Perceber que as pessoas não se apaixonam mais é triste. Paixão é um sentimento que chega de modo avassalador. Nos envolve e nos faz agir impulsivamente, a tirar o sono e o ar. Muda nosso dia e faz com que pensemos sempre na pessoa querida. Hoje vivemos numa era em que a tecnologia é o carro chefe para as nossas interações sociais.

Apaixonar-se é manter uma relação com muitos mediadores. Se eu me apaixono por alguém, eu não interajo diretamente com essa pessoa e acabo encontrando meios digitais que podem me auxiliar na relação.

Estamos na era do aparato e da máquina que nos mostram como e para quem devemos amar. Aplicativos de relacionamento, programas que imitam o afeto como beijos e abraços. Tudo para nos mostrar que temos sentimentos e que temos cuidado com o outro.

 

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Nintendo – The Legend of Zelda, 1986.

 

Talvez isso não seja uma grande verdade.

Nossas relações estão se fixando nas mensagens que mandamos e nos pixels que trocamos. Estamos num mar digital de solidão e sentimentos simulados.

A simulação nada mais é que a imitação de alguma coisa real, como o conceito de simulacro desenvolvido por Jean Baudrillard. Em seus tratados sobre a simulação, Baudrillard defende que estamos vivendo um mundo que representa a realidade. Por consequência da nossa interação com a máquina, resolvemos automatizar nossas relações onde simulacros, ou simulações imperfeitas e grosseiras, são mais interessantes que o real.

Se tenho interesse em alguém eu cutuco ela virtualmente ou jogo um coração digital. Muito mais simples do que ir dar um olá e chamar para sair. Estamos na era em que o mundo líquido de Zigmunt Bauman já se instaurou a um tempo e do líquido inspiramos o vapor. Essas relações-simulacros seriam gases tão finos que não pegamos ele e nem conseguimos conter em um copo. Transparente, as nossas emoções na internet imitam a vida. Mimetizam nossas intenções e tentam mostrar que somos feitos de calor humano.

Só que online.

Estamos emaranhados em dados e números racionais que em nada faz parte da nossa matéria muscular. Fingimos nos importar, imitamos os sentimentos humanos como a Arte imitou a natureza por anos. Somos atores em cima dos nossos próprios sentimentos em um palco social e cotidiano. Hoje, nossos filhos nos encontram nas salas com celulares em suas mãos sem nos cumprimentar ou nos abraçar. Ao invés disso, preferem mandar smiles com vídeos engraçados e palavras de carinho em mensagens digitais que só cabem numa tela pequena de celular.

Devemos fugir disso.

Nos falta afeto nas relações.

 

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Gabriel Orozco – My Hands Are My Heart, 1991.

 

Afeto é cuidado com o outro sem ter medo do que possa acontecer. Afeto é a paixão no seu sentido mais singelo para entregarmos nosso melhor a quem nos importa. Nisso, as nossas sensações são feitas dessas intenções pessoais e toda relação que temos é carregada de signos afetivos que trocamos com as pessoas que estão ao nosso redor. Quando entrego um bilhete com um coração desenhado, tenho naquele papel a intenção de transmitir o que sinto.

Pense quando um pintor faz o retrato de seu amado na tela, ele tem a intenção de mostrar o melhor daquela pessoa sem esquecer cada detalhe que o encanta. Pode ser uma paixão para a vida toda ou mostrar a beleza que o outro tem.

Dorian Gray é o muso de Basil na obra de Oscar Wilde. Nessa relação modelo vivo e artista, toda a juventude encantadora de Dorian faz Basil ter um olhar mais apurado sobre o seu objeto de desejo.

Os quadros de Basil são o retrato do seu olhar sobre o seu desejo.

Quando voltamos aos aparatos digitais perdemos em muito ao acharmos que o nosso afeto pode ser só simulado com corações ou smiles digitais. Nossos sentimentos não são expressados da mesma maneira no digital como quando conversamos com quem gostamos, compramos algo para a pessoa ou fazemos uma pintura para ele. Isso a máquina não consegue superar e nos esquecemos que somos feitos de afeto.

Só o afeto salva.

 

Banksy – Girl With a Ballon, 2002.

 

O pixel nunca conseguirá superar a paixão nas nossas intenções artístico-afetivas. Tenhamos mais cuidado ao usá-las e muito mais amor… Por favor.

 

 

Aldene Rocha
Nascido como um artista bastardo e um eterno aprendiz, se formou em belas artes por uma paixão de menino e seguiu levando ela até o além. Desenvolve trabalhos artísticos em diferentes mídias como vídeo, modificações em jogos eletrônicos, fotografias, instalações e intervenções urbanas. Participou de exposições coletivas e foca a sua pesquisa nas novas mídias aliada à teoria do cinema, na fotografia e na arte contemporânea. Mesmo não parecendo, curte uma praia e joga videogame nas horas vagas.

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