Sei muito bem o que você está pensando sobre o título: E daí? Não o culpo pela sua ignorância. Sério mesmo. Estou certo de que depois de você ler esse texto, vai mudar de opinião, se ajoelhar e pedir desculpas para mim. Mas, antes de mais nada, você precisa saber sobre Kulechov.

Russo, mas sambava como ninguém, bom botafoguense, do tipo que não desiste nunca, Kulechov foi um grande estudioso do cinema no início do século XIX, e uns dos pais do cinema soviético. Ele ajudou a criar uma nova técnica de montagem (edição) a partir de um experimento que consistia em pegar a mesma imagem neutra de um ator e juntá-la com diferentes imagens de arquivo. Cada versão seria transmitida para um público diferente e a reação do público seria avaliada.

 

Então logo se percebeu que cada público tinha interpretado a reação do ator de maneira distinta. Se vinha depois de um prato de comida, ele sentia fome. Se vinha depois da menina no caixão, luto. Se vinha depois de uma mulher sensual, luxúria. Assim vai. Esse efeito causado pela adição de imagens, alterando a interpretação do espectador, ficou conhecido para sempre de Efeito Kulechov.

Foi o ponto de partida para os cineastas soviéticos perceberem que a montagem não é apenas um artifício técnico. Não é só mudar de um plano fechado para um aberto ou cortar quando há uma mudança de cenário, como era feito no cinema americano da época. A montagem era essencial, pois era o meio para criar ideias. Serguei Eisenstein, símbolo da época, diria que o filme só é criado na hora da montagem.

A ideia é comparar com os ideogramas chineses. Quando você junta o ideograma de árvore com mais dois ideogramas de árvore eles passam a significar uma nova ideia: floresta. Da mesma forma, quando você monta duas imagens cria-se uma nova ideia. E passar ideias era muito importante para a cultura soviética naquela época e logo seria para todo mundo. Afinal, é uma das razões porque as pessoas fazem arte: passar ideias.

Os quadrinhos estão incluídos nessa corrente. E creio que até amplificam o efeito Kulechov, porque nas HQs uma imagem não é só influenciada pela seguinte, é influenciada pela anterior, pela de baixo, de cima; enfim, por tudo que há ao redor. Nós primeiro apreendemos uma página por completo, e depois focamos os detalhes.

Há diversos exemplos de montagem mais pragmática, em que os quadros apenas dividem a sequência em períodos e planos de tamanho diferente. É o tipo de narrativa em que o que está sendo dito é mais importante do que o que está sendo mostrado, ou quando a preocupação é mostrar uma ação.

Malvados, de André Dahmer.
Malvados, de André Dahmer.

 

Cartum de Rafael Sica
Cartum de Rafael Sica

Agora, tem quadrinhos que, se você isola uma imagem, não há muita dica de para onde aquela história vai. Mas essas imagens juntas, numa determinada ordem, formam uma ideia quase certeira na cabeça do leitor. É como se elas imediatamente fizessem piscar uma frase em nossa cabeça. Esse tipo de montagem é muito estimulante, pois é o leitor que faz essa conexão, mesmo que em nível inconsciente. É permitido a ele completar a lacuna entre as imagens.

Dá uma olhada:

Perry Bible Fellowship
Perry Bible Fellowship
Cartum de Gomez
Cartum de Gomez

 

Às vezes acontece de o leitor não conseguir formar a ideia. Ele fica com os olhos apertados mirando uma tirinha que não consegue entender, enquanto todo mundo para quem ele mostra a tirinha se mata de rir. Pode ser porque lhe falta alguma referência (se você não conhece 101 Dálmatas, nunca entenderia o último cartum mostrado). Pode ser que você esteja tentando ler de uma forma convencional demais e precise abstrair. Ou pode ser que o quadrinho seja incompreensível mesmo e que todo mundo tenha rido só para fingir que entendeu e tirar onda contigo.

Mas se você fica surpreso com esse tipo de tirinha é porque ainda não viu autores que trabalham toda uma página. Nesse caso, o entendimento completo da ideia depende não só da forma como é colocada a sequência, mas também da compreensão de todos os quadros juntos em sua unidade maior. Um quadrinhista que eu gosto muito e que volta e meia faz esse tipo de montagem é o Luke Pearson.

Clique no quadrinho para ver bem grande no site.
Clique no quadrinho para ver bem grande no site.

É possível ler sequencialmente com tranquilidade, a leitura é só um pouco fora do padrão, e de vez em quando você vai ter que entortar um pouco o pescoço para ler, mas nada super complicado. No fim, você vai chegar a uma compreensão, mas só prestando atenção nas duas páginas juntas é que realmente se capta a força da narrativa.

A primeira página e a segunda página possuem praticamente a mesma composição, só que inversa. É como se voltássemos ao início, tanto é que o texto do título se completa com o texto do fim, “Nostalgia will waste you” (“Nostalgia vai te esgotar”). Isso nos passa a sensação de ciclo. O personagem está revivendo o passado repetidamente, sem parar. E ao mesmo tempo que esse ciclo se propaga quase infinitamente, o personagem em si, não. Ele envelhece, muda em seu estado físico, enquanto seu estado mental está congelado no ciclo da nostalgia.

Eu não sei quanto a vocês, mas se Kulechov visse uma arte dessas ficaria molhadinho e esqueceria de cinema na hora. Então, se talvez minhas fontes estiverem erradas, e Kulechov não ler quadrinhos (ou ser botafoguense), posso dizer, em minha defesa, que o espírito dele encarnou muitas vezes em vários quadrinhistas nesses últimos anos.

Mas vou dar uma colher de chá para vocês, leitores e leitoras. Não precisam se ajoelhar ou pedir desculpas. Me contento com um “Feliz Natal e boas festas!”, que é o que desejo a vocês. Até a próxima!

Társio Abranches
Aluno com mais estrelas douradas na classe de alfabetização da Escola Cachinhos de Ouro, também sou formado em Rádio e TV e em Produção Editorial pela UFRJ, mas não com tanto louvor. Trabalho como revisor de livros, tenho um conto publicado pela Andross Editora, já fui crítico de quadrinhos do site O Grito e vez ou outra faço uma tirinha para confirmar que desenho mal. Você vai me ver falando sem parar sobre quadrinhos e suas páginas que misturam cultura pop, arte, vanguarda, conservadorismo e tudo que couber num balão de fala. Vou mostrar o que tem de melhor e o que tem de pior no mundo do gibi, então não se preocupe se você está por fora do assunto. Acompanhando a coluna você vai entender que tem quadrinho para cada um e que nem tudo é super-herói com cueca para fora da calça. E se você curte cueca para fora da calça, tem lugar para isso aqui também.

DÊ SUA OPINIÃO