O cineasta  John Cassavetes é considerado o pai do cinema independente norteamericano. Seu primeiro longa Shadows, com baixo orçamento e colaboração de amigos, tinha seu roteiro improvisado. Cassavetes não é apenas importante por ter produzido seus filmes em um molde independente, mas também por sua linguagem. Suas tramas focavam nos personagens e em suas ações interiores; através do realismo, embasado em improvisos. E é ele uma das grandes influências da cena independente estadunidense atual.

No início dos anos 2000, jovens norteamericanos iniciaram uma movimentação artística: o mumblecore. Numa tradução, seria algo como “resmungões”. Um grupo de jovens atores, diretores e roteiristas, que têm movimentado a indústria com suas produções. A linguagem se apoia no naturalismo, nas lamúrias da vida, improvisos, egocentrismo e uso de não atores. Comédias dramáticas cheias de cenas desconcertantes, à partir de dramas diários.

Em geral, os temas permeiam jovens de 20 e poucos anos, artistas, de classe média, egocêntricos, mimados e recém-formados na universidade. Términos de relacionamentos, road movies e a constante busca de se encaixar ou encontrar o lugar no mundo. Pontuados com diálogos sobre nada e imensas internalizações de ações. Além de Cassavetes, Richard Linklatter é outra influência. Nos anos 90, lançou o filme Slacker. O longa acompanha um grupo de jovens de 20 e poucos anos, preguiçosos em situações ordinárias. Daí surgiu o segundo nome deste momento do cinema: slackevettes (slackers + Cassavetes).

"Você já sentiu como estar esperando eternamente para entender seu destino, e quando você entende, não é realmente emocionante?" Jeff Who Lives at Home
“Você já sentiu como estar esperando eternamente para entender seu destino, e quando você entende, não é realmente emocionante?” Jeff Who Lives at Home

Os irmãos Duplass em 2005, estrearam com The Puffy Chair. Um road movie que acompanha dois irmãos a caminho da casa do pai com uma poltrona que seria o presente de aniversário. Discussões acerca de comprometimentos amorosos em diálogos mais que verborrágicos. O longa foi realizado em suporte digital, com equipamentos e equipe reduzidos.

Com falhas no áudio, fica perceptível a captação através do microfone da própria câmera; uma vez que em momentos, o áudio dos personagens variam de acordo com seus posicionamentos. Durante o longa vemos ajustes de foco e enquadramentos de close ups. A despretensão com o foco, imprime aos espectadores um certo “amadorismo” que parece proposital, a fim de mostrar o descomprometimento com a técnica. Dentre as distribuidoras,  Netflix. Seu orçamento foi de singelos 15 mil dólares.

Cyrus foi lançado em 2010, também pelos irmãos Duplass. Dessa vez, com um orçamento mais gordo e com uma grande companhia por trás da distribuição. O longa tem um elenco compacto, porém de nomes importantes: Catherine Keener, Marisa Tomei, John C. Reilly e Jonah Hill como personagem título. Cyrus mostra um novo rumo para o cinema independente, aquele que usa dos grandes estúdios, mas não se esquece de suas raízes.

"Eu tenho um trabalho, e depois um jantar. E depois estou ocupada, tentando me tornar quem eu sou."
“Eu tenho trabalho, e depois um jantar. E depois estou ocupada, tentando me tornar quem eu sou.” Lena Dunham em Girls

Em 2010, Lena Dunham lançou Tiny Furniture que alavancou seu nome a levando para a TV, com o seriado Girls. O longa é seu segundo na carreira, mostra a vida pós-formatura de Aura, uma videomaker. Na medida em que ela tenta se readaptar na casa de sua mãe, sai em busca de um emprego e se atira em aventuras amorosas. Dunham escalou sua mãe e irmã para interpretarem Siri e Nadine, respectivamente mãe e irmã de Aura.

Assim como The Puffy Chair, este não apresenta exímias especificidades técnicas. Em formato digital, seu orçamento beirou os 65 mil dólares. Dunham se apoia na trama é o tanto que os jovens querem dizer, e como é difícil para eles (na cabeça deles). Aura sente-se sufocada, não quer comprometer-se com a independência financeira, e é difícil para ela. No piloto do seriado Girls, os pais da protagonista Hannah, cortam sua mesada a fim de dar um impulso à filha e tirá-la de sua zona de conforto.

São 4 amigas, Nova York e muitas histórias. Os espectadores podem lembrar-se de Sex and The City, porém qualquer forma de tentar compará-las com as fashionistas lideradas por Carrie Bradshaw deve ser deixada de lado. Mesmo sendo as aventuras de 4 amigas em Nova York, não temos em Girls um desfile de moda. As meninas de Girls, não têm empregos de verdade e não conseguem sequer pagar seus aluguéis em dia.

Drinking Buddies
Drinking Buddies

Do singelo filme Creative Non-Fiction à uma série premiada de TV, Dunham é um dos exemplos de sucesso do mumblecore. No elenco de Drinking Buddies (de Joe Swamberg): Olivia Wilde, Anna Kendrick e Jake Johnson. Dois amigos, que trabalham juntos em uma fábrica de cerveja e bebem muito. Aliás vivem em ressacas. O relacionamento dos dois tem altos e baixos, mas a amizade mantém-se forte (mesmo quando é confundida). Segundo Swamberg, o filme é uma comédia romântica.

Cansado das antigas fórmulas e formas chatas, o cineasta realizou esta produção pensando em quebrar com as convenções. O longa apresenta uma estrutura diferente das comédias românticas e situações que ficam em aberto, cabendo ao espectador preencher as lacunas à partir de sua experiência cinematográfica. Mesmo sendo uma produção com grandes astros e um orçamento mais gordo que os demais do diretor, Drinking Buddies possui uma atmosfera independente visivelmente mumblecore.

"Às vezes é bom fazer o que lhe é suposto fazer, quando é suposto fazer"
“Às vezes é bom fazer o que lhe é suposto fazer, quando é suposto fazer”

Noah Baumbach é uma fonte de inspiração aos jovens resmungões. Baumbach tem no currículo produções estreladas por Jennifer Jason Leigh, Nicole Kidman, Jesse Eisenberg, Laura Linney e Ben Stiller; e já trabalhou em parceria com Wes Anderson. Ganhou notoriedade com o filme autobiográfico The Squid and the Whale, mas anda chamando atenção com seu último lançamento, Frances HaFrances é uma desajeitada bailarina de 27 anos. A trama percorre os infortúnios da vida e a falta de dinheiro, em meio ao seu otimismo; com citações confusas e realistas como: “Estou tão envergonhada, ainda não sou uma adulta” ou “Eu gosto de coisas que parecem erros”. A técnica é esquecida em prol do desenvolvimento e relações estabelecidas por Frances. Risadas constrangidas, piadas incompreendidas e situações humilhantes fazem parte da vida da heroína.

A narrativa acompanha as mudanças habitacionais da protagonista, dividindo o filme através de suas moradas. Uma protagonista real, que lida com problemas cotidianos de jovens de 20 e poucos anos e sem aqueles problemas amorosos que perduram comédias; Frances Ha é (até agora) o melhor filme da cena  mumblecore e um importante registro da juventude dos anos 2000. 

Frances Ha
Frances Ha

Começou pequeno, sem atores nem orçamento. “Uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”, como diria Glauber Rocha. Os ativistas da cena independente norteamericana fincaram-se na indústria cinematográfica excluindo-se da técnica e apoiando-se em seus personagens. O mumblecore ou slackevettes é um retrato da juventude do século XXI. Um movimento que ficou um pouco mais rico, mas não perdeu sua identidade nem  estética.

Thais Nepomuceno
Fã efusiva do cineasta Alexander Payne, cultiva um sonho cinematográfico: um dia, John Cusack aparecer na janela de seu quarto, segurando um boombox no alto, tocando "In Your Eyes" (assim como no filme "Say Anything"). Thais Nepomuceno é produtora cultural, com especialização em cinema. Durante um ano estudou produção cinematográfica na ESTC em Lisboa, onde produziu o curta-metragem “Chronos” da diretora portuguesa Joana Peralta. Antes de sua formação no exterior, Thais já havia colaborado em sites de cinema, participado de curadorias em cineclubes e estagiado na TV Brasil. Foi quando dirigiu e produziu o curta-metragem "A View To A Kill - the Director's Cut". O filme já participou de festivais universitários e exibições em cineclubes. Esta pequena produção, com custo zero, feito a partir da colaboração de seus amigos é uma grande brincadeira com os clichês do terror adolescente; auto-definido como freshy trashy movie. Atuou na coordenação de pós-produção da TV Globo e agora está realizando seu mestrado em Formatos e Conteúdos Audiovisuais, na Universitat de Valencia (Espanha). E não fale mal do Leonardo Dicaprio perto dela.

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