“Ao nos definirmos, algumas vezes dizemos que somos ingleses ou galeses ou indianos ou jamaicanos. Obviamente, ao fazer isso estamos falando de forma metafórica. Essas identidades não estão literalmente impressas nos nossos genes. Entretanto, nós efetivamente pensamos nelas como se fossem parte de nossa natureza essencial.” – Stuart Hall

Dos desdobramentos infinitos que temos dentro do que podemos entender por identidade, as identidades nacionais são dos temas que mais me chamaram a atenção, justamente por serem algo forjado, construído e que ainda assim desperta um forte e presente sentimento de pertencimento entre indivíduos que partilham da mesma nacionalidade. Foi ainda na graduação em Design de Moda que comecei a investigar o que poderíamos chamar de Identidade Nacional Brasileira.

Durante o processo da pesquisa para a conclusão do curso conheci o trabalho de Darcy Ribeiro com o seu povo do Brasil, nele eu li que ser brasileiro é ser tudo, que nossa identidade parte desse pressuposto. Ribeiro descreve no livro as matrizes que nos formaram – africana, europeia e indígena – e a quantidade de informação foi um nó na minha cabeça de designer, que buscava linhas, formas e inspirações para criar algo concreto.

Daí o desafio de entender qual seria a identidade brasileira e qual moda poderia ser considerada brasileira, já que desde antes da nossa ida Belle Époque, copiada dos salões parisienses, o que as marcas locais fazem é copiar descaradamente as coleções gringas. O que acho uma pena, pois vestir-se é um ato de identificação e um ato político e poético. Vestir uma moda importada é deixar de valer-se de símbolos e riquezas nacionais infinitas que temos: cores, ritmos e ideias. Salvo aqui raras exceções dentro do mercado e pequenas marcas que lutam e caminham nessa direção.

Com Stuart Hall, cheguei a premissa da tradição e folclore (folk– gente, povo. lore – conhecimento) como maneira de encontrar algo genuíno sobre identidade nacional. Ainda entendo que esse discurso é arriscado, pois é sabido que muitas ditaduras se valem dessa mesma fonte para revogar uma memória em comum, uma tradição e assim julgar que a segurança nacional depende da preservação dessa identidade, cometendo suas atrocidades baixo uma justificativa intelectual e teórica.

“A nação não é apenas uma entidade política, mas algo que produz sentidos – um sistema de representação cultural”  – Stuart Hall

De todas as maneiras, busquei no folclore brasileiro uma herança lúdica para criar o que eu entendia por moda brasileira. Nesse caminho esbarrei com Luiz da Câmara Cascudo que, acredito, fora das ciências humanas seja pouquíssimo conhecido. Cascudo foi o maior folclorista do Brasil, tendo escrito obras sobre os mais diversos temas. Meu professor de folclore teve um professor de folclore que foi aluno dele e… Reza a lenda que sua biblioteca parecia mesmo um mundo encantado com objetos xamânicos, 30 mil títulos, em meio a Sacis e Iaras, e sua pesquisa sobre Lobisomem (trabalho que quase valeu seu posto na Universidade do Rio Grande do Norte).

Cascudo escreveu desde o Negrinho do Pastoreio até sobre cachaça, a qual dedicou um livro inteiro. Neste universo encontrei o caminho para o que gosto de entender sobre identidade brasileira. O Brasil em que acredito tem muitas outras maneiras de se identificar, mas de todos os teóricos que li, Câmara Cascudo soube melhor colocar no papel o mistério e a magia, a ciência e o desconhecido.

Deixo aqui uma amostra do resultado dessa pesquisa. Croqui por Rochester Halfeld e estampa desenvolvida em parceria com Menta da querida Mariana Vilanova.

aplicada
Menino com saci no pote e bermuda de mico leão dourado.

 

As identidades brasileiras são múltiplas e, arrisco dizer, infinitas, e por isso acredito que sejam uma fonte riquíssima de inspiração. É um desafio treinar o olhar e perceber no dia a dia, nos ritmos, na terra o que é brasilidade, o que se caracteriza por nossa identidade nacional, mas saber usar isso com certeza produz uma moda mais coerente, mais interessante e carregada de significado. E nossas escolas de moda estão em nível de igualdade com as melhores do mundo. Um designer que acredito que resolva isso muito bem é o Ronaldo Fraga, uma super fonte de inspiração e exemplo de que se pode fazer moda brasileira e ser bem-sucedido. Ele, o sertão e o Rio São Francisco constroem peças que são obras de arte e cheias, inundadas, transbordadas de Brasil’s.

 

 

Imagem destacada: Site da prefeitura de São Paulo da exposição: Rio São Francisco navegado por Ronaldo Fraga: cultura popular, moda e história.

Annanda Galvão
Annanda Galvão Ferreira da Silva têm quase tantas profissões quanto sobrenomes: designer de moda pelo SENAI/Cetiqt, Produtora Cultural pela Universidade Federal Fluminense. Cursou Gestão Cultural na Universidade Lusófona de Lisboa e foi investigadora pelo CNPQ-Pibic na Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB) em Políticas Culturais, sendo seu artigo “A visão do Conselho Federal de Cultura sobre as artes popular e erudita” premiado na V jornada de iniciação científica da FCRB e também pela Gerência de Cultura da Escola Sesc de Ensino Médio (2012). Mestre pela Universitat de Barcelona onde cursou o mestrado “Construção e Representação de Identidades Culturais”. Atualmente é aluna do programa de doutorado em Estudios Migratorios da Universidad de Granada, onde continua estudando as migrações a luz das políticas culturais. Tendo atuado em diversas áreas da produção e gestão cultural, realizou instância de colaboração no departamento de conteúdo do teatro do governo espanhol e catalão Mercat de les Flors, tendo coordenado o projeto "Trocas - formació i dansa" de intercâmbio entre entidades espanholas e brasileiras, foi também colaboradora e palestrante do IPAM - International Performes Arts Meeting que acontece dentro do Festival Grec em Barcelona. É professora de elaboração de projetos culturais do curso de formação de agentes culturais dentro do Programa Favela Criativa da Sec-rj gestionado pelo Cieds. É idealizadora de projetos nas áreas de cinema, arquitetura e educação. Apaixonada por viagens, carimbos no passaporte, museus, livros e pessoas , é curiosa por natureza e espera mostrar um pouquinho do que têm visto mundo a fora para os leitores do TagCultural.

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