E quem pode falar da relação entre pai-mãe e filho? Somente quem é pai ou mãe? E quem é filho? E quem admira a relação paterna e materna? E os artistas, podem? Não sei e pouco me interessa. O que me interessa mesmo é essa relação. É observar como a vida de alguém pode pulsar na barriga de outro ser. À parte das questões biológicas, como pode um ser ser gerado a partir da relação de um homem e de uma mulher? E o parto – que coisa estranha – em questão de horas, uma vida que vinha sendo gerada ali, por alguns meses, de repente ganha o mundo. Tão, pequeno, tão frágil e cheio de vida para viver. Coração forte, sangue vermelho-intenso, pele macia e um mundo para aprender. Não há mais o chiado do ventre para ninar a criança. Agora há o leite e o aconchego do peito materno. O carinho da mãe a deslizar a mão por sobre a cabeça de seu filho. Há quem diga que no momento do nascimento o amor dos pais já é absoluto e extremo, há quem diga que é uma relação de amor que se constrói, que amadurece, que se intensifica com o tempo. E é essa relação que vejo expressa na pintura de Claude Monet.

 

Um verde mesclado, misturado, bagunçado grama-de-outono. Um verde meio queimado-clareado, misturado com um verde mais escuro-fresco pigmentado com a vermelhidão da terra. Alguns ramos já secos cor-de-galho. Logo ali, uma criança. Um menino, provavelmente, a observar quem o observa. E quem será? O pai, o pintor, a natureza, eu ou você? A grama chega ao peitoral do menino. Tão pequeno, quase tamanho-grama, um pouco mais alto, porém com tanta vida, com tantas questões por virem, tantas cores para ver, tantos cheiros para sentir, tantos sabores para conhecer e tanta altura para crescer. Ele não está sozinho, porque “sozinho ele não fica, nem há de ficar, pois ele tem a sua mãe para o acompanhar” e, muito provavelmente, um pai e um avô também, quem sabe até uma avó e alguma amiga também. Contudo ali, naquele momento, está a mãe. Com porte nobre, de princesa, segurando uma sombrinha para protegê-los do sol. Sombrinha verde-grama-relva-misturada. O vestido da mulher, da mãe, da dama é cor de brisa agreste, marcado pelos contornos do vento impressos pelas pinceladas de Monet. No cabelo da dama, um lenço azul-pouco-mais-escuro-que-o-céu. O cabelo se esconde no lenço que se confunde com o marulho, não do mar, mas do vento e do lenço no pescoço ou detalhe do vestido. Postura ereta, firme e elegante. A calma de uma mãe que conhece a ardência da pimenta e sabe que o melhor para seu filho, mais do que segurar-lhe a mão a todo instante é saber o momento correto de amparar. A calma de uma mãe que sabe deixar o filho descobrir o mundo por si, sendo presente ao seu lado. O companheirismo – de uma mãe na qual o filho confia e sabe que em sua presença está tudo bem. O companheirismo – de um filho cujos olhos muda ao ver que sua mãe existe em seu tão pequeno-grande-mundo que se constrói a cada dia.

 

 

O menino de chapéu é corajoso, valente, vigoroso. A mãe o ensinou a ser tudo isso. Ou teria sido o pai? O teriam sido ambos? Os seriam ambos uma mesma pessoa?

 

 

Atrás deles – o mundo, o céu. Um céu típico de um belo dia de maio. Será que esse menino nasceu em maio? Com foi a chegada dele? Quem estava por perto? Quem sabia que ele iria chegar? Quantas lágrimas rolaram com sua vinda ao mundo? Quantas pessoas se emocionaram ao vê-lo pela primeira vez? Talvez somente aquele céu saiba responder tantas perguntas. Um céu azul-de-inverno sem, contudo, ainda ser inverno. Um céu cheio de nuvens leves, brancas, sugerindo páginas brancas para se escrever as mil e uma aventuras que esse menino irá viver, irá imaginar, irá desenhar em linhas e traçados que somente aqueles que o amam irão acompanhar. Um céu calmo e tranquilo como o sono, o cochilo do menino capaz de a todos o coração acalmar.

 

 

O menino e a mãe e quem os vê e quem os pintou e quem os imaginou e quem os criou. A tarde passa com o vento, o sol começa a sugerir que o momento do passeio terá de acabar. A mãe está ali, feliz por apresentar ao filho um pouquinho daquele mundo que nunca se repete. A mãe, com tantos amigos, tem ao seu lado, seu melhor amigo – seu filho, seu amor maior e melhor. A mãe que, mesmo quando estiver doente, mesmo quando o mundo estiver difícil, quando tudo parecer impossível, quando ela achar que tiver falhado, quando as dificuldades se apresentarem, tem um motivo para se curar, para ser forte, para sorrir, para ser feliz, para jamais desistir.

 

 

A mãe que acordou na madrugada para ver se o filho estava respirando, a mãe que ficou sem dormir na madrugada porque o filho queria ficar acordado, a mãe que foi trabalhar e deixou o coração em casa, quando seus olhos o do filho encontrar, quando o sorriso do filho a ela se direcionar, nada mais ela irá lembrar. Somente saberá que seu mundo está completo e pronto e ponto e reticências…

 

 

“O Passeio”, a “Mulher com Sombrinha” ou a “Madame Monet e o filho”, não me importa. Importa o que a arte faz em mim, em ti, nele ou nela. Importa como ela me desloca e para onde isso me leva. E aí, só meu coração e minha rosa dos ventos sabemos…

 

Caroline Alciones

Com-Gosto, no mês dos pais

 

 

 

*Escrito por Caroline Alciones, mestranda do Programa de Pós-Graduação em Estudos Contemporâneos das Artes da Universidade Federal Fluminense (UFF). É bacharel e licenciada em Letras Português-Inglês pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e bacharel em Produção Cultural pela UFF, tendo sido bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) da Universidade Federal Fluminense (2012-2013), é membro do grupo de pesquisa CNPq “Arte e Democracia: produção e circulação da arte na contemporaneidade” sob orientação do Prof. Dr. Luiz Sérgio da Cruz de Oliveira. Caroline Alciones faz traduções e revisões no campo das artes, além de ter participado da curadoria das exposições Arte e Cultura indígena do povo Karajá e Genealogia Nobiliárquica do Teatro Brasileiro. Atualmente, trabalha junto ao PROJETO SOCIAL A TOCHA!

Participou da primeira equipe de colunista do TagCultural, contribuindo com seus textos sobre Artes Visuais de 07 de abril de 2014 à 09 de março de 2015.

Caroline Alciones
Caroline Alciones é mestranda do Programa de Pós-Graduação em Estudos Contemporâneos das Artes da Universidade Federal Fluminense (UFF). É bacharel e licenciada em Letras Português-Inglês pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e bacharel em Produção Cultural pela UFF, tendo sido bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) da Universidade Federal Fluminense (2012-2013), é membro do grupo de pesquisa CNPq "Arte e Democracia: produção e circulação da arte na contemporaneidade" sob orientação do Prof. Dr. Luiz Sérgio da Cruz de Oliveira. Caroline Alciones faz traduções e revisões no campo das artes, além de ter participado da curadoria das exposições Arte e Cultura indígena do povo Karajá e Genealogia Nobiliárquica do Teatro Brasileiro. Atualmente, trabalha junto ao PROJETO SOCIAL A TOCHA!

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