No último dia 3, a dança perdeu em Campinas, aos 93 anos, Lina Penteado, a responsável por formar milhares de bailarinas e por colocar o nome da cidade no circuito do balé nacional e internacional. Filha mais velha do engenheiro e arquiteto Lix da Cunha, importante figura campineira que deu nome a uma das mais importantes avenidas do município, Lina trabalhou duro para fazer carreira na dança e, apesar do nome de peso da família, ficou imortalizada com o sobrenome de casada, Penteado.

Lina com o maridoA bailarina Lu Garcia lembra como Lina foi fundamental para a dança em Campinas. “Criou um outro patamar e desenvolveu praticamente todas as bailarinas daqui. Eu sou filha da casa e recentemente voltei para cá. Para mim, ela foi muito importante. Deixou um legado enorme que terá continuidade”, diz.

“A maior referência de todos os tempos da dança clássica de Campinas, e um nome respeitadíssimo em todo o Brasil e Exterior. Insubstituível”, escreveu o produtor Beto Franchi.

Década de 50

Difícil encontrar, nas últimas décadas, uma bailarina campineira que não tenha passado pelas mãos de tia Lina, como Lina Penteado era chamada pelas ex-alunas. Fundadora da academia que leva seu nome, ela começou sua história na dança em 1952, quando abriu uma primeira turma no Jockey Club — na época, Clube Campineiro.

Lina, já naquela época, fez sucesso. Criou sua primeira academia, de dança de salão e sapateado, na garagem de casa. Decidiu se aperfeiçoar também no balé e foi para São Paulo estudar com os russos Paulo e Maria Zamerova. O movimento na garagem aumentou. Lina chamou então Giovana Moraes e Ruslan Graviluck para ajudá-la. Foi assim até 1964, quando ela precisou ampliar a academia para dar conta da demanda.

Em 1970, Lina foi pioneira a filiar-se à tradicional Royal Academy of Dance, de Londres. Sua academia  sediou grandes eventos internacionais e recebeu inúmeras alunas de diversas cidades da região para prestar seus exames.

Outra etapa importante da trajetória da Academia foi a criação, em 1977, do Corpo de Baile Lina Penteado. Formado inicialmente por professoras e alunas dos graus mais adiantados, foi constituído como uma entidade artística sem fins lucrativos e independente da Academia. Oferecendo aprimoramento técnico e artístico, além da possibilidade de uma carreira profissional para os alunos da Academia, o Corpo de Baile Lina Penteado passou a produzir espetáculos de dança do mais alto nível, entre eles:

  • Sinfonia Fantástica, de Hector Berlioz, sobre argumento de autoria do Prof. José Alexandre dos Santos Ribeiro, com a participação da Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas, sob a regência do Maestro Benito Juarez.
  • O Lago dos Cisnes, também com a participação da Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas, sob a regência do Maestro Benito Juarez.
  • Dom Quixote, com música de Minkus;
  • Les Sylphides, com música de Chopin, entre outros.

O notório brilho e o irrepreensível nível profissional de todos esses espetáculos levaram a Câmara Municipal de Campinas, em 1983, a declarar oficialmente o Corpo de Baile Lina Penteado como Órgão de Utilidade Pública Municipal. Finalmente, em 1989, o Corpo de Baile profissionalizou-se passando a se chamar Companhia de Dança Lina Penteado.

Transformada posteriormente em uma companhia de dança contemporânea, manteve-se ativa sob a Direção Artística de Maria Sílvia De Gennaro até 2003. Depois da profissionalização do Corpo de Baile, nasceram novos grupos que representam a academia nos festivais e mostras de dança conquistando inúmeros prêmios.

Ainda na década de 80, Lina Penteado instalou definitivamente a academia nas antigas dependências da Companhia Municipal de Vidros Planos (CMVP). Apesar de ter se projetado pelo ensino do ballet clássico, a Academia ofereceu sempre cursos de diferentes estilos de dança como jazz, sapateado, dança moderna, contemporânea, street dance, flamenco, dança do ventre, dança de salão, etc. Foi uma das primeiras Academias a ter cursos oficializados pelo Ministério da Educação com qualificação técnica em nível de 2º Grau.

Lina1Em 2011, aos 88 anos, decidiu que era a hora de se aposentar. “Tive que parar porque a idade vem e você não tem mais condições de estar todo dia ali. O negócio é cansativo, trabalha muito com a cabeça. Lidar com mães e alunas não é nada fácil.” Mas ela não queria encerrar as atividades: fundiu sua academia com a Íris Ativa, de Liliana Testa, que começou no balé, obviamente, pelas mãos de tia Lina.

Lina Penteado fez muito pela dança de Campinas, e seu legado se perpetuará através de cada aluno que aprendeu com ela e compartilhou de sua luta e amor pela dança.

 

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Liana Vasconcelos
Bailarina formada pela Escola Estadual de Dança Maria Olenewa (Fundação Theatro Municipal do Rio de Janeiro) e pela Royal Academy of Dance, de Londres. Conta em seu currículo com diversas premiações em concursos nacionais e internacionais. Ganhou, em 2009, o prêmio de melhor bailarina no Seminário de Dança de Brasília e foi agraciada com uma bolsa de estudos para o Conservatório de Dança de Viena. Pertenceu à Cia. Jovem de Ballet do Rio de Janeiro, São Paulo Companhia de Dança e se apresenta como bailarina convidada em diversos festivais de dança no Brasil. É Bacharel em Produção Cultural pela Universidade Federal Fluminense (UFF), com a monografia “Memória da Dança: Importância, Registro, Preservação e Legado”. Fez parte do elenco da novela “Gabriela”, da Rede Globo de televisão como bailarina/atriz. Foi contratada pela São Paulo Companhia de Dança, como Pesquisadora, para elaborar duzentos verbetes relativos à dança no Rio de Janeiro, para a enciclopédia online “Dança em Rede”, criada por esta companhia. É também colunista de dança no Blog Radar da Produção É bailarina-intérprete e produtora, junto ao diretor Thiago Saldanha e a coreógrafa Regina Miranda, do projeto “Corpo da Cidade”, uma experimentação em vídeodança que busca dialogar o corpo dançante da bailarina clássica com as transformações urbanas que a cidade do Rio de Janeiro vem sofrendo. Atualmente, é bailarina contratada do Corpo de Baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro É apaixonada pelas artes cênicas, espectadora frequente dos teatros do Rio de Janeiro, ama viajar e vive em eterna dança.

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