Falar da “crise criativa de Hollywood” é um lugar-comum quando se fala de adaptações, remakes e qualquer filme que não apresente lá algo de muito novo. Se Hollywood está em crise ou não, a melhor pessoa para comentar isso é a minha colega de blog Thais Napomuceno em seu espaço. Eu particularmente acho que não, mas em se tratando de adaptações literárias, o velho clichê de que o “filme é sempre pior do que o livro” nem sempre é verdadeiro.

Calma, eu não estou dizendo que adaptações são sempre melhores, ou que os livros sempre ganham do filme. Na verdade, essa comparação é bem rasa e sem sentido. Literatura e cinema são coisas diferentes. Cada arte tem a sua linguagem e sua lógica própria. A maior acusação que se pode fazer à adaptação cinematográfica de um filme é a ausência de fidelidade à obra original. Mas será que exigir fidelidade de um filme não é justamente o que impossibilita um filme realmente original?

Salvo algumas exceções, a fidelidade de um filme só é possível em relação ao enredo. A sequência cronológica de um determinado livro deve ser respeitada, as tramas não podem ser tocadas e o filme perde toda a capacidade de articular diferentes possibilidades de montagem, áudio e som para exibir uma história com narrativa clássica, cronologia linear e nada de novo. Um exemplo recente é a adaptação de A culpa é das estrelas, filme bem fiel, mas pouquíssimo original. Bonitinho, mas ordinário. (Ok, façamos justiça, a pretensão de John Green não era escrever um grande livro e sim algo acessível, engraçado, e facilmente digerível para todas as idades. E conseguiu).

A teoria literária é riquíssima sobre os aspectos de um romance, o que enriquece ou não um texto. Apesar de o enredo ser sempre a primeira coisa que se fala quando se pensa na história de um livro, o estilo do autor e o fluxo narrativo são os grandes protagonistas. Sim, a forma é o principal ingrediente de um livro, é o que faz do escritor um autor. É a marca de pessoalidade que ele deixa no texto. Não é à toa que Mario Quintana dizia que o estilo era apenas uma dificuldade de expressão. Quando o autor diz algo de determinada forma, ele está se negando a dizer a mesma coisa na infinidade de possibilidades que ele poderia usar.

Essa é a grande dificuldade da adaptação cinematográfica: além do enredo, como captar essa questão tão essencial quanto o estilo de um autor, suas tiradas e ironias textuais, no meio audiovisual? Os diretores menos criativos usam a voz over: uma voz onipresente que permeia o filme, de forma didática e fácil. Os diretores originais abrem a mão da necessidade de serem fieis ao autor de um livro e desenvolvem a própria linguagem. Não é à toa que mesmo em Hollywood, onde o cinema não é tão autoral quanto na cultura cinematográfica europeia, o nome do diretor sempre tem mais destaque do que o do roteirista.

Bem, dito isto, vamos ao que prometemos no título e citaremos algumas adaptações que deram certos e outras que, bem, nem tanto. (Harry Potter ficará de fora por ser unanimidade tão afirmada que seria repetitivo).

 

O Iluminado.

O iluminado é a síntese de tudo o que eu escrevi acima. O filme não é a mera adaptação da obra de Stephen King. Stanley Kubrick toma a liberdade de pegar uma história pronta e adicionar o que acha que deve. O resultado é um dos melhores filmes de terror de todos os tempos. Aliás, o escritor ficou tão revoltado com a infidelidade de Kubrick que se aventurou em uma outra adaptação, mais fiel, que não chegou a ter metade do reconhecimento deste clássico.

Clube da luta

A adpatação de David Fincher é tão boa quanto o livro genial de Chuck Palahniuk. Chuck possui um estilo memorável e forte, sem convencionalismo, e nós podemos dizer o mesmo de David Fincher. Eu até falaria mais sobre ele, mas a primeira regra é justamente não falar sobre o clube da luta.

O segredo de Brokeback Mountain

A história dispensa apresentações depois de toda a polêmica de um casal gay como protagonista de uma história em pleno século XXI. O filme foi baseado em um conto de Annie Poulx, e se tornou maior do que a história original. Vale a pena conferir os dois.

As vantagens de ser invisível

 Tá aí um filme que conseguiu ser melhor que o livro original. Qualquer um que já passou pela adolescência consegue se identificar com os dilemas de Charlie, os traumas, os primeiros afetos e a busca por um lugar para se encaixar. O livro é bom, mas o filme parece ter conseguido dar um significado ainda maior para a história. (Detalhe: o autor do livro também é o diretor do filme, o que explica muita coisa)

Crepúsculo

 

O livro é ruim. O filme é ruim. Próximo.

 Código Da Vinci

O livro é ruim. O filme é ruim. Próximo. [2]

 O grande Gatsby

O livro de Fitzgerald jamais teve uma adaptação à altura. Isso se deve muito ao estilo do autor, o principal charme do livro. O diretor Baz Luhrmann bem tentou retratar toda a extravagância da elite americana pós-Primeira Guerra, mas o resultado foi um filme morno e que parece mais um videoclipe.

 O retrato de Dorian Gray

 

A genialidade de Oscar Wilde também já sofreu muito com as adaptações para o cinema. Essa versão de 2009 consegue dar uma estética de crespúsculo, enquanto diminui a profundidade psicológica dos personagens (nunca vou perdoar o diretor pelo que ele fez com um dos personagens mais brilhantes da história da literatura, Henry Wotton), decepa a história e transmite vergonha alheia. Para falar a verdade, só coloquei o trailer por obrigação, mas cá entre nós, nem isso você precisa ver.

 E para vocês? Quais foram as melhores e piores adaptações para o cinema já feitas? Não deixe de dizer nos nossos comentários!

*Escrito por Yago Barbosa – Fã de literatura desde pequeno, obcecado por ciências sociais e cognitivas, amante de fotografia e design gráfico, Yago Barbosa transita entre a multidisciplinaridade e um interesse genuíno de entender como os meios de comunicação operam e quais são as consequências de um mundo midiático. Estudante de Comunicação Social, na Escola de Comunicação da UFRJ, se especializando em Produção Editorial, em sua breve história como gente grande já atuou como designer em uma grande empresa de logística; participou de projetos de iniciação científica; na organização do Seminário Internacional de Fotografia e Experiência, em 2012 no Centro Cultural da Justiça Federal; e atualmente é estagiário de Ficção Estrangeira no Grupo Editorial Record, o maior conglomerado editorial da América Latina. Espantado com os poucos sites e materiais publicados no país sobre o mercado editorial, pretende compartilhar dados, informações e tendências do mercado de forma crítica e acessível.

Participou da primeira equipe de colunista do TagCultural, contribuindo com seus textos sobre Literatura de 02 de abril à 02 de agosto de 2014.

Yago Barbosa
Fã de literatura desde pequeno, obcecado por ciências sociais e cognitivas, amante de fotografia e design gráfico, Yago Barbosa transita entre a multidisciplinaridade e um interesse genuíno de entender como os meios de comunicação operam e quais são as consequências de um mundo midiático. Estudante de Comunicação Social, na Escola de Comunicação da UFRJ, se especializando em Produção Editorial, em sua breve história como gente grande já atuou como designer em uma grande empresa de logística; participou de projetos de iniciação científica; na organização do Seminário Internacional de Fotografia e Experiência, em 2012 no Centro Cultural da Justiça Federal; e atualmente é estagiário de Ficção Estrangeira no Grupo Editorial Record, o maior conglomerado editorial da América Latina. Espantado com os poucos sites e materiais publicados no país sobre o mercado editorial, pretende compartilhar dados, informações e tendências do mercado de forma crítica e acessível.

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