Foto: NelsonPretto

Segundo o que foi noticiado, o colecionador João Sattamini não renovou o contrato de comodato referente à sua coleção com o Museu de Arte Contemporânea de Niterói e, com isso, há a possibilidade concreta de vir a retirar suas obras do museu. De volta ao passado, cabe lembrar que em 1991, o empresário-colecionador solicitou à Prefeitura de Niterói a criação de condições adequadas para receber sua coleção. Por sua vez, Prefeitura e Secretaria de Cultura da cidade recorreram a Oscar Niemeyer para a criação de um projeto arquitetônico daquilo que viria a ser o Museu de Arte Contemporânea de Niterói. O arquiteto escolheu o lugar onde o museu foi erigido e, a partir de sua escolha, definiu os contornos que o museu ganharia. As obras do projeto-arte de Niemeyer tiveram início e, em 1996, o museu foi inaugurado.

 

Assim, podemos observar a influência do empresário-colecionador que, a partir de sua coleção de arte moderna e contemporânea, encontrou respaldo para que recursos públicos fossem investidos na construção de um museu destinado a abrigar uma coleção particular. Um museu de arte contemporânea, construído nas terras de Araribóia, nas terras banhadas pelas águas escondidas, com uma vista de outra perspectiva para o Rio de Janeiro; um museu desenhado por um de nossos mais renomados arquitetos. A Prefeitura de Niterói comprou – literalmente – a proposta do empresário-colecionador.

 

Neste contexto, a ameaça de não renovação do contrato de comodato com o MAC-Niterói, que começa a ser cumprida, parece carrear conotação de barganha no intuito de valorizar a coleção ao mencionar o interesse de outras instituições e, ao mesmo tempo, não fornecer seus nomes, apenas fazer menção à Pinacoteca de São Paulo. Quando indagado a respeito de retirar a coleção de Niterói, Sattamini diz não querer fazê-lo e muda de assunto. Afinal, que outra instituição daria o espaço e a visibilidade para coleção de Sattamini que o MAC-Niterói deu e continua a propiciar?

 

Por outro lado, não se trata aqui de formatar a Prefeitura de Niterói como vítima de ameaças já nem tanto veladas do empresário-colecionador. Antes e ao contrário, o posicionamento dos gestores das políticas públicas de Niterói deveriam considerar em suas decisões o fato de tratar-se de investimento público em uma coleção particular, em uma relação que, em uma última instância, acaba por gerar lucros para o empresário-colecionador, considerando-se que sua coleção recebeu uma visibilidade e uma valorização sem precedentes, sendo mesmo capaz de despertar o interesse – hoje – de outras instituições de arte no Brasil e mesmo no exterior. Esses gestores das políticas públicas de Niterói deveriam enfrentar uma questão que nos parece relevante: em quanto se valorizou a coleção Sattamini nos últimos 25 anos, desde os primeiros contatos com a Prefeitura de Niterói que resultariam na criação do MAC-Niterói em 1996? E confrontar essa questão com outras que apontam para a destinação dos recursos públicos e ganhos concretos para a população da cidade de Niterói. Uma coisa é certa: caso a coleção venha a deixar o MAC-Niterói, o valor de saída será bem superior ao de entrada.

 

Quando em entrevista ao jornal O Globo, o empresário-colecionador provocou com um “quem conhecia Niterói antes do MAC?” e esqueceu-se, no entanto, do passado da cidade e da atração que sempre exerceu por suas águas escondidas. Apesar de ser verdade que o MAC-Niterói trouxe mudanças significativas para a cidade, transformando seu entorno, transformando-se em símbolo da cidade e atraindo turistas do mundo todo, também é verdade que o interesse que o MAC-Niterói desperta concentra-se nas linhas arquitetônicas e na reputação internacional do arquiteto genial, que se soma à paisagem retumbante da obra do Criador, apenas tangenciando a coleção Sattamini, relegando-a a uma quase desnecessidade que poderia ser substituída por um “Poste”. De qualquer maneira, se os gestores enfrentarem essas questões talvez concluam que a coleção Sattamini foi a grande beneficiária desse encontro entre público e privado nas águas escondidas do lado de cá da baía de Guanabara.

 

Despeço-me desta coluna com o desejo de que o “cubo redondo”, conforme descrito com argúcia em outras páginas, tenha dias mais agradáveis e verões mais frescos; que as águas de março fechem este verão de forma generosa tanto para o MAC-Niterói quanto para esta cidade que me cativou. Aproveito para, juntamente com as águas que estão por fechar este verão, encerrar minha participação nesta coluna, após ter percorrido as quatro estações, com “promessa de vida em [meu] coração”: pode ser pau, pode ser pedra, mas não é o fim do caminho.

 

Até breve.

Caroline Alciones

PS> Agradeço a Luiz Sérgio de Oliveira pelo apoio e pela fotografia gentilmente cedida.

 

 

 

*Escrito por Caroline Alciones, mestranda do Programa de Pós-Graduação em Estudos Contemporâneos das Artes da Universidade Federal Fluminense (UFF). É bacharel e licenciada em Letras Português-Inglês pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e bacharel em Produção Cultural pela UFF, tendo sido bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) da Universidade Federal Fluminense (2012-2013), é membro do grupo de pesquisa CNPq “Arte e Democracia: produção e circulação da arte na contemporaneidade” sob orientação do Prof. Dr. Luiz Sérgio da Cruz de Oliveira. Caroline Alciones faz traduções e revisões no campo das artes, além de ter participado da curadoria das exposições Arte e Cultura indígena do povo Karajá e Genealogia Nobiliárquica do Teatro Brasileiro. Atualmente, trabalha junto ao PROJETO SOCIAL A TOCHA!

Participou da primeira equipe de colunista do TagCultural, contribuindo com seus textos sobre Artes Visuais de 07 de abril de 2014 à 09 de março de 2015.

Caroline Alciones
Caroline Alciones é mestranda do Programa de Pós-Graduação em Estudos Contemporâneos das Artes da Universidade Federal Fluminense (UFF). É bacharel e licenciada em Letras Português-Inglês pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e bacharel em Produção Cultural pela UFF, tendo sido bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) da Universidade Federal Fluminense (2012-2013), é membro do grupo de pesquisa CNPq "Arte e Democracia: produção e circulação da arte na contemporaneidade" sob orientação do Prof. Dr. Luiz Sérgio da Cruz de Oliveira. Caroline Alciones faz traduções e revisões no campo das artes, além de ter participado da curadoria das exposições Arte e Cultura indígena do povo Karajá e Genealogia Nobiliárquica do Teatro Brasileiro. Atualmente, trabalha junto ao PROJETO SOCIAL A TOCHA!

DÊ SUA OPINIÃO