Mais da metade da população brasileira não tem o hábito da leitura, e ainda assim há quem critique quando este ou aquele livro faz sucesso. É como estar em um restaurante e se dar o luxo de jogar comida fora, mesmo sabendo que do lado de fora há gente passando fome. Não basta ler, tem que ler Dostoiévski, Tolstói, Machado de Assis. Se não leu, não tem problema, basta citar alguns trechos com a confiança de um crítico literário e você será respeitado.

Se você me perguntar sobre minhas preferências literárias, os autores que eu citei acima não vão estar fora da minha resposta. Quando entro em uma livraria, vou direto procurar a sessão em que se encontram escritores já da minha preferência e alguns que não li, mas que são bem recomendados. Passo direto pela bancada da frente, na qual estão os lançamentos do mês. Mas cá entre nós, cedi à tentação e li A culpa é das estrelas, do John Green – a única coisa que atrapalhava a leitura é que volta e meia caía um cisco no meu olho e eu começava a lacrimejar…

É natural que, quando se desenvolve a prática da leitura, você crie referências próprias que guiam a escolha de um livro. Mas é preciso deixar claro que há um grande abismo entre ter preferências literárias e estigmatizar outros tipos de literatura por ser mais comercial.

Eu particularmente não acredito mais na distinção entre arte e comércio. Irving Peen, um dos nomes mais conhecidos da fotografia, tem entre os seus trabalhos mais célebres uma campanha publicitária para a Clinique. Até mesmo o cinema só existe à medida em que há público.

Vale lembrar que Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez, foi o grande best seller dos anos 70. Umberto Eco já fazia sucesso com sua literatura policial envolvendo conspirações, cristianismo e misticismo, quando Dan Brown ainda estava na mamadeira (diga-se de passagem, a obra de Umberto Eco dá de dez a zero em termos de trama e suspense). E Jorge Amado, que virou até novela da Globo?

Se o livro é um produto, por que o sucesso de suas vendas é motivo para deixar um pé atrás?

Apesar de nós vivermos em um mundo de verdades estabelecidas, onde tudo o que é costumeiro parece natural e que sempre foi assim, a leitura de livros é um episódio recente na nossa história. Mesmo com a invenção da imprensa, feita por Gutembergh em 1439, demorou muito para que a leitura fosse acessível.

Durante muito tempo, os livros sérios, que “valiam a pena serem lidos”, eram os que abrangiam as áreas do conhecimento (geralmente de filosofia ou direito) e as poesias. O romance, esse gênero em prosa e narrativo, até pouco mais de cem anos atrás era considerado literatura de segunda classe. Não é à tôa que, na França, Victor Hugo, Flaubert, Balzac e Alexandre Dumas vivessem na mesma época e fossem amigos, mas só o primeiro foi escolhido para a Academia Francesa (a que inspirou a Academia Brasileira de Letras). Desses escritores, era o único que apresentava também uma literatura em forma poética, em versos, que até hoje na França é mais lembrada do que seu clássico Os Miseráveis.

O próprio romance, para fazer sucesso, teve que se vender na forma de folhetins. Os livros eram vendidos em capítulos aos jornais, que publicavam um a cada edição. Dessa forma, vieram a público obras como Memórias Póstumas de Brás Cubas (na minha opinião pessoal, a melhor já escrita em língua portuguesa). Emma Bovary, clássica personagem de Flaubert, é também um retrato das consumidoras de livros do século XIX, que recebiam em casa um mercador com a listinha de livros de sucesso, geralmente água com açúcar. Só para registrar, as mulheres sempre foram as grandes consumidoras de livros.

Ou seja, os best sellers não são uma realidade nova, uma marca da degradação de uma literatura que se entregou ao poder capitalista, mas uma realidade que sempre existiu desde o momento em que as pessoas puderam ter acesso a ao livro de forma mais ou menos democrática.

Além do mais, há outra questão que eu pude aprender na prática como estudante de produção editorial e enquanto trabalhei no maior conglomerado editorial do país, o Grupo Editorial Record. Só existe literatura “boa” à venda porque existem os best sellers. Em um país com índices africanos de alfabetização, uma literatura que exige bagagem cultural é sinônimo de perda de lucro, grande parte das vezes. O único motivo para que os editores ainda insistam em livros com maior qualidade literária é saber que há uma série de livros que serão esquecidos em alguns anos, mas que venderão todo o estoque assim que forem postos à venda. Em outras palavras, por trás de todo livro “bom” existe um best seller pagando as contas.

Para finalizar essa coluna, deixo um vídeo do pessoal do site Literatortura sobre o assunto. Assistam e comentem. E lembrem-se: ler é a forma mais simples de se condenar à liberdade.

*Escrito por Yago Barbosa – Fã de literatura desde pequeno, obcecado por ciências sociais e cognitivas, amante de fotografia e design gráfico, Yago Barbosa transita entre a multidisciplinaridade e um interesse genuíno de entender como os meios de comunicação operam e quais são as consequências de um mundo midiático. Estudante de Comunicação Social, na Escola de Comunicação da UFRJ, se especializando em Produção Editorial, em sua breve história como gente grande já atuou como designer em uma grande empresa de logística; participou de projetos de iniciação científica; na organização do Seminário Internacional de Fotografia e Experiência, em 2012 no Centro Cultural da Justiça Federal; e atualmente é estagiário de Ficção Estrangeira no Grupo Editorial Record, o maior conglomerado editorial da América Latina. Espantado com os poucos sites e materiais publicados no país sobre o mercado editorial, pretende compartilhar dados, informações e tendências do mercado de forma crítica e acessível.

Participou da primeira equipe de colunista do TagCultural, contribuindo com seus textos sobre Literatura de 02 de abril à 02 de agosto de 2014.

Yago Barbosa
Fã de literatura desde pequeno, obcecado por ciências sociais e cognitivas, amante de fotografia e design gráfico, Yago Barbosa transita entre a multidisciplinaridade e um interesse genuíno de entender como os meios de comunicação operam e quais são as consequências de um mundo midiático. Estudante de Comunicação Social, na Escola de Comunicação da UFRJ, se especializando em Produção Editorial, em sua breve história como gente grande já atuou como designer em uma grande empresa de logística; participou de projetos de iniciação científica; na organização do Seminário Internacional de Fotografia e Experiência, em 2012 no Centro Cultural da Justiça Federal; e atualmente é estagiário de Ficção Estrangeira no Grupo Editorial Record, o maior conglomerado editorial da América Latina. Espantado com os poucos sites e materiais publicados no país sobre o mercado editorial, pretende compartilhar dados, informações e tendências do mercado de forma crítica e acessível.

1 COMENTÁRIO

DÊ SUA OPINIÃO