Igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem, Niterói

Esse era um artigo que eu já planejava escrever há um tempinho e, sinceramente, gostaria de poder escrevê-lo com toda a calma do mundo. Mas a vida tem pressa e às vezes passa por cima dos planos da gente.

Na última semana acompanhamos o afastamento da presidente Dilma, seu vice, Michel Temer, assumindo como presidente interino enquanto o processo de impeachment vai a julgamento e uma série de manobras políticas que nos deixaram um tanto assustados quanto ao futuro do país. Aqui no Tag, a extinção do MinC foi onde o calo apertou mais. Nós, profissionais da Cultura, sabemos o quanto de trabalho foi feito nesses 30 anos de ministério, em busca de fortalecer cada pedacinho da pluralidade que forma a nossa identidade brasileira. Ao contrário de muitos comentários que andei lendo sobre o assunto, extinguir o MinC não se reduz a “acabar com o privilégio dos contemplados pela Lei Rouanet”, mas significa pôr em risco a preservação de elementos importantíssimos da nossa História e construção identitária enquanto povo, enquanto nação, enquanto brasileiros. Preservar a nossa Cultura (com letra maiúscula, guardando em si diversos significados) deveria, sim, ser prioridade em todos os ministérios, em todas as ações de qualquer governo e em todos nós.

Paço Imperial, Rio de Janeiro
Paço Imperial, Rio de Janeiro

Pra ilustrar a importância do Ministério da Cultura, resolvi traçar um brevíssimo comparativo com o Ministério do Turismo e mostrar a ligação entre eles.

De um lado, o Ministério da Cultura, que  “foi criado por Decreto presidencial, em 1985, a partir do desmembramento do Ministério da Educação e Cultura. A partir de então começaram a ser desenvolvidas ações específicas no reconhecimento da importância da cultura para a construção da identidade nacional. O MinC desenvolve políticas de fomento e incentivo nas áreas de letras, artes, folclore e nas diversas formas de expressão da cultura nacional, bem como preserva o patrimônio histórico, arqueológico, artístico e nacional.” (Fonte: site do MinC; grifo meu).

Museu Oscar Niemeyer, Curitiba
Museu Oscar Niemeyer, Curitiba

Do outro lado, o Ministério do Turismo, que pretende “desenvolver o turismo como uma atividade econômica sustentável, com papel relevante na geração de empregos e divisas, proporcionando a inclusão social.” Entre as atribuições do MTur, divididas entre suas secretarias (de Estruturação do Turismo, de Qualificação e Promoção do Turismo e também incluo aqui a EMBRATUR), estão “planejamento, ordenamento, estruturação e gestão das regiões turísticas do Mapa do Turismo Brasileiro“, “marketing e apoio à comercialização dos destinos turísticos em âmbito nacional” e “dos produtos, serviços e destinos turísticos brasileiros no exterior”. (Fonte: site do MTur; grifo meu)

Inhotim, Minas Gerais
Inhotim, Minas Gerais

Em suma, é como se “a galera da Cultura” fosse responsável por fomentar e preservar nosso patrimônio para “a galera do Turismo” transformá-lo em produto e serviço, ou seja, em dinheiro. Se nos arriscássemos a listar a cadeia produtiva do turismo, veríamos o quanto o setor depende do desenvolvimento cultural pra existir. Veríamos desde o secretário de Cultura até o pescador, veríamos de contadores de história a diretores de museus, veríamos escultores e artesãos, historiadores, produtores e artistas lado a lado com donos de hotéis e agências de turismo. E toda essa gente faz parte da engrenagem que faz rodar a economia do país. A gente não vive só de indústria, a gente não vive só de petróleo, a gente não vive só da agricultura. A gente vive do turismo e vive da cultura também. A gente não quer só comida, a gente quer andar pra frente sempre – e enfraquecer a Cultura, definitivamente, não é o caminho.

Quando de sua posse, o atual ministro do turismo, Henrique Eduardo Alves, declarou: “A decisão de manter o Ministério do Turismo na redução da máquina pública federal é simbólica. Mostra que o presidente Michel Temer enxerga o setor de viagens como estratégico para o Brasil enfrentar a crise econômica”. E aí eu pergunto: o turismo sobrevive de que? Além dos atrativos naturais, o que mais o turismo vende? Exato, a nossa História, a nossa Arquitetura, as nossas cores, a nossa comida, a nossa hospitalidade, a nossa Arte, as nossas raízes. E quem é que cuida de todo esse patrimônio, material e imaterial, visível, tocável, sensível, afinal?

Pão de Açúcar, Rio de Janeiro
Pão de Açúcar, Rio de Janeiro

Não estou aqui pra dar respostas, mas pra trazer questionamentos. Diante disso, pensem comigo: se o Turismo é uma atividade econômica tão estratégica, por que reduzir a Cultura à Lei Rouanet? Se não preservarmos o nosso patrimônio histórico e cultural, nosso turismo vai viver de que?

Percebam, todas as coisas estão atreladas à Cultura, portanto, se não a soubermos proteger e fomentar e manter, perderemos todos. Perderemos, inclusive, na economia, nos cofres públicos e privados. Então, será que alguém me explica qual a vantagem econômica de se perder dinheiro?

Renata Coelho Soares de Mello
Produtora cultural. Fotógrafa. Metida a poetisa. Exploradora. Curiosa. Criativa. Renata é daquelas que faz tudoaomesmotempoagora. Uma de suas maiores paixões é cair no mundo. Aproveita suas viagens pra absorver outras culturas e aprender como as pessoas se relacionam com suas cidades. Formada em Produção Cultural pela UFF, atuou em diversos segmentos até descobrir que seu caminho era empreender. Hoje, pós-graduanda em Turismo na UFF (sua segunda casa), está à frente do projeto Explore Niterói e vai compartilhar um pouco das suas pesquisas sobre turismo cultural, cidades e pessoas. Prontos pra fazer as malas?

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