A experiência de trabalhar com produção cultural no exterior e dentro de um equipamento público é e foi um exercício de crescimento profissional sem igual. Estar dentro do departamento de “Contiguts” do Mercat de les Flors, me permitiu entender melhor como funciona a gestão da cultura na capital catalã, tão tomada como exemplo no mundo todo.

O Mercat de les Flors é um teatro de dança e movimento. Sua história enquanto espaço, remota a 1929, quando construíram o edifício que seria o Palácio da Agricultura em Montjuic e ao seu lado O Mercado das flores que então era a central de distribuição de flores de Barcelona e funcionava como um armazém.

Passado os anos, em 1983, a responsável pública pela cultura e o prefeito decidiram transformar o Palácio da Agricultura em um espaço cênico, que é hoje o Teatre Lliure. Peter Brook foi o responsável por essa animação cultural no que era um espaço abandonado  e, quando descobriu o espaço onde é o Mercat, decidiu que era o lugar ideal para a estreia de sua obra “Carmem”.  Desde esse momento, o teatro inaugura sua vocação internacional, recebendo criadores das mais distintas nacionalidades, vocação essa que mantém até hoje.

Quando em 2006, o teatro e a gestão que assume a casa, adota a dança contemporânea como o carro-chefe, o Mercat passa a ser o espaço para a dança. O diferencial desse case é que eles trabalham a dança e gerem o espaço com muitíssimo dinamismo e com pilares muito sólidos. E, ainda que seja um teatro público, não é nada engessado nem formal. A casa têm a imagem de um lugar de vanguarda, uma porta para o novo e assim se vende. A preocupação com a criação, os processos e a filosofia é mantida a todo momento, mas, convive com o business sem pudores e/ou problemas.

Um exemplo? Na página oficial do teatro há a venda de entradas, onde você responde perguntas. O que é levado em conta na hora de programar a temporada seguinte. A comunicação com o conteúdo analisa quem é o público e o que ele vai ver. Quando fulano compra um espetáculo X e na próxima grade há um espetáculo que tem a ver, a comunicação da casa manda um email pessoal falando ao fulano que se gostou do espetáculo X, com certeza vai gostar do Y e do Z. E, assim gera confiança e traz o cliente-público pra dentro da sala de espetáculo, pra dança.

A programação é o sonho de qualquer gestor. Está planejada com mais de um ano de antecedência e sempre segue uma mesma linha curatorial dependendo do tema que dialoga também com o plano de comunicação. Essa temporada, os espectadores que costumam comprar o bônus (é possível comprar cotas de desconto para a temporada) receberam nas suas casas um pacotinho de sementes de flor para anunciar o início das vendas. Tem como não amar?

Interessante também a relação com o território,   ao mesmo tempo que o Mercat é uma torre de babel, com artistas de todo mundo circulando pelos seus corredores ele mantém um caráter muito nacional/regional e isso reflete nas suas coproduções. Ao mesmo tempo que, por exemplo, produz DVD super elaborados de cias. catalãs, coproduz peças de outros países e mantém diálogos constantes e muito próximos com províncias e países vizinhos. Claro que as dimensões européias permitem essa facilidade, mas, acredito que foi uma rede bem construída e que possa servir de inspiração.

O trabalho educativo é um dos focos principais e caminha em várias frentes. Têm formação para todas as idades, todas mesmo. E, a premissa é que não existe dança errada e que, antes de falar, a dança têm que passar pelo corpo para primeiro experimentar, sentir e depois entender ou falar. O educativo é tão complexo e com tantas ações inspiradoras que pretendo fazer um post só sobre isso e com uma entrevista com a responsável por todas essas ações desde o princípio, que colocaram o Mercat no lugar de prestígio e reconhecimento que ele têm hoje enquanto fomentador da pedagogia da dança.

Sendo meio do governo  espanhol e meio do governo da Catalunha, o Mercat de les Flors acaba assumindo a responsabilidade pelas políticas e ações relacionadas a dança. É incrível a quantidade de programas que a casa abriga e os desdobramentos e a sua voz na sociedade. O diretor do Mercat é presença constante nos jornais, revistas e canais de televisão, onde concede entrevista sobre os espetáculos e a temporada. É realmente interessante ver como o gestor é valorizado como criador e têm rosto, voz e reconhecimento.

De todos os programas que pude ter contato e processos, não há um só que eu destaque. Todos estão em nível de igualdade e as condições de trabalho e respeito pela gestão da cultura e são invejáveis. Todavia, o que acho que diferencia o Mercat de les Flors é ter sua filosofia muito clara e gestores que a trazem no sangue. Primeiro é o núcleo forte, o que se acredita e têm como missão e logo o desenvolvimento está atado a isso de uma maneira livre. Ainda que pareça contraditório, o que eu vi e vejo são pessoas muito conscientes da filosofia do teatro, com autonomia de tomar decisões e criar dança e movimento. Dá muito certo já que a cada semana muda a cia. que está se apresentando e eu nunca vi a produtora gritando ou arrancando os cabelos, o que mostra total domínio dos processos.

Minha dicas  para quem vai a Barcelona é experimentar um espetáculo do Mercat e investigar as suas programações. Têm artistas do mundo todo, muitos que ainda não são conhecidos por aqui e de grande qualidade artística. E, claro, aproveitar para conhecer o único teatro espanhol inteiramente dedicado a dança contemporânea. Além do mais, o Mercat fica no meio dos jardins mais bonitos de Barcelona: é flor pra todo lado.

Annanda Galvão
Annanda Galvão Ferreira da Silva têm quase tantas profissões quanto sobrenomes: designer de moda pelo SENAI/Cetiqt, Produtora Cultural pela Universidade Federal Fluminense. Cursou Gestão Cultural na Universidade Lusófona de Lisboa e foi investigadora pelo CNPQ-Pibic na Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB) em Políticas Culturais, sendo seu artigo “A visão do Conselho Federal de Cultura sobre as artes popular e erudita” premiado na V jornada de iniciação científica da FCRB e também pela Gerência de Cultura da Escola Sesc de Ensino Médio (2012). Mestre pela Universitat de Barcelona onde cursou o mestrado “Construção e Representação de Identidades Culturais”. Atualmente é aluna do programa de doutorado em Estudios Migratorios da Universidad de Granada, onde continua estudando as migrações a luz das políticas culturais. Tendo atuado em diversas áreas da produção e gestão cultural, realizou instância de colaboração no departamento de conteúdo do teatro do governo espanhol e catalão Mercat de les Flors, tendo coordenado o projeto "Trocas - formació i dansa" de intercâmbio entre entidades espanholas e brasileiras, foi também colaboradora e palestrante do IPAM - International Performes Arts Meeting que acontece dentro do Festival Grec em Barcelona. É professora de elaboração de projetos culturais do curso de formação de agentes culturais dentro do Programa Favela Criativa da Sec-rj gestionado pelo Cieds. É idealizadora de projetos nas áreas de cinema, arquitetura e educação. Apaixonada por viagens, carimbos no passaporte, museus, livros e pessoas , é curiosa por natureza e espera mostrar um pouquinho do que têm visto mundo a fora para os leitores do TagCultural.

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