O curta-metragem documental Quem é Cézar? , realizado por um grupo de estudantes universitários; acompanha a vida do artista transmedia Cézar de Oliveira. Uma figura importante na cena artística brasileira, mostrada através de depoimentos de pessoas próximas; como o músico Marcelinho da Lua e os atores Carolina Pavaneli, Guilherme Piva e Inês Viana. Os discursos e as experiências de cada figura relacionada a Cézar  se contradiziam. Confundindo os espectadores sobre a real natureza do artista, e quem estaria falando de fato a verdade. Ao final, os espectadores se perguntavam uma coisa: Quem é Cézar?

A atriz Inês Vianna afirma que ele ganhou o tão concorrido prêmio por sua atuação em um espetáculo estrelado pelos dois; já Guilherme Piva, diz com toda certeza de que ele perdeu o tal prêmio. A mãe de Cézar, detalha a infância no exterior, a educação primorosa e suas primeiras músicas cantadas em inglês. Já o crítico musical João Paulo Cuenca, confirma que a infância de Cézar em Pernambuco contribuiu para sua identidade musical. Afinal, quem era Cézar? E por que os discursos eram tão discrepantes? Em 2010, o ator Joaquim Phoenix chocou com uma mudança repentina em sua atitude, com o anúncio que estava se aposentando da carreira de ator, e que, à partir daquele momento iria dedicar à  música.

Sua ida ao talk show de David Letterman, confundiu o próprio apresentador. Phoenix se mostrou indiferente e nada lembrava o grande ator de Two Lovers.  À partir do show, suas aparições ficaram cada vez mais confusas, a mídia e os fãs do ator já não o reconheciam mais, acreditando num possível surto. De encontro ao anúncio, foi lançado o documentário I’m Still Here, sobre essa transição. Casey Affleck acompanhou  Phoenix em entrevistas, tapetes vermelhos, shows e documentou sua vida. Phoenix é um exímio ator, tendo grandes personagens no cinema. Com o sucesso de sua performance musical no longa Walk the line, a primeira ideia era que o ator vingaria no country ou até rock… mas não, estava investindo no rap. O longa inicia com um discurso confuso, onde o ator explica o motivo da mudança: ele estava determinado a ser ele mesmo à partir daquele momento, e não mais fazer o que os outros esperam dele.

Alguns dos motivos para o choque do público foi  a aparência desgrenhada, a atitude egocêntrica e blasé adotada por Phoenix. Sua nova ou então, real atitude perante à mídia e aos fãs, causou uma certa dúvida se aquilo era mesmo real. Mais parecia uma piada. Junto a isso, a falta de talento para o rap levantou uma série de questionamentos. Sendo a principal: é realidade ou ficção? Seria possível Phoenix ser tão idiota assim? Teríamos de fato perdido um grande ator? Com o tempo as pessoas começaram a não mais acreditar na possibilidade daquele acontecimento e dos fatos narrados no filme serem reais, pelo tamanho absurdo das atitudes do ator. Um tempo depois veio a confirmação, de que tudo não passava de ficção.

A ideia do filme era discutir sobre a liberdade de expressão, o consumo de celebridades, o que é autêntico ou não e o principal: mostrar como a mídia constrói algo ficcional sendo aparentemente real. E essa discussão vai além, realities shows usam figuras reais com nomes reais, em uma realidade orquestrada para enganar o público. Phoenix criou este personagem, a fim de divertir-se  no limite entre personagem e ator. Concluindo: tudo não passou de uma brincadeira. Desde o anúncio nem um pouco crível, acerca de sua aposentadoria (logo no auge da carreira), sua música (total piada) e a atitude esnobe de Phoenix.

Voltando ao curta-metragem, devo avisá-los de que ele é tão real quanto o longa de Phoenix… e que sim, Cézar de Oliveira não existe. E na realidade, ambos filmes não são documentários, e sim mockumentaries. A origem desse gênero é justamente a zombação. E para gozar dos espectadores é preciso fazê-los crer de que o conteúdo é real. Para ter a credibilidade do público e convencê-los de uma possível realidade do conteúdo, os cineastas recorrem ao gênero documental. O fato dos espectadores acreditarem que Cézar de Oliveira é real, se dá pelo fato do curta adotar uma estrutura de narrativa documental e com personalidades de peso na música, teatro e tv. Não seria possível que Marcelinho da Lua esteja mentindo em um filme. Assim como, acreditamos que Joaquin Phoenix é mesmo um idiota. Quando o diretor Casey Affleck colheu depoimentos de pessoas próximas de Phoenix, e filmou o encontro do mesmo com o produtor musical e rapper Puff Daddy, os espectadores creem na veracidade daquele acontecimento e na real ação de Phoenix.

Sacha Baron Cohen utilizou o gênero como forma de crítica em seus filmes. A diferença entre seus personagens Borat e Bruno, para o personagem criado por Joaquin Phoenix; é o fato de Cohen assumir para os espectadores que é um personagem ficcional em uma situação real. Phoenix incorporou seu nome ao personagem, cria uma nova personalidade para si e muda de comportamento. Puff Daddy e David Letterman participam dessa gozação, sem saberem que são parte do experimento e que à partir deles seu personagem ganhará credibilidade perante o público. A aparição de Phoenix, como uma figura conturbada e monossilábica no talk show de Letterman, auxiliou a construção do personagem e sua personificação perante ao público. Mockumentary (em português é falso documentário) é um gênero ficcional, que se apoia na estrutura documental. Com isso, os diretores brincam com seus espectadores e abrem a reflexão acerca do que é real. Ou se valem do mockumentary, como mecanismo de humor. E se o que acreditamos em realidade, seja algo construído para essa crença?

Thais Nepomuceno
Fã efusiva do cineasta Alexander Payne, cultiva um sonho cinematográfico: um dia, John Cusack aparecer na janela de seu quarto, segurando um boombox no alto, tocando "In Your Eyes" (assim como no filme "Say Anything"). Thais Nepomuceno é produtora cultural, com especialização em cinema. Durante um ano estudou produção cinematográfica na ESTC em Lisboa, onde produziu o curta-metragem “Chronos” da diretora portuguesa Joana Peralta. Antes de sua formação no exterior, Thais já havia colaborado em sites de cinema, participado de curadorias em cineclubes e estagiado na TV Brasil. Foi quando dirigiu e produziu o curta-metragem "A View To A Kill - the Director's Cut". O filme já participou de festivais universitários e exibições em cineclubes. Esta pequena produção, com custo zero, feito a partir da colaboração de seus amigos é uma grande brincadeira com os clichês do terror adolescente; auto-definido como freshy trashy movie. Atuou na coordenação de pós-produção da TV Globo e agora está realizando seu mestrado em Formatos e Conteúdos Audiovisuais, na Universitat de Valencia (Espanha). E não fale mal do Leonardo Dicaprio perto dela.

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