23 de novembro de 2001. O dia da estréia brasileira do filme Harry Potter e a Pedra filosofal.

Porque eu lembro disso com tanta precisão e sem Wikipedia? Porque foi o dia que meu avô paterno morreu.

Quando surgiu a semana Harry Potter, assim como todas as vezes que alguém fala sobre o bruxinho inglês, eu sou automaticamente levada aos meus 14 anos, a sessão de cinema que já tínhamos comprado com antecedência no cinema do shopping do subúrbio. E, naquele dia onde nada fazia sentido, Harry me levou pra um mundo encantado: ele tinha perdido os seus pais e estava se saindo bem. Por um momentinho, lembro que aquela história aqueceu meu coração apertado.

Falar de HP e identidade é um desafio, são oito filmes, são oito filmes que saíram de um livro e se multiplicaram em milhares de produtos que por sua vez também têm suas identidades. Por isso, escolho um caminho afetivo sobre essas identidades, como as escadas de Hogwarts que mudam de lugar no meio do caminho e talvez nos levem aonde nem sabíamos, mas onde deveríamos estar.

Os conceitos de narrativa e literaturas – pasmem – podem ser mais amplos. Não só livros fazem literatura. As narrativas constroem e representam identidades, é tipo um sistema que se retroalimenta: as identidades existem porque foram construídas e elas foram construídas porque foram representadas e por sua vez podem desdobrar-se em outras. Portanto, filmes e outras narrativas (que contêm uma estória) também podem ser literaturas. Um gênero literário muito conhecido é a autobiografia (juro que vai fazer sentido) o que pouca gente conhece é a autobiografia indireta.

A autobiografia indireta é quando um autor conta a sua história sem ser em primeira pessoa, ou ainda quando sabendo de detalhes da biografia do autor, reconhecemos na sua obra traços e influências da sua vida pessoal. Quem é curioso sobre HP, sabe que sua autora estava no fundo do poço na época que escreveu a sua obra, endividada, desempregada e sua mãe tinha falecido recentemente, ou seja, em uma situação quase ou tão ruim quanto a de um órfão que vive trancado em um armário de baixo da escada. Poderia, então, HP ser considerada uma autobiografia indireta, indireta? rs

Ou seja, a maneira que a estória é contada e por quem é uma narrativa por si só, que quando sabido pelo interlocutor  (no caso do filme o espectador), a história ganha outras nuances e outra leitura. Assim, como quando eu conto que eu gostei do HP antes mesmo da primeira fala, porque aquele filme me tirou do dia mais triste e me levou a outro mundo, onde o triste seria comer um feijãozinho com gosto de cera de ouvido.

Se levarmos em conta como as identidades e as narrativas – as maneiras que contamos a mesma história – podem fazer variar a mesma identidade, o produto, a narrativa do HP, evoca superação e fantasia. A identificação acontece quando Harry é um menino frágil, ou quando ele é estudante, na maneira que acompanhamos ele crescendo, ou quando ele aprende, se revolta, entra em crise e dúvida. A identificação também pode acontecer quando vemos na tela o que gostaríamos de ser ou ter, sobre isso escrevi mais no post sobre prazer visual no Grande Hotel Budapeste.

Talvez Hogwarts seja um lugar que J.K. criou longe dos seus problemas reais e onde muita gente buscou alívio e fantasia na magia, onde as possibilidades são infinitas. Onde os avôs morrem, mas temos amigos que aparecem na janela em carros voadores, e a vida é simples quando dividida por residências e o vilão é fácil de reconhecer ainda que durem algum filmes e livros pra ser vencido.

Mas, claro, esse é o meu Harry Potter. Qual é o seu?

 

Annanda Galvão
Annanda Galvão Ferreira da Silva têm quase tantas profissões quanto sobrenomes: designer de moda pelo SENAI/Cetiqt, Produtora Cultural pela Universidade Federal Fluminense. Cursou Gestão Cultural na Universidade Lusófona de Lisboa e foi investigadora pelo CNPQ-Pibic na Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB) em Políticas Culturais, sendo seu artigo “A visão do Conselho Federal de Cultura sobre as artes popular e erudita” premiado na V jornada de iniciação científica da FCRB e também pela Gerência de Cultura da Escola Sesc de Ensino Médio (2012). Mestre pela Universitat de Barcelona onde cursou o mestrado “Construção e Representação de Identidades Culturais”. Atualmente é aluna do programa de doutorado em Estudios Migratorios da Universidad de Granada, onde continua estudando as migrações a luz das políticas culturais. Tendo atuado em diversas áreas da produção e gestão cultural, realizou instância de colaboração no departamento de conteúdo do teatro do governo espanhol e catalão Mercat de les Flors, tendo coordenado o projeto "Trocas - formació i dansa" de intercâmbio entre entidades espanholas e brasileiras, foi também colaboradora e palestrante do IPAM - International Performes Arts Meeting que acontece dentro do Festival Grec em Barcelona. É professora de elaboração de projetos culturais do curso de formação de agentes culturais dentro do Programa Favela Criativa da Sec-rj gestionado pelo Cieds. É idealizadora de projetos nas áreas de cinema, arquitetura e educação. Apaixonada por viagens, carimbos no passaporte, museus, livros e pessoas , é curiosa por natureza e espera mostrar um pouquinho do que têm visto mundo a fora para os leitores do TagCultural.

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