Acabei de colocar a minha saia verde-limão, o meu top amerelo-sol e fiz um coque no cabelo para ficar bonito para vocês, e também para falar de Laerte, transformação e quadrinhos (sempre).

Não, não é desse Laerte que vou falar. Sai daí, cara!
Não, não é desse Laerte que vou falar. Sai daí, cara!

Foi 2012 o ano do episódio do banheiro que tornou a cartunista Laerte, já conhecida pela sua transexualidade, em uma das representantes mais populares do movimento transgênero. Me lembro que eu estava na cozinha quando escutei o rádio noticiando o fato. No início fiquei animado, “Nossa, jornalistas falando sobre um quadrinhista? Foda!” Só que aí a matéria foi tomando um ar mais irônico e logo logo virou “as últimas loucuras do cartunista que se veste de mulher”.

Os jornalistas da rádio mostraram indignação por Laerte ter usado o banheiro feminino de um restaurante. Mas em vez de criticar o ato, mas abrir uma discussão, aproveitaram para atacar a figura dela, sem qualquer respeito a um artista tão importante quanto o Ziraldo ou Maurício de Souza. Felizmente, Laerte não saiu prejudicada e acabou que ela se tornou conhecida para um novo público não tão familiarizado com a obra dela. Mas sempre fica a sensação de que se fala pouco de seus quadrinhos em entrevistas. Então decidi resolver isso e jogar uma conversa fiada sobre o trabalho dela.

Antes de mais nada, o trabalho de Laerte desde o início já era genial e transgressor. As suas tirinhas eram cheias de movimentos, cenários e expressões, nunca eram só a cabeça de um personagem falando uma piada. Ele conseguia dar energia aos poucos quadros de suas histórias, o que combinava principalmente com o ar de anarquia total dos Piratas do Tietê, sua mais famosa série. Além disso, sabia usar a imagem para fazer rir. Diferente de muitos cartunistas que depositam a comédia muito no diálogo, Laerte criava verdadeiras piadas visuais.

Piratas do Tietê você encontra em edição de bolso, de luxo, de tudo quanto é jeito.
Piratas do Tietê você encontra em edição de bolso, de luxo, de tudo quanto é jeito.

Notem como a área branca alterada para escura a fim de criar aumentar a tensão no segundo e quarto quadro. E o detalhe que eu mais gosto: a forma como só a mão (quase uma garra) aparece das sombras para fazer mais um risco no aviso. É uma tirinha que vai continuar genial para todo sempre.

Se você pega um colega dela como o Angeli, você nota uma diferença bem grande no estilo. O humor do Angeli é bem centrado na cultura underground, com personagens falando muita coisa suja, muita maconha babada, muito porre e gente esquisita. O humor laertino sempre teve para mim um ar mais circense, mais surreal. Lembra mais besteirol e nonsense.

Os Skrotinhos, de Angeli. Demorei muito até entender que eles fumavam maconha (li as revistas do meu irmão quando era criança). Eu achava que era só um cigarro barato.
Os Skrotinhos, de Angeli. Demorei até entender que eles fumavam maconha e não cigarro barato (li as revistas do meu irmão quando era criança).
Saudade da música do caminhão de gás
Saudade da música do caminhão de gás.

Mas aí os anos passam. O trabalho da Laerte vai se tornando um pouco mais diversificado, mas ainda mantendo a linha de humor original, sem grandes rupturas. Em uma das tirinhas de seu personagem Hugo, um sujeito típico, ela decide brincar com o tema crossdresser.

muriel

E é aí que aparentemente começaram a entrar em contato com Laerte e dizer, “Pô, tu faz tirinha de homem se vestindo de mulher, será que tu não é… bem, você sabe…”. Pelo menos é o que eu ouvi em entrevistas. Foi o ponto de virada de um desejo de mudança que já devia estar rolando há muito tempo. Laerte passou a se vestir de mulher e hoje já se refere no gênero feminino em tempo integral.

Foi praticamente nesse momento que o seu trabalho ergueu a saia e deu uma virada colossal, se tornando mais surrealista e beirando muitas vezes o abstrato. Foi também quando seus leitores começaram a choramingar, “Porra, agora que o Laerte se vestiu de mulher ele só faz coisa maluca. Pirou de vez”.

Nem de longe a mais maluca. Gosto da ideia de que a gente está sempre querendo passar pelo caminho estabelecido, mesmo que ele seja sufocante.
Gosto da ideia de que a gente está sempre querendo passar pelo caminho estabelecido, mesmo que ele seja sufocante.

Mas apesar de nós leitores sempre falarmos de uma mudança radical no trabalho da Laerte, na verdade O Laerte que todo mundo conhecia está presente também nos cartuns novos. O expressionismo, a movimentação, essa energia em tão poucos quadros, o humor, são características que acompanham sempre suas tirinhas.

Tempos modernos.
Tempos modernos.
Lola, melhor quadrinho infantil de todos!
Lola, melhor quadrinho infantil de todos!

Só que agora Laerte pode entrar em contato com todo um conjunto de temas e técnicas que antes não trabalhava. O mais interessante é que um quadrinho dele, o do Hugo, acabou abrindo a porta para uma transformação física e psicológica, e essa transformação abriu a porta para todo um universo criativo dentro dele que gerou sua nova fase dos quadrinhos. (A arte que influencia a vida que influencia a arte.)

Eu acredito que toda transformação é um acesso a uma parte do nosso ser que já existia, mas que espera encontrar um reagente para acontecer. Meio química, sabe? Esse reagente pode ser uma mudança de gênero, um simples corte de cabelo, um música que a gente escuta, um acidente, as pessoas que a gente encontra, principalmente as pessoas.

Por isso me incomoda um pouco quem diz que nunca vai mudar, que eu sou assim e pronto, e mais ainda uma sociedade que força as pessoas a serem um só. Se você for faxineiro, você não pode gostar de arte. Se você é acadêmico, não pode curtir um funk. Um médico com cabelo de metaleiro, imagina? Jornalistas burros, isso não existe — William Bonner deve ser muito informado! Um assassino é sempre um assassino! E se você é de esquerda, por que não vai pra Coreia do Norte, então?

Não.

Nós somos muitos. Com faces de todo tipo. Algumas podem nos assustar e outras nos alegrar.  E não vejo mais nada a fazer, nessa pequena existência conturbada, nesse pequeno planeta, que explorar nossas várias faces. E para isso basta sermos abertos.

Então, nesse novo ano e nos que se seguirem —

Laerte-se.

Társio Abranches
Aluno com mais estrelas douradas na classe de alfabetização da Escola Cachinhos de Ouro, também sou formado em Rádio e TV e em Produção Editorial pela UFRJ, mas não com tanto louvor. Trabalho como revisor de livros, tenho um conto publicado pela Andross Editora, já fui crítico de quadrinhos do site O Grito e vez ou outra faço uma tirinha para confirmar que desenho mal. Você vai me ver falando sem parar sobre quadrinhos e suas páginas que misturam cultura pop, arte, vanguarda, conservadorismo e tudo que couber num balão de fala. Vou mostrar o que tem de melhor e o que tem de pior no mundo do gibi, então não se preocupe se você está por fora do assunto. Acompanhando a coluna você vai entender que tem quadrinho para cada um e que nem tudo é super-herói com cueca para fora da calça. E se você curte cueca para fora da calça, tem lugar para isso aqui também.

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