Imagine a seguinte cena: dois enormes teatros, um ao lado do outro, geograficamente 30 passos de distância entre eles, os dois com apresentações de ballet clássico em plena terça-feira à noite. Na bilheteria de um deles, com capacidade para 2.586 pessoas, ingressos quase esgotados; no outro, casa lotada, 3.800 ingressos vendidos e do lado de fora pessoas segurando uma folha A4 com o singelo pedido “preciso de um ingresso”.

Parece sonho de algum produtor/amante da cultura, mas é realidade. Presenciei essa cena no último dia 3 de junho em New York, os teatros os quais me refiro são respectivamente o David H. Koch Theater, casa do New York City Ballet; e o Metropolitan Opera House, residência do prestigiado American Ballet Theatre. No Met, uma apresentação do espetáculo Manon, com Marcelo Gomes (brasileiro) e Diana Vishneva (russa) nos papéis principais, causava o reboliço do lado de fora e dentro do teatro. Eu, maravilhada, quase não entrei no avião de volta pra casa.

Podíamos passar horas discutindo os hábitos e o poder financeiro da população de NY que influenciam a lotação constante desses teatros durante as temporadas, mas sabemos que não é um ou outro fator isolado que proporciona esses resultados, e sim um conjunto deles. E desses todos, eu prefiro me ater em outra discussão, uma muito mais “concreta”, física, que envolve estratégia/planejamento/marketing e com diversos exemplos comprobatórios.

O que ambos os teatros tinham em comum? Estavam localizados no Lincoln Center for the Performing Arts. O meu novo espaço favorito no mundo é nada mais que um polo cultural sem fins lucrativos. Foi construído na década de 1950 durante o plano de reurbanização de Robert Moses e ocupa uma área de cerca de 61.000 m². O complexo foi construído através da iniciativa cívica, com destaque para John D. Rockefeller III, e com fundos privados (queria por essa parte em neon piscante em fonte 500, mas o site não deixou). Custou $184.5 milhões de dólares. Arquitetos conceituados foram contatados para projetar os principais edifícios no local. O complexo foi o primeiro a realizar o encontro das principais instituições culturais em um local centralizado em uma cidade americana, e durante os 30 anos seguintes, a área previamente em torno do Lincoln Center tornou-se um novo centro cultural.

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Do centro, três edifícios, Avery Fisher Hall (ex-Philharmonic Hall), David H. Koch Theater (antigo New York State Theater) e o Metropolitan Opera House foram abertos, em 1962, 1964 e 1966, respectivamente. Localizado no Upper West Side de Manhattan, entre a Columbus Avenue e a Amsterdam Avenue e entre a West 62nd e a West 66th Street, o local é um complexo de prédios localizados geograficamente muito próximos, que abrigam 11 importantes organizações culturais. São elas:

  • The Chamber Music Society of Lincoln Center
  • The Film Society of Lincoln Center
  • Jazz at Lincoln Center
  • The Juilliard School
  • Lincoln Center for the Performing Arts, Inc.
  • Lincoln Center Theater
  • The Metropolitan Opera
  • New York City Ballet
  • New York Philharmonic
  • The New York Public Library for the Performing Arts
  • The School of American Ballet

Cada organização tem sua própria administração, programa, divulgação, conselho de diretores, etc., com seu próprio espaço extremamente bem equipado para as suas necessidades. O Met e o David Koch fazem o Theatro Municipal do Rio de Janeiro parecer que encolheu. Porém, apesar de terem sua individualidade possuem algo que os fortalecem e faz todo o diferencial, o fato de ser um centro! Essa integração física e essa unidade em forma de complexo permite que se tornem uma referência em cultura. Fortalece a imagem do todo e de cada um individualmente. (Isso pode ser estudado pela ótica das associações em rede, falei disso no meu TCC)

Se cada organização teria sua excelência individualmente? Claro, sem dúvida. Se seria desse porte? Com toda a certeza que não. As ações de cada uma foram potencializadas e beneficiadas por essa estrutura. Existe uma administração que busca fundos para o complexo, através de patrocínio e doadores (O Lincoln Center precisa arrecadar $118 milhões de dólares por ano), e realiza diversos eventos ao longo do ano como: American Songbook; Great Performers; Lincoln Center Festival; the Lincoln Center Out of Doors, Midsummer Night Swing, Mostly Mozart, White Light Festivals; and Live From Lincoln Center.

Repare que existem teatros para apresentações e a parte educacional em artes, como as escolas The School of American Ballet e The Juilliard School. Acham que isso é ao acaso, caros amigos? Nada como manter uma educação artística cultural desde cedo. Colocar o jovem no local onde as coisas de fato acontecem.

Isso não é novidade, o centro foi criado com esse objetivo, assim como é descrito no próprio site: “Lincoln Center (Lincoln Center for the Performing Arts) serves three primary roles: world’s leading presenter of superb artistic programming, national leader in arts and education and community relations, and manager of the Lincoln Center campus. In addition, LCPA led a $1.2 billion campus renovation, completed in October 2012.”.

Além disso, restaurantes e bares circundam o Lincoln Center, fazendo com que seja um passeio completo: assistir um ballet no Met e depois apenas atravessar a rua e estar no The Smith para jantar ou andar mais uma rua até o Landmark. Está com muito tempo antes do espetáculo? Que tal dar uma passada na Starbucks da esquina ou na lojinha do teatro? Facilidade, comodidade, hábito.

Eu fico encantada com o quão atraente é o espaço para o espectador, o quanto exala cultura, fomenta, gera novos visitantes do mundo todo, cria oportunidades, traz inovação e artistas de todo o mundo para se apresentarem. E também fico deprimida que não tenha algo desse porte no Rio de Janeiro. Acredito que a união de entidades culturais próximas seja uma ótima forma de crescerem, se fortalecerem no cenário. É mais uma das relações em que todos saem ganhando.

A título de curiosidade, você pode estar se questionando que o centro só atende a classe média e alta, mas não. Além dos programas sociais, há preços para todos os gostos, depende do espetáculo, do artista que se apresenta, do horário (apresentações à tarde são mais baratas que récitas noturnas), do local dentro do teatro, se é dia de semana ou final de semana. Um dos meus ingressos do NYC Ballet custou 29,00 dólares na orquestra (um dos lugares mais caros e lembrando que a divisão dos preços é por assento).

E por essas e outras que quase não voltei pra casa. Achei meu paraíso cultural em NY.

Algumas matérias interessantes:

The New York Times

Harvard Business School

Juliana Turano
Bacharel em Produção Cultural pela Universidade Federal Fluminense e pós-graduada em Gestão Empresarial e Marketing pela ESPM. Idealizadora e gestora do site TagCultural e projetos derivados, trabalhou como produtora de importantes empresas como Grupo Editorial Record, Espaço Cultural Escola Sesc e Rock in Rio, nas edições de Lisboa 2012 e Brasil 2013. Megalomaníaca, criativa, entusiasta da música e do ballet clássico, não perde um espetáculo de dança do Theatro Municipal do Rio de Janeiro ou um festival de música legal. Adora viajar e aproveita suas viagens para assistir espetáculos de importantes companhias como do Royal Opera House e New York City Ballet. Também aproveita para comparar o desenvolvimento cultural de outros países com o do Brasil e sonha que seu país se desenvolva mais nesse campo.

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