teatro3 (1)Destroçados.
Em meio às catástrofes ocorridas nos últimos dias, assistir Marco Zero tocou em um ponto que o próprio Ben Harcourt, personagem do ator Tárik Puggina, menciona: há preocupação, mas depois continuaremos seguindo nossas vidas e rotinas porque esse é o “jeito americano”. A pergunta é: até quando?

Marco Zero é uma das primeiras manifestações artísticas envolvendo o atentando no World Trade Center escrito por Neil LaBute, com tradução de Gustavo Klein, e encenado no Brasil por Ivan Sugahara. A trama se passa um dia após a queda das Torres Gêmeas com a cidade de Nova York imersa no caos; os personagens Abby e Ben se concentram, em geral, em suas possibilidades de reconectar uma relação usando a tragédia como uma estratégia para fuga – eles são amantes, a esposa e filhos de Ben não têm notícias duas após o atentado. A peça é um grande leque de acusações entre personagens insatisfeitos com o seu lugar dentro do casal e dentro da sociedade, revelando uma enormidade de sujeira e poeira escondida debaixo do tapete.

Abby é chefe de Ben, o qual é 12 anos mais novo que sua amante. A relação de ambos é escondida por 3 anos repleta de entraves e expectativas em cima do outro o que só carrega peso e frustração dentro dos fatos que não alcançam seus propósitos idealizados e fantasiosos. Neil LaBute, através dos personagens, faz o público repensar o espaço representado dentro das relações e a funcionalidade prática da vida. Os personagens se encaram frente a frente, hora de falar verdade e ouvir verdades. O inesperado já aconteceu, o mundo está um caos e não há mais nada a perder, não há motivo para postergar a solução dos problemas ou ignorar os deslizes morais cometidos e acobertados. O espetáculo inicia com tensão – a mundial e a pessoal de Abby e Ben – e suplica por uma decisão final.

É possível ver movimento como a tensão inicial com as reportagens sobre o atentado, a chegada pesada de Abby dentro de casa, os debates ideológicos sobre conhecimento/cultura, sobre o atentado enquanto transam. No entanto, carece de frescor, isto é, espontaneidade nas atividades propostas entre o casal numa situação anômala como esta: uma discussão de relação de amantes que tem como pano de fundo a queda das Torres Gêmeas vislumbrando nisso uma solução para fugirem e perpetuar essa união. A estrutura, a fôrma é extremamente atraente mas os elementos solucionadores de cena me parecem os mais óbvios possíveis. As interferências do telefonema insistente da esposa e a programação na TV, em vez de aliviarem a tensão do embate entre eles ou nos surpreender como uma interrupção de fluxo entre o casal, se tornam enfadonho e cansam a medida que o espetáculo caminha e algo não se desenvolve; parece que não há um propósito de cena.

A ambientação padrão de casa apresenta um olhar interessante. Além do lugar desorganizado, há um desnível na mobília, bem como poeira e objetos revestidos com um tecido que também cerca toda a área cênica – eles também representam esses destroços. O tecido transparente traz uma sensação de intrusão do espectador – além da ideia de que tudo acontece “debaixo dos nossos olhos” – assim como prendem os personagens nessa bolha quase sem solução.

Talvez um dos pontos mais contrastantes do espetáculo seja os atores envolvidos. Letícia Isnard e Tárik Puggina são completamente díspares em cena. E não é somente no campo psicológico dos personagens que representam, mas também na capacidade dos intérpretes em se fazerem entender. Letícia é fluida, orgânica e honesta em sua vontade de ouvir e responder ao parceiro com quem contracena. Tárik, por sua vez, faz parecer que está fazendo teatro o tempo todo, não mergulha e não se permite ao jogo, preso em movimentos e reações padronizadas, cristalizadas o que nos faz acreditar que ele não tem domínio das suas próprias ações – acontecendo algum desequilíbrio cênico surpreendente, por exemplo, permaneceria no mesmo modelo, acreditando nele como certo e imutável.

O jogo de luz tem momentos contemplativos, mas, assim como a encenação, nos parecem escolhas fáceis, que o espectador já espera assim que reconhece ali um ponto de foco – era nítido a utilização da TV, poe exemplo.12279179_653358428100525_8583392662739318259_n

O que me estimulou mais, no entanto, não foi o recheio do espetáculo, mas a sua representatividade refletida nos mundos atuais. Precisamos mesmo chegar a uma catástrofe para buscar a solução dos problemas? Elas ocorrendo, somos levianos com os nossos problemas, deixando que alguém tome as rédeas assistindo tudo passivamente (como o personagem Ben)?

Qual é a responsabilidade que estamos tomando com a nossa vida? Porque se não temos esse compromisso com nós mesmos, alguém nos toma o nosso direito de exercer qualquer vontade que seja. E se outro resolve, não podemos reclamar. E se não cuidamos do que temos em mãos, do que podemos, o desequilíbrio externo e físico que sucede é consequência interna.

Até quando vamos ficar assistindo?

American Way

 

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Hikari Amada
Hikari tem uma certeza na vida: teatro. Ele se apresenta não como um hobby, um desejo, uma carreira; é um dogma. Canceriana camuflada de maquaigem aquariana e sabor agridoce de leão tem mania de transformar tudo em poesia sarcástica, mas sempre com uma boa dose de impacto (lê-se drama). Integrou as cias. Trupe do Experimento e Sociedade das Artes. Já fez teatro infantil, adulto, musical e deu pinta em novela. Atriz formada na Escola Técnica Estadual de Teatro Martins Pena, estuda Produção Cultural na Universidade Federal Fluminense (UFF) e trabalha no Centro Cultural da Justiça Federal. Assim que finalizar a formação de ensino superior, pretende expandir os horizontes teatrais, espirituais e filosóficos.

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