Esse texto talvez seja o mais prazeroso e o mais difícil de executar. Como escrever sobre a melhor experiência da minha vida e meu objeto de estudos há cinco anos?

Faço a mim mesma essa pergunta desde 2010, quando decidi ir para Lisboa cursar um período do curso de Ciência da Comunicação e Gestão Cultural na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias e ao chegar em território lusitano, descobri que fazia parte de um grupo, os Erasmus, e descobrindo essa identidade, encontrei o tema que seria meu companheiro por esses anos de estudos.

Erasmus – EuRopean Community Action Scheme for the Mobility of University Students –  é um programa, como o próprio nome indica, para a mobilidade de estudantes universitários criado pela União Européia (UE) em 1987, com o objetivo de criar uma identidade europeia e um sentimento de pertencimento ao continente. Como superar rivalidades históricas e poder criar um bloco econômico “sem fronteiras”? A resposta veio em um programa de intercâmbio onde os estudantes cidadãos da União Européia e países candidatos,  durante a graduação podem cursar de três meses a um ano de seu curso em alguma universidade dos países pertencentes ao bloco ou, também, de países candidatos.

Os alunos se candidatam na sua universidade de origem às universidades que a mesma possui convênio e recebem da UE uma ajuda de custo que pode girar em torno de 400-600 reais por mês. E, assim, começou a ação considerada como de mais sucesso da UE. Em 2013, já eram contabilizados 3 milhões de estudantes que foram beneficiados pela bolsa de estudos.

O que me atraiu nesse tema, foi perceber que o termo “Erasmus” passou a significar estudantes estrangeiros e, também é usado para definir um estilo de vida e um tipo de cidade. Ou seja, uma ação de política exterior que se vale de um programa de intercâmbio enquanto política cultural, chegou à gestão da cidade e de serviços. É comum na Europa referir-se a determinado lugar ou festa como “de Erasmus”, que nesse contexto significa muita festa, bebida alcoólica, jovens, liberdade e viagens. Já para alguns locatários de apartamento e vizinhos pode significar confusão e música até altas horas.

Quanto às cidades, duas em especial chamaram minha atenção, primeiro Lisboa que têm um projeto aprovado pela câmara municipal de tornar-se uma cidade Erasmus, que significa uma cidade mais cosmopolita, com uma boa estrutura de recepção dos estudantes e chegando aos cardápios de restaurante em inglês. Em Lisboa, têm um bar chamado Erasmus e sua esquina é conhecida como “erasmus corner”, o ponto de encontro de todo e qualquer estudante estrangeiro em perímetro lisboeta. Assim a cidade é apropriada, ainda que exista tensão e que o grupo seja bastante delimitado, não deixa de ser uma apropriação do território.

A outra cidade é Barcelona, que se vende como uma cidade jovem, de festa e boêmia. Durante o mestrado minha pesquisa se baseou na literatura erasmus, como as narrativas ajudam a criar a identidade. Qual não foi minha surpresa ao descobrir que os seis principais filmes sobre o tema se passam na capital da catalunha. Sendo ainda mais interessante pensar que Barcelona não é e nem nunca foi o principal destino erasmus, nem na Europa, nem em território espanhol que perde para a andaluza e pequena Granada. Ou seja, a cidade que se vende como erasmus, é cenário do filme sobre erasmus de maior sucesso (Albergue espanhol) e alimenta essa identidade através da literatura e do turismo. As discotecas e a imagem da cidade agradecem.

Outra descoberta ao investigar os erasmus, é perceber como os membros do grupo se entendem como iguais, a identificação pode ter milhares de explicações. A que mais me agrada, escutei em um palestra do professor de Leipzig, Alfolso de Toro que escreve sobre as diásporas contemporâneas. Onde ele considera que os grupos sociais e de migrantes, compartilham mais pelo seu estilo de vida e momento do que por outros signos identitários como nacionalidade, religião etc. Assim sendo, eu fui considerada Erasmus: era estudante, estrangeira e em território europeu.

Ao chegar na universidade, fui prontamente acolhida pela ESN – Erasmus Students Network. Que me entregou um envelope com o mapa da cidade, bilhetes de ônibus e metrô e dois chips de celular carregados. Essas associações são geridas pelos erasmus e voluntários (geralmente ex-estudantes) e sobrevivem das festas erasmus, etc. Quando você chega, é convidado a participar da comunidade que por 10 euros (na minha época) fornece uma carteira de identificação que te permite entrar em festas gratuitamente e comungar em eventos diversos com outros estudantes estrangeiros.

O que venho tentando transformar em um objeto distante e acadêmico, foi na realidade um encontro de amigos e pessoas muito forte e intenso. Fui buscar na academia a explicação científica para isso. Bourdieu, Bauman, Lévy, Hall, Mulvey e muitos outros autores têm me ajudado nessa árdua tarefa de teorizar o sentimento. Porém, quanto mais eu tenho a teoria ao meu lado, mais eu me apaixono pelos depoimentos dos que foram erasmus e de como a identidade tão bem forjada, construída e manipulada, ganha todas as cores do mundo quando serve para descrever a descoberta da humanidade do outro, seja turco, espanhol, italiano, português, alemão, francês, brasileiro.

Em uma das pesquisas mais detalhadas e antigas sobre o tema, o professor inglês King, estuda um grupo de erasmus há 10 anos. E, na sua pesquisa acompanha as idas e vindas desses estudantes. O resultado? Muitos voltam ao país onde viveram como estudantes. As razões? por se sentir em casa, ou porque foi efetivado em um estágio ou… O amor. Muitos vão e voltam pelos namorados. King, conta ainda como esse primeiro momento de independência faz toda a diferença no princípio da vida adulta do estudante e como ele aprende a lidar com dinheiro, tarefas de casa e outros trâmites de uma vida fora da zona de conforto.

O mais bonito nesse encontro, na minha opinião, foi a vontade de entender e ser entendido, de conhecer e tolerar, aceitar o outro. Mantenho contato com meus amigos “erasmus” e encontrei muitos no decorrer desses anos, morei com uma inclusive. E, todos somos unânimes em dizer que foi a melhor época de nossas vidas. Política, interesse econômico e tudo isso realmente fica diluído na experiência. Deu e dá muito certo.

Para quem ficou curioso sobre o tema, recomendo expressamente o filme francês “Albergue espanhol” (Aubergue espagnole) de Cédric Klapisch. 

 

 

 

Annanda Galvão
Annanda Galvão Ferreira da Silva têm quase tantas profissões quanto sobrenomes: designer de moda pelo SENAI/Cetiqt, Produtora Cultural pela Universidade Federal Fluminense. Cursou Gestão Cultural na Universidade Lusófona de Lisboa e foi investigadora pelo CNPQ-Pibic na Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB) em Políticas Culturais, sendo seu artigo “A visão do Conselho Federal de Cultura sobre as artes popular e erudita” premiado na V jornada de iniciação científica da FCRB e também pela Gerência de Cultura da Escola Sesc de Ensino Médio (2012). Mestre pela Universitat de Barcelona onde cursou o mestrado “Construção e Representação de Identidades Culturais”. Atualmente é aluna do programa de doutorado em Estudios Migratorios da Universidad de Granada, onde continua estudando as migrações a luz das políticas culturais. Tendo atuado em diversas áreas da produção e gestão cultural, realizou instância de colaboração no departamento de conteúdo do teatro do governo espanhol e catalão Mercat de les Flors, tendo coordenado o projeto "Trocas - formació i dansa" de intercâmbio entre entidades espanholas e brasileiras, foi também colaboradora e palestrante do IPAM - International Performes Arts Meeting que acontece dentro do Festival Grec em Barcelona. É professora de elaboração de projetos culturais do curso de formação de agentes culturais dentro do Programa Favela Criativa da Sec-rj gestionado pelo Cieds. É idealizadora de projetos nas áreas de cinema, arquitetura e educação. Apaixonada por viagens, carimbos no passaporte, museus, livros e pessoas , é curiosa por natureza e espera mostrar um pouquinho do que têm visto mundo a fora para os leitores do TagCultural.

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