O Brasil sempre esteve de costas para o restante da América Latina, mas, ironicamente, vive ciclos paralelos aos demais países do continente. Estamos passando pela nova era do “colonialismo midiático”, os “cidadãos Kanes” da América Latina são os novos coronéis e a “política da Boa Vizinhança” ganhou ainda mais poder quando se uniu aos oligarcas da grande mídia.

Nas últimas eleições na Argentina, no dia 25 de outubro, durante o segundo turno, Mauricio Macri (partido “Cambiemos”) ganhou as eleições com 51% dos votos, deixando o candidato Daniel Scioli (Frente para la Victoria) com 48% dos votos. Mas hoje, a mais ou menos 90 dias de gestão de Macri, podemos observar a quantidade de pessoas descontentes com as novas medidas tomadas pelo presidente neoliberal.

São mais de 30.000 cidadãos na rua que, retornando das suas férias, receberam nas suas caixas de correio, além da conta de luz que subiu em torno de 700%, uma carta informando que foram desvinculados dos organismos do Estado onde trabalham. Pablo Avelluto, o atual ministro da cultura, a sangue frio justifica as últimas medidas: “No se trata de humanidad o piedad, se trata de modernizar”. A nova gestão se esquece, porém, que os últimos doze anos foram conhecidos como a maior construção de metros quadrados destinados à cultura, momento em que 3,8% do PIB do país foram produzidos por este setor.

Como forma de desmantelar os meios de comunicação que pretendem discutir e denunciar a nova situação política no país, uma das medidas tomadas foi tentar demitir o presidente do diretório da AFSCA (Autoridad Federal de los Servicios de Comunicación), Martín Sabbatella. Mesmo com uma ordem judicial para poder permanecer no seu posto, Sabbatella foi impedido, através de força policial, de ingressar ao prédio onde trabalhava:

Mas qual é a importância dessa figura na Argentina? Sabbatella é um dos grandes apoiadores da Lei dos Meios de Comunicação. Lei que, em linhas gerais, foi criada para impedir o monopólio da informação, tornando livre e plural a comunicação no país. Governo aliado ao grupo Clarín, “Cambiemos” veio, contudo, reforçar o privilégio exclusivo das grandes corporações midiáticas que foram suas grandes aliadas na conquista dos 51% do seu eleitorado. E Macri, com suas garras que controlam os meios de comunicação, resolveu censurar e fechar programas que são conhecidos como grandes críticos da gestão neoliberal no país. Programas como “6,7,8”, “TVR” e “Duro de Domar” foram tirados do ar. Victor Hugo Morales, jornalista de renome no país foi demitido do programa de rádio, com falsas desculpas de falta de audiência. 

Canais como C5N estão sendo impedidos de transmitir as últimas passeatas contra as últimas demissões. Já não se pode sair para protestar porque o governo lançou o “protocolo anti piquete” que busca reprimir, violentamente, qualquer manifestação nas ruas. As “Madres de Mayo”, que todas as quintas-feiras fazem uma ronda na Praça desde a época da Ditadura pela memória e justiça dos seus filhos mortos e perseguidos, já foram impedidas de protestar.

Estamos “Muito além do cidadão Kane”, que revisa nossas redes sociais e em base a isso manda um telegrama avisando que estão passando por uma “modernização”. Ana Gerchenson, diretora da Rádio Nacional, nos confirma isso:

Pelos motivos que publicamos e por tudo que está deixando de ser publicado é que são poucos os brasileiros que estão sendo informados sobre as atrocidades da gestão de Macri. O circo midiático já está armado aqui na Argentina, os argentinos estão sofrendo perseguição política por aquilo que acreditam, por pesarem de maneira distinta à ideologia de “Cambiemos”. Mas essa “modernização” já é bastante antiga, pois nos faz lembrar à Itália de Mussoline, quando para acender a um posto do Estado deveria estar afiliado ao partido fascista.

Texto escrito por Manga, pseudônimo da jornalista que nos relata a política e cenário cultural argentino diretamente do país e prefere não se identificar para evitar retaliações do governo ao seu emprego.

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