaixar combo atrás de combo e multiplicar a pontuação até a casa dos milhões. Toda vez. E meu irmão tá de prova! Até hoje ainda sinto uns negócios quando escuto essa música, mas é só meu olho que enche d’água e um nó dolorido pra dedéu que aperta minha garganta.

Mas isso não vem ao caso, porque o que a gente está discutindo disfarçadamente esse tempo todo é o papel secreto da trilha sonora! Não sei se você percebeu ainda, mas acabamos de descobrir nesta conversa que ela teve origem no mundo real, quando o cinema sequer sonhava em existir! Desde que a música é música ela é usada pra controlar e conduzir nossas emoções, e na real a gente adora isso. Ficou todo mundo viciado! A trilha sonora no cinema, televisão, teatro, vídeo game e tudo mais é só uma extrapolação dessa vontade que a gente tem de sentir coisas que de outra forma seriam muito difíceis de experimentar. Quando você tá mal e quer se sentir bem, escuta Mamonas Assassinas; quando tá mal e quer se sentir pior escuta Radiohead. A gente chegou num ponto em que pode decidir que tipo de emoção quer ter hoje!

Imagina, se o soldado grego da antiguidade quisesse sentir uma emoção incontrolável épica que o fizesse enxergar todo o sentido da própria vida por poucos segundos, tinha que torcer pra cidade entrar em guerra pra ele poder ouvir o tambor da batalha uma vez antes de morrer. Enquanto você só precisa pegar a vassoura pra fazer uma faxina e botar isso aqui pra tocar, que vai sentir a mesma coisa:

 

 

Você tem muita sorte, sabia?

 

André Colares
Me chamo André Colares e sou formado em Música e Tecnologia pelo Conservatório Brasileiro de Música, no Rio de Janeiro; estudei orquestração e contraponto, bem como composição para tv e cinema. Trabalhei como arte-educador em música no setor educativo do CCBB do Rio de Janeiro e atualmente moro em São Paulo, onde curso a carreira de composição musical na Omid Academia de Áudio. Trabalho como compositor de trilhas sonoras e/ou sound designer para cinema, teatro e publicidade; mas principalmente vídeo games, que são minha maior paixão desde sempre. Musicalmente gosto de tudo e estou sempre inclinado a considerar qualquer manifestação musical como algo bom e de valor. Qualquer Manifestação Musical. Então pra mim não existe esse papo de música ruim, certo? Que bom que combinamos isso! Também sou mal-humorado, daltônico, magrelo e barbudo. Nessa ordem.

1 COMENTÁRIO

  1. As famosas “listas de…” – Lista de correr, Lista de viajar, Lista para trabalhar, Lista para os dias dos namorados…
    Diz aí qual sua lista de hoje, André! E o que tem nela?
    Além de tudo, muito obrigada por ter me feito ouvir Emílio Santiago! HAHAHA

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