teatro1 (1)No 13º Festival Internacional Intercâmbio de Linguagens, fui conferir Ludwig/2 da Artesanal Cia. De Teatro. O FIL possibilita uma troca multidisciplinar acolhedora e abrangente: abarca espetáculos para crianças e adultos e conta, este ano, com 20 peças da França, Dinamarca, Holanda, Austrália, Canadá e Brasil.

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A diluição das fronteiras aconteceu, a luz se fez e conheci Ludwig II, rei da Baviera. A montagem da Artesanal Cia. De Teatro – a terceira adulta do grupo – é resultado de uma residência artística de um projeto inscrito em 2013 que, após ser contemplado, obteve 3 meses na Internationales KünstlerhausVilla Waldberta, com o patrocínio da Secretaria de Cultura de Munique.

Encerrada a temporada na Alemanha, felizmente houve a oportunidade do público brasileiro conferir a história de Ludwig, esse rei visionário e sensível, que assumiu o trono aos 18 anos com aspirações pouco políticas. O seu foco era em construções arquitetônicas e artísticas que, por seu anseio megalomaníaco em castelos e palácios, investiu fortunas provocando seu afastamento ao ser declarado como louco. E foi no lago Starnberger, três dias após ser retirado do poder, encontrado afogado.

 

Esses dados são os fatos abordados pelo espetáculo que não são ignorados pela Alemanha, pelas informações históricas gerais. Entretanto, o que se passa em cena é um nível mais profundo dessa “loucura”, camadas densas do conflito vivido pelo rei. A dramaturgia atinge todos esses feixes de luz e sombras da personalidade e da realidade de um ser humano oprimido. Assinado por Gustavo Bicalho, o texto é dividido em três capítulos (com uma introdução que tem seu clima retomado na última parte) é impactante: humano, perspicaz, atual, acessível, universal. No primeiro bloco, trata da sua relação com sua prima Sophie e muitas das cartas trocadas entre eles. No entanto, essa união nunca aconteceu, já que Richard Hornig, chefe da cavalaria, teve um romance com o rei quando se conheceram durante o noivado de Ludwig. Após esse segundo capítulo abordando a sua inviável relação homossexual, Ludwig é capturado em sua solidão mais intensa, isolado nas torres de seus castelos, e abafado por um regime e um posto que não contemplavam a dimensão da sua humanidade.

 

O texto de Gustavo Bicalho compete ao tamanho da alma de Ludwig II ao trazer sua realidade, suas utopias, além de epifanias sobre a existência humana reverberando em lapsos de reflexão sobre quem realmente somos, o que é felicidade. A encenação de Gustavo ao lado de Henrique Gonçalvez e Daniel Belquer nos guia ao longo de cada ação, fala, legenda, iluminação, projeção de imagens e direcionamento musical. A fluidez dos movimentos está ajustada com a transmissão da mensagem de cada passada cênica – se perdemos alguma informação é porque nos pegamos imersos demais em ideias. O texto atrelado a encenação nos preenche de questionamentos e, Ludwig é “somente” a isca que todos nós mordemos.

 

Mesmo que invadidos pela vida de Ludwig e seus amores impossíveis, não posso deixar de mencionar a iluminação de Rodrigo Belay e a direção musical de Belquer, novamente. É preciso frisar a pertinência de todas as influências musicais apresentadas em cenas: da música brasileira à eletrônica passando pelo requinte erudito, músicas graves e dramáticas bem como animadas e joviais. A sonoridade atrai para o clima proposto e radicalmente modificado em diversos momentos. A iluminação acompanha em todos os ambientes, seja na utilização do contra, focos laterais, centrais, ou mesmo a atmosfera das lâmpadas nas laterais formando dois corredores que “caem do céu”. A variedade musical é chocante, a iluminação é tocante. Ludwig foi patrono de Richard Wagner, o responsável pelo brotar da iluminação cênica. Curiosamente e coincidentemente, temos nos artifícios de luz deste espetáculo um trabalho primoroso e arrebatador. Se Ludwig está bem representado, Wagner também está. Acessamos a mente sonhadora de Ludwig, escolhemos subir e entrar no seu castelo, dentro da sua insanidade a cada golpe de luz. A modulação da mesma é conectada à proposta cenográfica onde os poucos elementos respiram de acordo com o alcance da visão do espectador; o que a iluminação dita, o cenário obedece e se molda.

 

Ludwig 2

 

O elenco é composto por Manoel Madeira (Ludwig), Suzana Castelo (Sophie Charlote) e Andreas Mayer (Hornig) – ator alemão convidado. O time estabelecido é um triângulo isósceles, com Ludwig destacado no vértice acima, e Suzana e Andreas respirando na base em relação ao compasso que Manoel dá ao protagonista. O que é inevitável comentar é a disponibilidade de Manoel, do seu mergulho na excentricidade de um homem fora dos padrões atuais e antigos. Sua interpretação preenche de fé o teatro enquanto entidade e perpetua a emanação viva da cena: está acontecendo aqui na minha frente. O universo onírico e perturbado, naturalmente, é distanciado do espectador consciente, mas cabe ao excelente trabalho de ator relembrar que estamos ali com ele e que somos parte do seu inconsciente.

 

A indumentária respeita a neutralidade, proposta também pelo cenário, e sua capacidade de libertar o ator para a realização de quaisquer modificações, principalmente as que partem do íntimo.

 

Para além da sexualidade que faz parte da trajetória do rei, dos seus amores impossíveis, da sua potente expressividade criativa, Ludwig/2 convoca a indagações sobre nosso papel e nossa função, entre o que esperam que sejamos e o que nos regozija ser. Fiquem atentos à programação da companhia e não percam. A Artesanal Cia. de Teatro presenteia o Teatro, portanto, presenteia todos nós.

 

Ludwig/2
http://www.artesanalciadeteatro.com.br/

Festival Internacional Intercâmbio de Linguagens – FIL
http://fil.art.br/

Hikari Amada
Hikari tem uma certeza na vida: teatro. Ele se apresenta não como um hobby, um desejo, uma carreira; é um dogma. Canceriana camuflada de maquaigem aquariana e sabor agridoce de leão tem mania de transformar tudo em poesia sarcástica, mas sempre com uma boa dose de impacto (lê-se drama). Integrou as cias. Trupe do Experimento e Sociedade das Artes. Já fez teatro infantil, adulto, musical e deu pinta em novela. Atriz formada na Escola Técnica Estadual de Teatro Martins Pena, estuda Produção Cultural na Universidade Federal Fluminense (UFF) e trabalha no Centro Cultural da Justiça Federal. Assim que finalizar a formação de ensino superior, pretende expandir os horizontes teatrais, espirituais e filosóficos.

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