Kaboom! Acabo de explodir um asilo para pandas órfãos, e se não quiser mais pandas torrados é melhor prestar atenção às minhas palavras. Ou melhor, às palavras dos quadrinhos! Então feche a página do site pornô e concentre-se. Pronto? Sigamos.

Imagino que você já tenha lido algum quadrinho uma vez na vida, eles estão em todos lugares: jornais, facebook, livrarias e até, defendem alguns, em paredes de cavernas, desenhados pelos primeiros homens. Geralmente o que captura o leitor em um gibi ou charge é a ilustração. Mas a palavra tem um espaço privilegiado nessa que é chamada arte sequencial. Os grandes artistas sabem que quadrinho não é desenho legendado. Eles tiram a palavra do seu lugar comum no texto e trabalham seu significado como imagem.

Veja bem, um dos desafios do quadrinho é sugerir os sons e as nuances de tom de voz que indicam o estado emocional e a personalidade de uma pessoa. Na literatura, o autor pode simplesmente dizer “João esbravejou com determinação: ‘Seu energúmeno!’” ou “Mariana disse num tom baixo, envergonhada: ‘Oi’.” Nos quadrinhos, não dá.

Quer dizer, pode-se até fazer isso, mas vai parecer muleta para a narrativa se manter em pé. Da mesma forma que acontece com filmes onde um narrador em off te explica tudo o que você vê. Ninguém gosta disso. Por isso o que se faz é trabalhar o desenho da palavra: a escolha da fonte, a grossura do traço, o tamanho, o espaçamento, a interação com o personagem. Cada canto pode ampliar o significado.

Por exemplo, uma solução fácil para o caso do João e da Maria seria alterar o tamanho: o ENERGÚMENO gigante, e o oi pequenininho. Isso é básico. Então vamos para algo mais hardcore, para uma cena do quadrinho Scott Pilgrim contra o Mundo, em que Knives Chau, 17 anos, se declara pela primeira vez para seu namorado, Scott Pilgrim, 23 anos.

Scott Pilgrim contra o mundo, por Bryan Lee O’Malley
Scott Pilgrim contra o mundo, por Bryan Lee O’Malley

É uma imagem muito poderosa e expressiva, com apenas uma palavra. Observando o primeiro quadro, nós vemos “love” numa fonte antiquada. Essa fonte exageradamente elaborada remete aos primeiros livros impressos e, antes deles, aos livros feitos à mão pelos monges (e também a convites bregas de casamento e festa de quinze anos).

São livros que estão muito associados ao Romantismo medieval e ao tipo de amor que faz heróis matarem dragões e enfrentarem guerras em busca da donzela amada. De cara, a gente entende o quanto a personagem, novinha ainda, idealiza seu sentimento e o próprio namorado. Para ela, Scott Pilgrim é o seu cavaleiro na armadura brilhante. E então nós vamos para o próximo quadro.

Focado na reação do namorado, o que vemos não é nada digno de um cavaleiro. Literalmente, o cara foi golpeado pelo amor da garota! A palavra de repente aumenta de tamanho e passa a ocupar quase toda a moldura da imagem, tornando a cena claustrofóbica. E a fonte antiquada se torna algo mais arredondado, lembrando nuvens. Isso cria um contraste, pois ao mesmo tempo que uma nuvem é enorme e volumosa, ela também é volátil e se dissolve facilmente, assim como a relação dos dois é nem um pouco sólida. E ver o rapaz apanhando de uma nuvem, além de dar um ar nonsense cômico, revela a dificuldade do personagem em lidar com as emoções dos outros.

A palavra deixa de ser uma simples representação sonora e se torna a figura de uma emoção. Similar ao que acontece na poesia, particularmente na poesia concreta, onde a palavra é extraída do senso comum e trabalhada graficamente para atingir novas leituras.

Similar também à caligrafia japonesa e chinesa, em que o artista procura trabalhar as diferentes significações de um ideograma. Pequenas alterações feitas ao traçado de uma palavra podem alterá-la totalmente, um espirro então nem se fala. Veja como é trabalhado o nome “Joey” no quadrinho de Will Eisner:

aria
New York, a grande cidade, por Will Eisner

Primeiro há mudanças de tamanho e grossura na fonte de acordo com o entusiasmo da garota que grita pelo tal “Joey”. Mas, até o “Joey, aqui!”, a fonte é bem firme e durona. Depois há uma mudança maior.

O fdp do Joey não a escuta e a barulheira da cidade não tem fim (ela está envolta por onomatopeias de buzina e motor rosnando), então a garota grita mais uma vez.  E mais uma vez a fonte aumenta, só que agora fica mais fina e tremida, indicando a instabilidade na voz dela, um certo desespero, reforçado pela expressão no rosto e os punhos fechados. E, finalmente, a percepção: “Joey foi embora”. Cada letra do nome “Joey” separada por um espaço onde parece haver uma espécie de suspiro: a relutância da personagem em aceitar que foi abandonada.

A mesma palavra, mas diferente em cada momento. É foda né?

E nesse exemplo dá para ver bem o uso de uma das principais ferramentas dos quadrinhos: as onomatopeias. Splash, tic-tac, pá, fon-fon… São várias. Eu mesmo usei uma no início do texto. Kaboom, lembra?  É bom lembrar, ou vai chover panda… Bem, você pode perceber que, num texto, onomatopeias ficam desengonçadas. Nos quadrinhos, porém, elas parecem em casa.

O leitor quase as absorve imediatamente, é como se fossem transformadas em som. O jeito como as letras do “honk”e “rrrr” envolvem a personagem nos remete à barulheira do trânsito, com cada letra de um tamanho diferente, irregulares do mesmo jeito que o som dos carros passando. Uma verdadeira solidificação sonora. É algo mágico. E é a diferença que pode fazer um leitor entrar de vez numa história.

Muito mais do que juntar palavras e imagens, fazer quadrinhos é tornar cada palavra uma imagem, algo vivo, com pernas, que pula da página, te dá um tapa na cara e segura você pela mão e o leva para outro mundo. E para encerrar o papo, se você ainda não entendeu, um quadrinho do Ziraldo cheio das onomatopeias:

zerois
Os zeróis, por Ziraldo
Társio Abranches
Aluno com mais estrelas douradas na classe de alfabetização da Escola Cachinhos de Ouro, também sou formado em Rádio e TV e em Produção Editorial pela UFRJ, mas não com tanto louvor. Trabalho como revisor de livros, tenho um conto publicado pela Andross Editora, já fui crítico de quadrinhos do site O Grito e vez ou outra faço uma tirinha para confirmar que desenho mal. Você vai me ver falando sem parar sobre quadrinhos e suas páginas que misturam cultura pop, arte, vanguarda, conservadorismo e tudo que couber num balão de fala. Vou mostrar o que tem de melhor e o que tem de pior no mundo do gibi, então não se preocupe se você está por fora do assunto. Acompanhando a coluna você vai entender que tem quadrinho para cada um e que nem tudo é super-herói com cueca para fora da calça. E se você curte cueca para fora da calça, tem lugar para isso aqui também.

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